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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Assustador

 O dono da bola: Iniesta trouxe o protagonismo para si, foi eleito o melhor jogador da Eurocopa e dá a volta por cima após uma turbulenta temporada (getty images)

Pode parecer exagero, mas o título que encabeça esse texto tem tudo a ver com o futebol da Espanha. Bastante criticado durante toda a Eurocopa, taxado de pragmático, chato e sonolento até mesmo pela imprensa espanhola, a Fúria deixava no ar uma interrogação: seria capaz de vencer e convencer? Pois bem, o tri-campeonato europeu, o segundo consecutivo (algo inédito na história da competição), serviu para jogar todas as argumentações anti-Espanha por ladeira abaixo. A Roja venceu, convenceu e foi campeã. Em sua melhor exibição em terras ucranianas, a equipe treinada por Vicente Del Bosque deu um enorme passo rumo à galeria dos maiores do esporte. Os 4x0 ante a Itália, tetra-campeã mundial, representa muito bem o poderio absurdo desse grupo.

Em campo, Del Bosque repetiu a mesma escalação que usou contra a mesma Itália na estreia na Eurocopa. Um onze inicial que, semanas atrás, criou dúvidas quanto ao estilo de jogo espanhol e gerou críticas ao treinador. Porém, o campeão mundial e agora europeu deu andamento ao que faltava: a ousadia. Se é para comparar, como a imprensa espanhola tanto gosta de fazer, a Espanha da final lembrou aquela avassaladora que conquistou a Eurocopa em Viena há quatro anos. Foi incisiva, utilizou bastante seus pontas, com destaque para a grande partida de David Silva, viu em Fàbregas um falso nove de excelente nível e, sobretudo, teve em Xavi seu principal articulador. 

O dono da camisa oito foi outro nome que decepcionava na competição. Como o blog já previa, o fato de Del Bosque adiantá-lo para um setor do meio-campo onde não estava acostumado a jogar foi um dos principais fatores para seu mau futebol no torneio. Além disso, o cansaço de uma temporada para lá de cansativa com o Barcelona e o surgimento de novos problemas físicos valeram para Xavi não mostrar nem 80% de seu futebol. Ele mesmo admitiu antes da bola rolar que se sentia um pouco decepcionado com suas exibições. "Gostaria de poder ajudar mais", disse. Na coletiva pré-jogo, porém, os múltiplos elogios de Del Bosque, que mostrou confiança no cérebro da equipe, valeram para seu futebol aparecer. Xavi tomou conta do meio-campo, assistiu Alba e Fernando Torres, cadenciou o jogo e, além disso, tomou conta de Pirlo durante os 90 minutos.

Os grandes trunfos da Roja para parar a Azzurra foram congestionar o meio-campo para evitar a superioridade numérica do losango italiano, alternar Xavi e Fàbregas no cerco a Pirlo e combinar retenção de bola e verticalidade, arriscando mais o passe longo e as ultrapassagens, utilizando bastante das infiltrações, algo que tanto faltava nessa equipe. Tanto que não houve o habitual controle da posse de bola (apenas 53% na primeira etapa e 57% no total), com mais erros de passe e equilíbrio nas conclusões enquanto houve disputa. Os acertos compensaram. A objetividade ficou em primeiro plano. Como bem disse André Rocha, a fantástica atuação não isenta e até enfatiza as críticas ao futebol apresentado nas fases anteriores. Uma verdade. De acordo com Cesare Prandelli, treinador da Itália, a Azurra sentiu problemas físicos, por falta de descanso - vide Chiellini, que chegou lesionado à Euro e se machucou outras duas vezes durante o torneio.

Um título que acrescenta ao currículo respeitável de Vicente Del Bosque a única competição que lhe faltava. Como treinador, o madrilenho pode ser orgulhar de ter conquistado Champions League, Copa do Mundo e Eurocopa, uma trinca desejável por qualquer técnico do planeta. Além disso, pelo Real Madrid, Del Bosque conquistou duas Ligas Espanholas e um Mundial de Clubes. Um título que mostra, de vez, ao mundo o talento de Jordi Alba. O melhor lateral esquerdo da competição abusou do bom futebol e mostrou-se sócio perfeito de Iniesta no setor esquerdo. A dupla, agora, irá se encontrar mais vezes em campo, visto que Alba retornou ao Barcelona. Mais um motivo para temer o time azulgrená e tentar achar mais motivos para pará-lo.

Mas quem merece um parágrafo à parte nessa conquista é justamente Iniesta. Após passar por uma temporada irregular onde as lesões novamente voltaram a atazaná-lo, o meio-campista brilhou. Eleito pela Uefa o MVP da Eurocopa - com justiça, diga-se de passagem -, Iniesta foi o ponto de equilíbrio da Fúria e voltou a ratificar sua importância para a seleção. "O homem mais querido por toda a Espanha"se destacou em todas as partidas da Roja no torneio, sem exceção. É um merecido prêmio a um jogador extremamente profissional, avesso às câmeras, humilde, que só pensa no trabalho. "Não jogo para ganhar Bola de Ouro, e sim para ganhar títulos com meu país e meu clube", afirmou na zona mista. Mas você merece, Don Andrés Iniesta.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A evolução de Portugal

*Como todo irmão carinhoso, o blog dá espaço para comentar e analisar Portugal, adversário da Espanha na semifinal da Eurocopa e vizinho ibérico do país das touradas

O craque: Cristiano Ronaldo é a grande ameaça para acabar com a hegemonia espanhola (getty images)

No dia 29 de junho de 2010, Portugal se despediu da Copa do Mundo nas oitavas-de-finais. Na África do Sul, a equipe treinada por Carlos Queiroz viu a Espanha ser seu grande algoz. Na Cidade do Cabo, sofreu ante o jogo de posse de bola e troca de passes espanhóis e foi uma das presas da futura campeã mundial. À época, o clima nos bastidores não era dos melhores e boa parte dos jogadores estavam insatisfeitos com a gerência do treinador. Nesta quarta-feira, quase dois anos depois, os rivais ibéricos voltam a se enfrentar. Dessa vez, valendo vaga na grande final da Eurocopa. A Espanha é favorita, mas diferentemente do confronto no Mundial os gajos vêm com enormes expectativas de vitória. Além do confronto de dois anos atrás, Espanha e Portugal se encararam recentemente na Eurocopa de 2004. No jogo decisivo da fase de grupos, os portugueses, anfitriões do torneio, despacharam a Fúria precocemente com um gol de Nuno Gomes. A história do confronto está do lado espanhol: em sete jogos oficiais, quatro vitórias e apenas uma derrota.

Após passar de fase num grupo considerado da morte, a confiança do selecionado luso aumentou. A evolução da equipe desde a eliminação na África até o confronto de amanhã é notória. E boa parte dos créditos têm que ser direcionados a Paulo Bento, treinador que assumiu a seleção após o fracasso no Mundial. A troca de comando durante as eliminatórias foi crucial para a recuperação do ânimo do público e dos jogadores. Cristiano Ronaldo, um dos principais jogadores da Eurocopa até o momento, foi um dos mais favorecidos após a chegada do ex-volante de Benfica e Sporting Lisboa (na Espanha, atuou no Oviedo). Acostumado a jogar isolado no ataque à época de Queiroz, o dono da camisa sete se sente mais à vontade com o novo treinador, que o coloca para atuar na posição onde mais gosta: à esquerda do ataque, como no Real Madrid. Ronaldo, contudo, não se limita somente a esquerda e tem liberdade para flutuar em qualquer parte do ataque, confundindo a defesa adversária. Nem todos, porém, subiram no mesmo barco. Desentendimentos com o técnico fizeram com que Ricardo Carvalho e Bosingwa se afastassem da seleção.

Sua escolha para o cargo não era exatamente uma unanimidade entre o público. Em seus seis anos no Sporting, não conseguiu ganhar um campeonato nacional, limitando-se a quatro títulos de copas. Naturalmente, só existe um José Mourinho, e não está em seus planos imediatos assumir a seleção agora, embora tenha se colocado à disposição para dirigir interinamente a equipe após a saída de Queiroz. As suspeitas sobre Paulo Bento rapidamente desapareceram com os resultados, e os temores de que ele adotaria um esquema excessivamente defensivo não se confirmaram. Apesar do pouco tempo para trabalhar, conseguiu implantar disciplina tática e conquistar a confiança do grupo de jogadores. O elenco ficou ao seu lado após as brigas com Carvalho e Bosingwa.

As mudanças são significativas em praticamente cada posição do campo. No gol, a principal para muitos. Após uma boa participação na Copa do Mundo, Eduardo esqueceu todo seu futebol no Genoa, onde caiu substancialmente de produção e falha à rodo. No continente africano, foi um dos poucos que teve atuações positivas. Manteve a porteira intacta ante Costa do Marfim e Brasil e evitou uma derrota mais trágica contra a Espanha. Tentando recuperar prestígio, voltou a Portugal para defender o Benfica, mas não demorou muito para perder a titularidade para Artur. O bom Rui Patrício, após uma grande temporada com o Sporting de Lisboa, é o preferido de Paulo Bento para a posição.

A defesa também passou por reajustes. Os problemas extracampos com Ricardo Carvalho, que renunciou a seleção após ter sido sacado do time titular, no início da temporada passada foi visto como uma dor de cabeça para o treinador. Até o amistoso contra a Turquia, o último antes da partida contra a Alemanha, na estreia na Eurocopa, o setor passava muita desconfiança. Os três gols sofridos diantes do turcos geraram uma incógnita que, curiosamente, foi esquecida durante a competição: está bastante sólido e vê em Pepe um líder nato. O jogador do Real Madrid, que fora muito utilizado como volante na seleção, é um mago e passa a sustentação necessária para o esquema de Paulo Bento. Tem feito partidas impecáveis (aliás, vem de uma temporada praticamente perfeita) e é o melhor zagueiro da competição ao lado do alemão Hummels. A outra mudança foi na lateral direita, onde o valencianista Ricardo Costa deu a vez a João Pereira, contratado pelo clube ché no início do mês. Fábio Coentrão, na esquerda, é sinônimo de jogadas perigosas pelo setor onde está o ponto mais fraco da Espanha: Arbeloa.

O meio-campo tampouco se livrou das mudanças. O sumiço de Pepe na volância foi substituído pelas importantes presenças de Miguel Veloso e João Moutinho. Miguel faz as vezes de Pepe na Euro e permite a Raúl Meireles, único sobrevivente da meiuca em relação à Copa, ficar menos sobrecarregado e jogar mais liberado, aparecendo como elemento surpresa nos ataques. Moutinho, que acabou cortado do Mundial, é o cérebro português. Comparado com Xavi pela imprensa lusa, o jogador do Porto é o grande articulador de jogadas. Dos pés deles, nascem as melhores oportunidades de Portugal. Os trio é muito bem disciplinado taticamente e ajudam a defesa quando atacada. Juntos, formam um meio-campo coeso e batalhador, principal esperança de Paulo Bento para (tentar) quebrar o fluxo de passes espanhol.

O ataque não passou por muitas mudanças dentro de campo, somente na postura. Cristiano Ronaldo tem atuado em grande nível com Bento e Nani, que entrou no lugar de Simão, é bastante importante no flanco direito. Os dois são as armas portuguesas para o confronto, sobretudo Ronaldo, que, assim como Coentrão, irá encarar Arbeloa pela frente como marcador invidual. Está aí a grande oportunidade do duelo ser decididor a favor dos gajos. Com a lesão do maño Helder Postiga, Hugo Almeida volta ao onze titular.

Em um amistoso em novembro de 2010, um promissor Portugal esmagou a Espanha, que ainda estava de ressaca pelo título mundial conquistado meses atrás. Os críticos portugueses são unânimes quando dizem que aquela foi a melhor atuação de Cristiano Ronaldo com a camisa da seleção. O craque jogou por apenas 45 minutos, o suficiente para fazer a vida de Busquets, Sergio Ramos, Piqué, Puyol e Xabi Alonso um inferno. Os 4x0 poderia ter sido muito mais, caso Nani não tivesse sido egoísta e deixado um golaço do camisa sete ter validado: um toque seu na bola na conclusão da jogada acabou invalidando o gol, por impedimento. O povo português espera uma atuação como essa de 2010 de Cristiano Ronaldo e cia para poder voltar a uma final de Eurocopa.

domingo, 24 de junho de 2012

Propaganda enganosa

 Com atuações positivas nesta Euro, Xabi Alonso tem saído da sombra de Xavi e é um dos destaques da competição (Marca)

Por Ubiratan Leal

Ver o jogo por cima, sem muitas considerações e reflexões, permite equívocos. É como avaliar o Espanha 2x0 França pelo placar, e pela superioridade espanhola durante a partida. A Fúria praticou seu futebol de toque de bola, não foi ameaçada pelos franceses e não teve dúvidas de que conseguiria se classificar. Boa atuação, então? Não é bem assim. A facilidade da vitória não significa que o desempenho tenha sido bom ou convincente. Foi seguro. E parte da segurança se deveu à passividade da França diante do placar negativo, diante do predomínio do sistema de jogo espanhol sobre o seu. Mas, quando precisou ser mais aguda e incisiva com esse seu futebol, a Espanha sofreu.

A troca incessante de passes neutralizou o meio-campo francês, mas a equipe de Vicente Del Bosque deu razão para quem fala em “futebol improdutivo”. Durante quase todo o jogo, o meio-campo não encontrou o ataque. Os espaços não apareciam, e a movimentação ofensiva não era suficiente para criá-lo. A crônica da falta que David Villa faz a esse time continua válida. O duelo foi modorrento durante os 90 minutos. Só houve um momento em que a dinâmica foi quebrada: quando a Espanha conseguiu jogar pelos lados. No caso, foi o apoio de Jordi Alba pela esquerda. Um lateral que aparece pouco, e, quando o fez, pegou Reveillère desprevenido. O espanhol venceu na velocidade e chegou livre na linha de fundo. Teve temo de olhar para a área e perceber Xabi Alonso livre para receber o cruzamento e cabecear para o gol. Detalhe para o passe de Iniesta, melhor da Espanha e da Eurocopa, no lance oriundo da jogada, que quebrou a linha defensiva dos Bleus.

Detalhe que nenhum jogador do meio-campo e do ataque encontraram esses espaços. Foi um lateral e um volante que apareceram. Isso não tira o mérito da Espanha, já que mostra que o perigo pode vir de diferentes lados. No entanto, também mostra os problemas do meio para frente, o que já ficou evidente nas partidas contra Itália e Croácia. O segundo tempo praticamente não existiu. Foi um time segurando a bola para manter o placar contra outro que olhava jogar. Fàbregas teve uma boa jogada, quando foi lançado por Xavi e só não fez o segundo gol porque Lloris salvou. Fora isso, foi um jogo arrastado, em que a facilidade dos espanhóis de impor seu jogo não significa que tenha pressionado o adversário e feito o que bem entendesse em campo.

Ah, e teve o segundo gol... Mas, convenhamos, só o árbitro viu aquele pênalti em Pedro. De qualquer modo, ele não mudou o andar da partida (o jogo estava nos minutos finais) e só ajudou a construir um marcador que dá uma sensação enganosa de vitória convincente. A Espanha tem mais bola do que jogou contra a França, e não pode se contentar pelo fato de o placar ter ficado em 2 a 0.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O 12º jogador

 No gol de Jesus Navas, Fàbregas foi dono de 90% da jogada (getty images)

Cesc Fàbregas chegou à Eurocopa como coadjuvante. Vindo de uma temporada onde se esperava que brilhasse mais no Barcelona, a expectativa era de ser reserva durante a competição. No entanto, Del Bosque surpreendeu a todos e começou o jogo de estreia contra a Itália com o catalão titular, cumprindo o papel de falso nove, bem longe de sua posição de origem. Cesc, que chegou a atuar assim em poucos jogos durante o início de 2011/2012, se sentiu claramente incomodado. Não cumpriu a função com excelência, mas marcou o gol que deu o empate à Fúria. Foi sacado da equipe titular no jogo seguinte contra a Irlanda, viu Fernando Torres anotar dois, mas, quando entrou em campo, também não passou em branco.

Contra a Croácia, Fàbregas voltou a sentar no banco. Viu, durante mais ou menos 75 minutos, a Croácia pressionar a Espanha e Fernando Torres passar despercebido no ataque. Sua entrada no lugar de um apagado Silva mudou os rumos da partida. Cesc, que havia desperdiçado boa oportunidade logo em seu primeiro toque na bola, se redimiu. Ele dominou a bola na intermediária, observou a passagem de Iniesta e tocou por cima, desmontando uma confiante e forte defesa croata. Iniesta dominou e, cara a cara com Pletikosa, rolou para Jesus Navas estufar as redes livres, dar a vitória à Espanha e tirar a equipe do caminho da Alemanha nas semifinais. O gol foi do andaluz e a assistência do camisa seis, mas o protagonista da jogada foi o catalão que vesta a camisa 10.

Impussionado pela temporada excelente de David Silva, que foi um dos destaques do Manchester City no título da Premier League, competição na qual Fàbregas não conseguiu levar o Arsenal à taça, era de se esperar que o barcelonista fosse relegado ao banco. Entretanto, tem quebrado qualquer tipo de desconfiança. Com Silva sentindo o peso de uma temporada cansativa, onde já havia caído de rendimento ao longo do segundo semestre, Cesc tem tomado o protagonismo que deveria ser do canário. Mais uma vez decisivo, não será surpresa se aparecer como titular ao lado de Fernando Torres mas no lugar do ex-ché nas quartas-de-finais.

Se ainda pode jogar em um nível superior ao apresentado nesta Euro, Fàbregas ao menos não tem decepcionado. Hoje, por exemplo, seria perfeitamente plausível ele aparecer em sua posição original no meio-campo no lugar de Xavi, outro que sente claramente o cansaço de uma temporada cansativa. As atuação do culé na referência do ataque mostra que ele é mestre no improviso, característica que Vicente Del Bosque mais gosta. Pelo menos pela Roja, Cesc nunca decepciona. Na Eurocopa de 2008, havia sido decisivo contra Itália e foi dono de um excelente jogo contra a Alemanha na final. Na Copa de 2010, foi dele a assistência para o gol de Iniesta. Agora, sabe que é a primeira escolha do treinador, chama a responsabilidade e faz Euro positiva (Iniesta, Casillas e Fàbregas foram os melhores da Espanha na fase de grupos). A Fúria tem um 12º jogador.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Aprendeu, Del Bosque?

 "Dois gols tá bom ou você quer mais?", poderia ter dito Fernando Torres a Del Bosque (getty images)

Antes da estreia na Eurocopa contra a Itália, Vicente Del Bosque se expressou utilizando todas as palavras: não usaria o modo Barcelona de jogar, com um falso nove. Puro blefe. Abdicou de Llorente, Fernando Torres e Negredo e foi a campo com Fàbregas na referência. O meio-campista do Barcelona (meio-campista, é bom deixar claro) marcou, mas a Roja penou para bater a meta defendida por Buffon. Só marcou porque abusou de seu estilo de jogo na jogada, com troca de passes e triangulação entre Iniesta, David Silva e Fàbregas. Minutos depois, Vicente sacou Cesc e colocou Fernando Torres. Em menos de 30 minutos, El Niño criou três oportunidades claras de gols. 

Não obstante, o treinador campeão mundial recebeu uma chuva de críticas após o duelo. Até José Mourinho e Luis Aragonés trataram de criticar a escalação inicial. O madrilenho manteve a calma e até acenou com a possibilidade de atuar novamente com a mesma escalação ante a Irlanda. Novamente, puro blefe. Dessa vez, positivo. Em relação ao jogo contra os italianos, uma única mudança: saiu Fàbregas e entrou Fernando Torres. Uma troca substancial. Não que Fàbregas seja mau jogador, muito longe disso. Acontece que não há como escalá-lo como centroavante. É abdicar das principais características dele. Fica longe da fluência de jogo no meio-campo, do tiki-taka feito pelo setor e, principalmente, da armação das jogadas, que, a bem da verdade, foi muito bem feita por Xabi Alonso contra a Irlanda.

A seleção de Trapattoni nada pôde fazer para segurar o ímpeto espanhol. Conhecido por armar bem uma boa retranca, como um bom e velho italiano, o treinador vê seus comandados decepcionarem. A Irlanda da Eurocopa é a antítese daquela das Eliminatórias. Sentindo o peso da competição, atua em um baixo nível e não consegue segurar os ataques rivais. Havia sofrido com os contra-ataques da Croácia e perdeu a cabeça ante o jogo de troca de passes espanhol. "Foi um golpe psicológico", como apontou José Capdevila, editor-chefe do Diário Sport. Daniel Leite, colunista de futebol inglês do IG, escreveu bem sobre a seleção e a definiu perfeitamente: Trapattoni prioriza a experiência em detrimento do talento. Em momento algum sabe o que fazer com a bola nos raros momentos em que a tem nos pés. Sai do torneio de forma decepcionante, já que o ferrolho que a caracterizou nas eliminatórias não foi eficiente em momento algum. 

Para a Espanha, valeu por três nomes. David Silva reencontrou seu bom futebol. Marcou uma vez e assistiu duas. Dos cinco gols espanhóis em solo ucraniano, participou de quatro. Ainda pode aparecer mais, mas sua evolução é notória. Há duas semanas, escrevi que ele, junto a Iniesta, seriam os candidatos a destaques da seleção e da competição. Quem começa a entrar nessa galeria é justamente o blaugrana. O melhor em campo contra a Itália voltou a repetir uma exibição positiva. Driblou, tocou, chutou. Para esse colunista, é, ao lado de Schweinsteiger, Pirlo e Dzagoev, o craque dessa edição da Eurocopa. 

O maior destaque, contudo, não poderia ser diferente de Fernando Torres. Há dois meses, tinha sua participação na competição colocada em xeque. Após uma temporada negra no Chelsea, sua reta final teve lampejos do velho Torres. O gol contra o Barcelona em pleno Camp Nou, pelo visto, valeu para recuperar a confiança de um dos melhores matadores dos últimos anos. Dentro das quatro linhas, ratificou a confiança de Del Bosque. Se movimento, saiu de fora da área várias vezes para participar das linhas de passes, abria espaço para as infiltrações de Iniesta, Silva e Xavi e marcou duas vezes. Sua boa partida é uma excelente notícia para a Espanha. Agora, a Roja pode contar com um centroavante de confiança e parar de ver as improvisações de meios-campistas no ataque. Com quatro pontos, joga por um empate contra a Croácia para avançar de fase.

domingo, 10 de junho de 2012

O erro de Del Bosque

 Vicente Del Bosque sério: no momento, não há motivos para risadas (getty images)

Enquanto treinador da seleção brasileira, Dunga fora severamente criticado por abraçar seu grupo e não fazer mudanças nele de jeito nenhum, não importando a fase de outros jogadores. O treinador, também, era bastante criticado por não repensar nos seus ideais, mesmo estando fora de validade. No Hemisfério Norte, há quem viva situação semelhante. A imagem de Vicente Del Bosque com os meios de comunicações espanhóis, antes mesmo da Eurocopa começar, não era das melhores, mas o fato da Fúria vencer, mesmo não convencendo, blindava e escondia as críticas. Bastou uma jogo fora do eixo para isso explodir.

Durante a semana, especulava-se bastante sobre como o treinador madrilenho iria a campo para encarar a Itália. Em sua primeira coletiva em solo ucraniano, Del Bosque chegou a afirmar que o Barcelona é uma de suas inspirações, mas que não copiaria todo o estilo de jogo blaugrana, sobretudo o fato de usar um falso nove (no caso do Barça, Lionel Messi), pois queria um centroavante de velocidade para poder entrar em sincronia com os meio-campistas nos contra-ataques, principalmente. A declaração chamou a atenção e deixou mais dúvidas no ar: se Fernando Torres e Llorente não se encaixam nesse perfil de referência proposta pelo treinador, Negredo, sua última opção, começaria jogando? O Mundo Deportivo chegou a confirmar a escalação da Roja com o andaluz, o que levava a um novo debate: se, no Sevilla, suas atuações mais abaixo do nível foram jogando exatamente como única referência, qual motivo levaria Del Bosque a utilizá-lo nessa posição num jogo importante de Eurocopa? E outra: se a proposta de jogo, a partir de agora, seria essa, por que o corte de Soldado, que se encaixe perfeitamente nesse estilo?

Porém, tudo não passava de um blefe. Mesmo desmentindo, a escalação inicial não teve nenhum atacante. O madrilenho foi a campo com Fàbregas de falso nove, surpreendendo a muitos. Uma escalação bastante controversa, principalmente pelo fato da Espanha ter criado muito poucas ocasiões na primeira etapa. Apesar de ter feito o gol (que, vale comentar, pareceu de um centroavante), Fàbregas parecia perdido. No Barcelona, chegou a ser testado por Pep Guardiola na posição duas vezes, onde não saiu-se bem. O próprio Del Bosque tem o exemplo negativo, quando utilizou David Silva na posição contra a Inglaterra na derrota por 1x0. O "4-6-0 ", dito por Muricy Ramalho, de fato não dá certo na seleção espanhola. Talvez para tentar surpreender Cesare Prandelli, treinador da Itália, Del Bosque tenha optado por essa escalação, que não deve ser iniciada contra a Irlanda.

A imprensa europeia, no geral, foi contra a falta de referência e até personagens como José Mourinho e Luis Aragonés criticaram o futebol exercido pela Roja. " Não é bom só toque de bola entre Xavi, Iniesta e Cesc sem que se crie uma ameaça a Buffon. É claro que houve um grande esforço dos meias espanhóis, mas sem um centroavante a Espanha teve um ataque estéril", disse o português. Para Aragonés, a fórmula de um falso nove funciona no Barcelona porque Messi é o jogador utilizado para desempenhar a função. O treinador campeão com a Fúria foi sintético e claro em suas declarações. Mesmo tendo desperdiçado três oportunidades, o uso de Fernando Torres (ou Llorente) é obrigatório. El Niño pode não ter feito gol, mas a zaga da Itália entrou em apuros depois que ele entrou. Referência ofensiva deixou De Rossi perdido. O jogador da Roma fez um primeiro tempo impecável e foi o melhor em campo ao lado de Iniesta, que recebeu a honraria da Uefa.

O preciosismo espanhol na hora da arremate final também foi um ponto negativo. A Espanha foi técnica e envolvente, mas quase sempre preferiu o passe ao chute. Xavi, Iniesta, Fàbregas e Silva entravam tocando e promovendo intensa movimentação, mas demoravam a concluir. Algo que vem chamando a atenção desde a Copa do Mundo, mas que Del Bosque insiste em continuar deixando passar batido. Diante de uma Itália que defendia no 5-3-2 – com De Rossi na sobra da zaga e os laterais Maggio e Giaccherini mais contidos – e só arriscava nos passes longos de Pirlo para Balotelli e Cassano, a campeã europeia e mundial não encontrava soluções ofensivas. Com  Arbeloa e Jordi Alba muito conservadores no apoio e Xabi Alonso organizando de trás, não havia o elemento surpresa para desmontar a marcação. 

Xavi, fora de sua posição no 4-3-3 espanhol, passou despercebido. Quem também decepcionou foi David Silva. Apesar da assistência linda para Cesc marcar, o camisa 21 pode atuar melhor do que ontem. Outro emblema da seleção é o fato de não aproveitar uma das principais jogadas do Barcelona. Enquanto os blaugranas são avassaladores e esmagam seus adversários por aproveitaram, à perfeição, as entradas em diagonais e as infiltrações pelos flancos, na Fúria a jogada inexiste. Para muitos, o principal motivo para os catalães golearem e a Fúria ser mais pragmática. Quinta-feira, a Espanha volta a campo e espera espantar todas as dúvidas colocadas em xeque após o empate na estreia. Enquanto isso, as dúvidas também permanece sobre a escalação. Del Bosque vai fazer jus às palavras e não jogar com um falso nove?

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Nos pés de David e Andrés

 Iniesta e David Silva chegam à Eurocopa como principais esperanças de título espanhol (telegraph)

O último teste da seleção espanhola antes da Eurocopa serviu para ratificar uma máxima que vem acontecendo com frequência na Fúria: atualmente, seus principais jogadores são David Silva e Andrés Iniesta. Foram eles que construiram a vitória sobre a China por 1x0. Iniesta, que entrou no segundo tempo, se infiltrou pela esquerda, como há tempos não fazia, e tocou para Silva finalizar de primeira. Um chute seco, com a canhota, que, contudo, ainda deixa dúvidas quanto ao estilo de jogo espanhol.

Uma reportagem especial do Marca trouxe à tona uma verdade: dentre as principais seleções europeias, a Fúria é a menos goleadora. Algo que vem acontecendo desde quando Del Bosque assumiu a Espanha, precisamente no período da Copa. Na África do Sul, vale lembrar, a seleção só venceu uma partida por dois gols de diferença (contra a Honduras). No restante, vitórias apenas por 1x0 contra Portugal, Paraguai, Alemanha e Holanda e um 2x1 no último jogo da fase de grupos contra o Chile. Não obstante a uma Fúria mais pragmática, a ausência de Villa influi mais para isso. Ainda que tenha preferência por Fernando Torres e El Niño tenha recuperado pontos após o gol contra a Coreia do Sul, ontem o treinador madrilenho iniciou com Negredo. É, segundo o Marca, o preferido de Del Bosque para iniciar contra a Itália, no próximo domingo, acredite se quiser. Mas o andaluz não é um centro-avante de ofício que fica mais preso à área, como Torres ou Llorente. Entretanto, é, entre os quatro atacantes do elenco, o que mais se aproxima do estilo de jogo de Villa. Mas leva a um novo debate: pelo esquema tático utilizado, não seria preferível o atacante do Athletic Bilbao ou o do Chelsea? Negredo, quanto testado, não se saiu bem como referência do Sevilla. Suas melhores atuações foram jogando ao lado de Kanouté.

O estilo de jogo da Fúria é baseado no toque de bola e na paciência para chegar as redes. Nesse quesito, quem acelera as jogadas são justamente Silva e Iniesta, os extremos do 4-3-3 espanhol. Embora limite seu futebol, é perfeitamente possível entender o que se passa na cabeça de Del Bosque quando adianta Iniesta à ponta esquerda. O madrilenho quer ganhar mais força no meio-campo, escalando Xabi Alonso e Busquets juntos. Porém, paradoxalmente, o setor fica pesado e retira Xavi da parte do campo onde mais gosta de atuar: a ligação meio-ataque. Vicente até tentou barcelonizar a Fúria, mas não durou muito tempo. Nesse módulo tático, Xavi cumpre um papel semelhante ao de Iniesta no Barcelona, com a criação das jogadas ficando, principalmente, com Xabi Alonso. Não que Xavi não crie, lógico, mas os ataques, na maioria das vezes, são orquestrados pelo volante merengue.

Diferentemente do que acontece com Iniesta, Silva não sente uma queda no seu futebol quando atua mais adiantado do que de costume. O homem de 14 assistências na Premier League, o líder no quesito, consegue se adaptar à sua função na seleção. No Manchester City, Silva normalmente exerce um papel duplo, de criação de jogadas e recomposição para marcar um dos laterais adversários, como fazia Juan Mata com André Villas-Boas no Chelsea. Seu nível caiu demais entre janeiro e abril, quando era substituído com freqüência, mas não deixou de ser o principal jogador espanhol na temporada, empatado ou até um pouco à frente de Xavi, que caiu de produção na reta final. Na Fúria, o canterano ché começa a ganhar um novo peso: de protagonista. Ante coadjuvante, seus jogos após a Copa do Mundo o fizeram ganhar moral com Del Bosque, que o relegava ao banco, mas não teve como resistir. Suas últimas atuações com a Espanha foram tão acima da média que a imprensa espanhola passou a chamá-lo de Messi da Roja.

A entrada de Iniesta no segundo tempo do jogo contra a China evidenciou que ele é o parceiro ideal de Silva. Os dois trocaram tabelas, se aproximaram muito para construírem jogadas e aumentaram as ocasiões de gols espanhol, escassas na primeira etapa. Quem se beneficia desse modo de jogar da dupla é Xavi. O maestro barcelonista, no caso, pode ficar menos sobrecarregado possível e, se as atenções da marcação adversária caírem em cima de Silva e Iniesta, ficar mais livre para atuar. Um possível revezamento com Xabi ou a entrada de Mata ou Fàbregas para recuar o barcelonista à sua posição de origem seria importante numa hipotética decisão de Del Bosque.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Vicente Del Bosque e o plano B

 David Villa, o maior artilheiro da história da seleção espanhola, não estará presente na Eurocopa. O que Vicente Del Bosque fará? (AS)

O mistério acabou: David Villa não irá à Eurocopa. Por meio de um comunicado, a RFEF antecipou que o atacante asturiano não será chamado por Vicente Del Bosque no próximo dia 27, quando o treinador irá divulgar a lista com os 23 nomes que irão tentar o tricampeonato europeu para a Espanha. Por meio de seu twitter pessoal, Villa lamentou sua ausência: “Tentei até o final, mas não poderei estar 100% para a Eurocopa. Hoje, liguei para o treinador para comunicá-lo disso. Fui honesto", postou. Pelo visto, a decisão foi toda do Guaje, que fraturou a tíbia num confronto contra o Al-Saad, em dezembro, válido pelo Mundial de Clubes. O blog não irá entrar em detalhes, mas Villa fará falta.

Atualmente, o atacante azulgrená está cinco meses sem disputar uma partida oficial. Sem estar apto para jogar, a não presença do Guaje fez falta para o Barcelona durante esse período, o que ficou mais evidenciado na reta final da temporada, nas partidas contra o Chelsea e Real Madrid. Sem as imprevisíveis entradas pelas diagonais do camisa sete pela esquerda, os blaugranas concentraram muito seu jogo pelo centro, sendo presa fácil da retranca, sobretudo, montada pelo time londrino. Outro problema em questão foi o fato de Xavi ter abdicado muito de seu lancamento longo visando David. Além disso, seus substitutos, Tello e Cuenca, deixaram a desejar, mostrando que não tem cacife e muito menos o poder de decisão do ex-Valencia, o maior artilheiro da história da Fúria e um dos principais responsáveis pelo título mundial de 2010.

Na cabeça de Del Bosque, a ausência de Villa, mesmo num estado físico abaixo do desejado, não seria problema. As declarações do treinador nascido em Madrid nos últimos meses mostraram plena convicção de que seu principal atacante estaria à sua disposição na Polônia e Ucrânia. Logo após o amistoso contra a Venezuela, quando Soldado anotou três gols, Del Bosque mostrou cautela nos elogios ao atacante ché, indicando que não seria titular pela vaga de Villa estar garantida. 

A Espanha, principalmente após a Copa, tem jogado de maneira mais diferente. O meio-campo, bastante povoado de volante, não arma com tanta intensidade como o pré-Copa. A manuntenção da posse de bola continua, mas os deveras deslocamentos de Iniesta à esquerda do atacante ratifica que isso não faz bem à seleção - nem para o Barcelona, quando utilizado dessa forma. Com Busquets, Xabi Alonso e Xavi, distante do local onde mais gosta de atuar, formando a meiuca do 4-3-3, o setor fica bastante pesado. A Roja toca, toca, toca e nada de finalização a gol. Principal atributo de Villa, suas finalizações farão falta.

A menos de um mês da estreia na competição europeia (10 de junho, contra a Itália), Del Bosque, pelo visto, não tem alternativas a Villa. Nos próximos dias, fará três amistosos que deverão cravar sua decisão e sentenciar o modo de jogar espanhol na Eurocopa. Contra Sérvia, Coreia do Sul e China, o madrilenho preciará testar três formações diferentes. Afeito ao 4-3-3 e ao 4-2-3-1, predominou contra a Venezuela a última tática, dando a entender que, sem Villa, Del Bosque vai jogar com um centroavante de ofício na referência de seu esquema. O 4-4-2 utilizado à época de Aragonés e contra Chile, Portugal e Paraguai na Copa, nunca mais foi testado. A confiança do treinador em Llorente e Soldado não é das maiores, o que explica a convocação de Fernando Torres, que cresceu de produção na reta final de temporada. Pelo visto, El Niño chega para ser titular.

O que pode não acontecer se o campeão mundial resolver repetir o módulo tático proposto contra Inglaterra, República Tcheca e Escócia, nos últimos jogos de 2011. Vimos uma Espanha à Barcelona: Silva e Fàbregas revezavam na posição de falso nove, o que para mim, à época, foi um claro sinal de que Torres seria reserva na Euro (só não estava no meu plano e de Del Bosque a lesão de Villa, dois meses depois). Aconteceu, porém, que contra a seleção mais forte das três, a Inglaterra, a dupla inexistiu, criando mais problemas para o madrilenho, que parecia convicto de barcelonizar a Roja. Contudo, Silva e Fàbregas dificilmente jogarão juntos novamente: nesses três jogos, Xavi esteve indisponível por lesão. Fase por fase, o blaugrana deverá sentar o banco mais uma vez.

Os cortes
Antecipa o Marca de hoje que Vicente Del Bosque irá cortar um lateral, um meia-atacante e um centroavante. Mesmo sendo destaque no último jogo, Soldado não tem sua presença garantida: entre ele e Llorente, o treinador optou pelo basco. Na lateral, Iraola, Juanfran e Monreal disputam uma vaga; Muniain, Jesus Navas, Pedro e Adrián, duas no flancos do campo; e Negredo e Soldado, uma no ataque. Convocado por Luis Millá para compromissos da sub-21, é possível que Muniain seja um dos cortados. Lembrem-se que Puyol, que irá operar o joelho, também está fora.

Para o blog
O time seria: Iker Casillas (Real Madrid); Andoni Iraola (Athletic Bilbao), Sergio Ramos (Real Madrid), Gerard Piqué (Barcelona), Jordi Alba (Valencia); Sergio Busquets (Barcelona), Xabi Alonso (Real Madrid); David Silva (Manchester City), Xavi (Barcelona), Andrés Iniesta (Barcelona); Fernando Torres (Chelsea). Os cortados: Juanfran, Muniain, Pedro e Negredo.

sábado, 24 de março de 2012

Quem quer ser o 9?


A menos de três meses da estreia na Eurocopa 2012 contra a Irlanda, a posição de centroavante no grupo espanhol está mais aberta do que nunca. A disputa mantém uma competência constante entre os cinco principais atacantes espanhóis no momento. A decisão não é facil e as diferenças entre eles são claras. Até o dia 15 de maio, data em que se conhecerá por parte de Vicente Del Bosque a lista definitiva para a competição, David Villa, Fernando Torres, Álvaro Negredo, Roberto Soldado e Fernando Llorente deverão convencer ao treinador nacional que é a melhor opção para ser a referência da Roja.

A lógica é que Del Bosque leve dois atacantes à Euro, mas existem outras opções que não se podem descartar. Esses planos alternativos aos principais terão maior ou menor peso em função do estado físico dos cinco supracitados acima nas semanas prévias ao segundo principal torneio de seleções. As deveras utilizações de Fàbregas como falso nove no Barcelona, as aparições de nomes como Muniain e Adrián e a polivalência de jogadores como Silva e Iniesta poderiam até descartar a opção de jogar com uma óbvia referência. Entretanto, parece improvável que o treinador madrilenho opte por uma dessas opções, embora seja importante lembrar. Há, também, a dúvida quanto a parte tática. Del Bosque não sabe se joga no 4-3-3 ou no 4-2-3-1 utilizado na reta final da Copa do Mundo.

Deste modo, e salvo algum imprevisto maiúsculo, o treinador campeão europeu com o Real Madrid deverá depositar em um desses cinco nomes suas esperanças de gols na busca pelo bi da Eurocopa. A incógnita quanto ao estado de Villa, a desastrosa temporada de Fernando Torres, a falta de experiência de Soldado em competições desse nível, a brusca queda de produção recente de Negredo e o perfil de Llorente levam o treinador a um dilema e abre um debate: quem deverá ser o '9' na Polônia e Ucrânia? Abaixo, o que os candidatos têm contra e a favor para ganhar a disputa.

David Villa
El Guaje vem fazendo um trabalho específico para chegar em forma à competição. Há algumas semanas, declarou que seu maior desejo é disputar a Eurocopa e poder ajudar o Barcelona na reta final da temporada. Na temporada, foram 15 jogos disputados (893 minutos) e 7 gols.

A favor: É o maior goleador da história da seleção, é decisivo em momentos cruciais e, em condições de jogo, sua presença é indiscutível. Unanimidade, não tem nem discussão se será titular ou não caso vá ao torneio.
Contra: Sua lesão no Mundial de Clubes, em dezembro, manteve-o inativo durante quase toda a temporada. Há quem diga que seja bastante difícil que chegue a tempo de disputar a competição.

Fernando Torres
Sua discreta temporada valeu até pela exclusão na última partida da Espanha, ante a Venezuela. Del Bosque citou que foi um alerta a El Niño, mas deixou claro que, se possível, irá sim deixá-lo de fora da competição. O apelo do povo espanhol já não é tão grande, como em outras ocasiões. Há uma semana, voltou a reconciliar-se com as redes, marcando dois gols contra o Reading, pela Copa da Inglaterra. Na temporada, foram 22 jogos disputados (1232 minutos) e apenas 5 gols.

A favor: Del Bosque o esperou até o último momento na Copa do Mundo e não hesitará em fazê-lo novamente, apesar de suas últimas declarações. Além disso, conta - e muito - com a confiança do treinador.
Contra: Dentre os cinco, é o que tem menos gols. Ficou quase seis meses sem marcar um golzinho sequer

Fernando Llorente
Presente habitualmente nas listas de Del Bosque, faz uma temporada muito boa. Mantém uma relação de amor com as redes e contribui de maneira decisiva para a temporada positiva do Athletic Bilbao. Na temporada, foram 23 jogos disputados (1782 minutos) e 19 gols.

A favor: Provavelmente, é quem faz melhor temporada entre os candidatos. Vive um grande momento, é um homem gol sedento por ir às redes e é presença indiscutível nas listas de Del Bosque.
Contra: Por não ter a velocidade como principal característica, foge do perfil de jogo proposto por Del Bosque. Ironicamente, é quem menos se encaixa no sistema e na forma de jogar da Fúria.

Roberto Soldado
Seu melhor argumento é marcar gols. Tem 20, sendo o atacante espanhol com mais número de gols na temporada. Contra a Venezuela, praticamente garantiu sua vaga no plantel anotando um hat-trick. Na temporada, foram 26 jogos disputados (2150 minutos) e 20 gols.

A favor: É o máximo goleador espanhol na temporada e aproveitou sua única oportunidade que teve com Del Bosque.
Contra: A principal desvantagem de Soldado perante os outros concorrentes é o fato de não ter sido testado outras vezes. A falta de partidas contra seleções de alto nível em seu histórico é bastante relevante.

Álvaro Negredo
Individualmente, o sevillista vinha em boa temporada. Porém, o fato de sua equipe estar fazendo uma temporada muito irregular acaba gerando consequência drásticas no desempenho de Negredo. Nos últimos meses, caiu de produção. Na temporada, foram 20 jogos disputados (1535 minutos) e 6 gols.

A favor: Foi a alternativa habitual nas ausências de Torres ou Villa. É totalmente adaptado ao grupo e ao esquema proposto por Del Bosque.
Contra: Seu recente histórico de lesões provocou uma queda considerável no rendimento. É muito provável que não chegará em seu melhor momento na temporada.

domingo, 25 de setembro de 2011

Raúl: você levaria?

Raúl trajando o uniforme da seleção espanhola: ainda há possibilidades para isso? (reuters)

O início de temporada do futebol europeu não reservou aos atuais atacantes que são frequentementes convocados por Vicente Del Bosque uma fase boa. Porém, de jogo em jogo, Villa e Fernando Torres vão recuperando a forma de algumas temporadas e começam a desencantar. Llorente, que apareceu como titular no último jogo da Fúria, ainda está bem opaco num Athletic Bilbao bem confuso com Marcelo Bielsa. Apenas Negredo vive uma fase interessante: em cinco jogos, balançou a redes três vezes.

A má fase destes traz à tona um velho conhecido do povo espanhol e de Vicente Del Bosque: Raúl Gonzáles Blanco, segundo maior artilheiro da história da Espanha e bi campeão europeu e espanhol com Vicente Del Bosque no início do século. Raúl Madrid, como é conhecido, ainda tem esperanças de ser convocado à Eurocopa de 2012, mas mantem-se cauteloso: "se for convocado, ficarei muito feliz. Ir à seleção é um grande privilégio, mas não vou perder o sono. Estou tranquilo, a situação não mudou e não vai variar", disse em entrevista recente ao AS. Ontem, esbanjou classe, junto com Jurado (ex-Atlético de Madrid), ao marcar o quarto gol da vitória do Schalke 04 contra o Freiburg. A última participação de Raúl na seleção foi em 6 de setembro de 2006, na derrota de 3 a 2 para a Irlanda do Norte em Belfast.

Com 34 anos, o artilheiro madridista ainda pode mostrar mais pela seleção espanhola. Em questão de números, é soberano. Mas há uma lacuna bem vazia: a questão de títulos. Foi apenas um, que, vale lembrar, foi com a seleção de base (Eurocopa Sub-21 de 1996). Com a principal, colecionou fracassos: Copa do Mundo e Eurocopa, além das Olímpiadas de 2000, onde foi medalha de prata. O início de temporada com o Schalke 04 é excelente, o que mostra que o craque é o atacante espanhol que vive em uma melhor fase no momento: seis gols em sete jogos. Na temporada passada, quando "surpreendeu" a Europa ao comandar o Schalke 04 semifinalista de Uefa Champions League - ratificando que essa é a sua competição -, foram 19 gols em 30 jogos.

Hoje, ainda há alguns aspectos que afasta Raúl da seleção. Vicente Del Bosque tem, teoricamente, um grupo fechado, além de prezar por jogadores jovens (vide a convocação de Pedro à Copa do Mundo em última hora). Há, também, a questão do atual esquema que o treinador utiliza: o 4-3-3 não oferece garantias ao atacante. É difícil saber até se, no fundo, ele tem essa pretensão. Vale lembrar que, na Copa do Mundo, o esquema utilizado foi totalmente oposto ao das eliminatórias (mudou do 4-4-2 de Aragones para o 4-5-1 com Villa como referência). Um esquema com três meias e um atacante também não seria o ideal para El grán capitán blanco.

A decisão precisa passar pela análise do aproveitamento dele e de outros atacantes na temporada (Villa, Fernando Torres, Llorente, Negredo, Pedro). Fisicamente bem, aos 34 anos, Raúl seria alguém com potencial decisivo em minutos finais. A pergunta final que fica: se ele continuar em uma boa fase, com aproveitamento melhor que os atacantes da seleção, será possível?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Euro é ali

Xavi e Iniesta foram os nomes da Espanha, que conseguiu a classificação à fase final da Euro (reuters)

A Espanha está classificada para a fase final da Eurocopa 2012 - assim como as potenciais favoritas Alemanha, Itália e Holanda. E depois deste ponto final, os espanhóis entrarão no torneio que Polônia e Ucrânia sediarão disposto a brigar firme pela manuntenção do título. Entretanto, o time de Vicente Del Bosque não fez frente àqueles que serão seus principais adversários pela disputa do título. Após o título da Copa do Mundo, a Fúria, é verdade, não perdeu nenhum jogo oficial, mas em amistosos contra seleções de alto nível não venceu nenhum.

Para início de conversa, Del Bosque lançou a campo o 4-3-3 que deveria ter lançado em jogos anteriores. Ao invés de adiantar Iniesta, dessa vez o treinador madrileño optou por colocar na primeira linha de três Xabi Alonso, Xavi e Iniesta. E os blaugranas, que jogam por música, domaram Liechtenstein. Outro blaugrana que ganhou destaque foi Thiago Alcântara. O jogador debutou oficialmente com a camisa Roja e acabou com as -mínimas - chances de jogar um dia pela seleção brasileira.

A nota negativa ficou por conta do corte de Fernando Torres, aparentemente por opção técnica. Em uma má fase longiqua, El Niño Torres vai perdendo moral até com aquele em quem sempre foi uma aposta. Negredo, seu substituto, não deixou a chance escapar: anotou duas vezes, confirmou o ótimo início de temporada e aparece como boa opção para continuar jogando como referência no ataque - apesar de, no Sevilla, atuar mais pelos flancos do campo. David Villa, por sua vez, voltou a marcar após quatro jogos em branco e, além disso, superou Raúl novamente: El Guaje possui uma média goleadora maior que a do ídolo blanco, que marcou 43 vezes em 102 ocasiões. Villa precisou de apenas 78 jogos para marcar 46 gols.

O jogo
Logo aos três minutos, Negredo, que foi o nome do jogo, avançou com total liberdade na fraca defesa adversária, que não esboçou reação. O chute, no entanto, saiu pela linha de fundo. Nos minutos seguintes, a Espanha continuaria mostrando o motivo de merecer a classificação antecipada para a competição continental e chegou perto de abrir o placar aos cinco, aos nove, aos treze e aos vinte, todas não aproveitadas por Villa e Negredo, que se entrosaram com muita facilidade no setor ofensivo da Fúria, que teve calma para abrir o placar.

Xavi buscou uma bola no campo de defesa e muniu Negredo que, aos 34 do primeiro tempo, fuzilou o goleiro Jehle e anotou o primeiro da Espanha. Com a "porteira aberta", como se diz no mundo do futebol, os outros gols saíram sem tanto sofrimento. O próprio Negredo, que participou de chance clara de gol aos 36, aumentou o placar no minuto seguinte. Após passe de Iniesta, sempre com qualidade, Villa não foi "fominha" e muniu o artilheiro.

Ainda no primeiro tempo, Xavi fez o terceiro em cobrança de falta na qual o goleiro Jehle não se mexeu. O quarto gol sairia logo aos sete minutos da segunda etapa, confirmando a fragilidade do adversário. Em troca de passes entre Negredo e Sérgio Ramos, o lateral estava impedido, mas recebeu a bola e marcou o gol, que não foi anulado pela arbitragem. Com o hispano-brasileiro Thiago Alcântara em campo, a Fúria não diminuiu o ritmo e construiu outras chances reais para humilhar Liechtenstein, que só assistia os gênios da bola trocarem passes e aguardarem o momento de surpreender o camisa um.

A partir dos 15 minutos, era a vez do outro artilheiro dar as caras. David Villa foi premiado duas vezes pela bela atuação. O segundo gol do camisa sete e sexto da Espanha, aos 34, sairia dos pés de Xabi Alonso, que cobrou falta e o deixou livre para marcar. Sem dar qualquer chance de reação aos liechtensteinianos, a Fúria foi superior do início ao fim, venceu por 6 a 0 e coroou sua classificação para a Eurocopa de 2012, em que pretende defender o título.

sábado, 23 de julho de 2011

Campeones Del Mundo: José Reina

Reina seguiu uma tradição familiar de goleiros bem sucedidos (divulgação: Premier League)

Ele cumpriu a risca o ditado: filho de peixe, peixinho é. No caso de José Reina, troque o peixe pelo goleiro e tenha uma história familiar de sucesso. Miguel Reina, o pai, começou a atuar na Liga Espanhola em 1964, pelo Córdoba. Duas temporadas depois, chegou ao Barcelona para fazer história. Até hoje, o Reina Pai é detentor do recorde de minutos seguidos sem levar gol pelos blaugranas: 824 minutos durante a temporada 1972/73. Miguel ainda jogou pelo Atlético de Madrid antes de aposentar-se, em 1980, após 312 partidas na primeira divisão espanhola e dois troféus Zamora de goleiro menos vazado da temporada - em 1972/73 com o Barça e em 1976/77 com os Colchoneros.

Em 1982, Miguel resolveu dar continuidade a saga familiar de goleiros. Nascia José Manuel Reina Páez, o Pepe. Com 13 anos, o adolescente resolveu seguir os passos do progenitor e começou sua carreira nas canteras do Barcelona, clube defendido pelo pai por sete temporadas. Em 1999, debutava no Barcelona B para a Segunda Divisão B, a terceirona espanhola. Mas as seguidas lesões dos goleiros da matriz, o francês Richard Dutruel, ex-Celta de Vigo, e Francesc Arnau, também goleiro formado nas canteras, fizeram o comandante holandês Louis Van Gaal chamar o jovem arqueiro para a equipe principal.

Reina agradou no time de cima e ficou com o grupo na temporada 2000/01, sob o comando de Lorenzo Serra Ferrer. Alcançar as semifinais da antiga Copa da Uefa, atual Europa League, não foi suficiente para a direção continuar a aposta no jovem goleiro. Por isso, em 2001/02, o experiente argentino Roberto Bonano foi contratado do River Plate para ser o camisa #1 blaugrana, tomando o espaço de Pepe. A situação de revesamento entre os goleiros blaugranas na temporada 2001/02 não agradava Pepe, que buscava uma continuidade como titular para, quem sabe, figurar entre os selecionáveis para a Copa do Mundo da Ásia, no Japão e na Coreia. Reina não foi chamado por José Antonio Camacho para o Mundial e resolveu trocar de ares.

Em uma transação que envolveu a ida do brasileiro Belletti para o Barça, o goleiro desembarcou no El Madrigal, onde viria a se tornar um dos pilares que elevou o status do Villarreal na Espanha e na Europa. Pepe foi o titular do gol do "Submarino Amarelo" nos dois títulos da Intertoto em 2003 e 2004. Seu auge no clube foi na temporada 2004/05, quando ajudou a equipe comandada por Manuel Pellegrini a chegar na Uefa Champions League pela primeira vez na história. No ano seguinte, Reina trocou o El Madrigal por Anfield para ser reserva do veterano polonês Jerzy Dudek, protagonista da monumental virada do Liverpool na final da Liga dos Camepões diante do Milan em Istambul.

Na Inglaterra, Pepe Reina firmou-se como um dos melhores do mundo na sua posição. Vencedor da Luva de Ouro na Premier Legue por quatro vezes - 2006, 2007, 2008 e 2010 - o goleiro espanhol só não alçou ao posto de titular da seleção de seu país. Na Fúria, Casillas faz história desde que assumiu a camisa um e, por ser da mesma faixa etária de Pepe, o submete a reserva na quase totalidade das partidas.

No entanto, não foi por isso que ele deixou de fazer parte da maior geração de futebolistas da Espanha. Presente nas conquistas da Euro 2008 e da Copa 2010, Pepe conseguiu superar os feitos de seu pai, ídolo e referência na carreira. Com média de 0.91 gol sofrido por jogo, era de se esperar o sucesso. Afinal, ser bom goleiro, nesse caso, é tradição de família.

José Reina
Nome: José Manuel Reina Páez
Apelido: Pepe
Nascimento: 31/08/1982 - 28 anos
Local: Madrid, Espanha
Clubes que defendeu: Barcelona B, Barcelona, Villarreal, Liverpool
Títulos: Duas Uefa Intertoto (2004 e 2005 - Villarreal), Supercopa Europeia (2005 - Liverpool), FA Cup (2006 - Liverpool), Community Shield (2006 - Liverpool)
Prêmios Individuais: Quatro Luvas de Ouro da Premier League (2006, 2007, 2008 e 2010)
Seleção: 22 jogos
Títulos pela Seleção: Eurocopa 2008, Copa do Mundo de 2010

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Campeones Del Mundo: David Silva

El Mago: David Silva teve um importante papel na conquista da Eurocopa da Espanha e é um dos jogadores mais idolatrados pelos torcedores (superdeporte)

Um líder silencioso, que fala com os pés. Para Vicente Del Bosque, este é David Silva, um dos meio-campistas de melhor visão de jogo no futebol mundial. Com uma enorme eficácia em seus passes e lançamentos, além de dribles de corpo muito úteis no meio de campo, constrói o jogo com relativa facilidade. Seu futebol preciso sempre o ligou a clubes como Real Madrid, Barcelona e Manchester United. Mas, em agosto de 2010, foi o Manchester City que ofereceu a melhor proposta para o tirar o Mago do Valencia e levá-lo à Premier League.

Pela seleção espanhola, David Silva viveu dois momentos distintos nas maiores glórias de sua carreira: enquanto teve um papel importante no título da Eurocopa, onde fez um gol na semifinal contra a Rússia, passou a maior parte da Copa do Mundo no banco de reservas, sendo preterido por Del Bosque na partida contra a Alemanha, quando o treinador preferiu colocar Pedro no lugar de Fernando Torres ao invés do ex-Valencia. Trajando a camisa roja, sempre fez sucesso: foi vice-campeão europeu sub-17 e campeão europeu sub-19, quando foi eleito o melhor jogador e líder de assistências da competição. Em 2003, no Mundial Sub-17 da Finlândia, foi vice-campeão ao perder para o Brasil de Nilmar na final, mas deixou o torneio com três gols e quatro assistências.

Na cidade de Manchester, a cada dia tem se tornado o xodó da torcida. Jogador do mês do Manchester City em outubro, novembro e dezembro de 2010, David Silva não demorou para se adaptar ao futebol inglês. Campeão da Copa da Inglaterra com seu novo clube, que não ganhava algo desde 1968, terminou a temporada com quinze assistências, líder máximo do quesito no elenco e na Premier League. Antes de sua aventura no futebol inglês, entretanto, Silva conquistou os aficionados do Valencia. É verdade que demorou até que El Mago fixasse seu espaço no elenco ché: o clube de Paterna o havia emprestado a outras equipes duas vezes no início de sua carreira (ao Eibar e ao Celta Vigo).

No Eibar, disputou todos os jogos da equipe granote na Liga Adelante 2004/2005, marcando seis vezes e dando quatro assistências. No clube da Galícia, Silva começou a despontar. Em 2005/2006, foram seis gols e seis assistências e o "prêmio" de jogador mais importante da temporada do Celta, que terminou em oitavo e, por dois pontos, não conquistou a vaga na Copa da Uefa 2006/2007. Após deixar boa imprensão nos celestes, a diretoria ché resolveu apostar no Mago e o trouxe de volta à Comunidade Valenciana.

Seu primeiro ano trajando blanquinegrou foi fundamental. Titular incontestável do meio-campo da equipe treinada por Quique Sánchez Flores, fez uma dupla letal com o artilheiro David Villa. Na Champions League, mostrou seu lado mais decisivo ao marcar gols importante contra Inter de Milão e Chelsea. Nessa temporada, o Valencia acabou caindo nas quartas-de-finais da competição europeia, sendo o espanhol mais bem colocado do torneio. A temporada 2007/2008 foi complicada para o Valencia, que, por pouco, não foi rebaixado, caiu na fase de grupos da LC e teve que se concentrar na Copa del Rey para conseguir uma vaga na Copa da Uefa posterior. E deu certo: o Valencia ganhou a competição e Silva conquistou seu primeiro - e único, diga-se de passagem - título com os Chés.

Após a Eurocopa, sofreu uma lesão no tornozelo esquerdo e ficou três meses parado, voltando apenas em dezembro de 2009. Àquela altura da temporada, o Valencia era terceiro colocado de La Liga, mas não aguentou o desgaste pelo plantel curto e terminou o campeonato em sexto, ficando, mais uma vez, de fora da Champions League. Em sua última temporada trajando blanquinegro, Silva formou junto com Villa e Mata um grande trio ofensivo, responsável por 71% dos pontos do Valencia na Liga. Como premio pela ótima temporada do trio, os blanquinegros conseguiram voltar à Champions, que David Silva acabou não disputando devido a transferência para o Manchester City.

David Silva
Nome completo: David Josué Jiménez Silva
Data de nascimento: 8 de janeiro de 1986, em Las Palmas, Espanha
Posição: Meia-atacante
Clubes: Eibar, Celta Vigo, Valencia e Manchester City
Títulos: Copa del Rey 2007/2008, FA Cup 2010/2011, Eurocopa Sub-19 2005, Eurocopa 2008, Copa do Mundo 2010

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Campeones Del Mundo: Álvaro Arbeloa

Apesar de ter sido reserva no título da Eurocopa e da Copa do Mundo, Arbeloa sempre cumpre bem seu papel em seus clubes (AS)

No dia 29 de julho de 2009, o Real Madrid confirmou oficialmente na sua página na web a contratação de Álvaro Arbeloa, procedente do Liverpool, por cinco temporadas. Capitão do Real Madrid Castilla de 2004/2005, Arbeloa foi um dos poucos jogadores que vingaram daquela excelente equipe. Mesmo assim, foram raras as aparições do lateral na equipe principal naquela temporada. Na equipe Castilla, Arbeloa já demonstrava a versatilidade que o caracteriza hoje, mas atuava na maioria das partidas como zagueiro e, então com 21 anos, era um dos jogadores mais experientes do time.

Nascido em Salamanca, mudou-se para Zaragoza com apenas quatro anos de idade. Em sua nova cidade, ingressou à categoria de base do Zaragoza com 12 anos, onde ficou até os 18, até partir para a capital. No Real Madrid Castilla, conseguiu o grande feito de fazer parte do elenco que subiu da Segunda División B à Liga Adelante, jogando em uma equipe com jogadores como Granero, De La Red, Soldado, Negredo e Mata. Porém, entre 2004 e 2006, mesmo sendo o jogador mais elogiado da filial, Robocop disputou apenas duas partidas com a equipe principal e, sem muitas oportunidades, acabou rumando para o Deportivo La Coruña. Em julho de 2006, desembarcou na Galícia para assinar contrato com os blanquiazules.

Entretanto, sua aventura no Deportivo não durou muito, pois no último dia do mercado de inverno (em janeiro de 2007), o Liverpool desembolsou cerca de 4 milhões de euros para tirá-lo de La Coruña (o Real Madrid recebeu 50% da taxa). Mesmo sendo contra, Joaquin Caparrós, técnico do Deportivo à época, não conseguiu segurar Arbeloa na equipe. Na terra dos Beatles, foram boas atuações, que renderam convocações para a Fúria, até então treinada por Luis Aragoneses. A consagração de Arbeloa no Liverpool veio, ironicamente, contra uma equipe espanhola. No duelo contra o Barcelona, em pleno Camp Nou, os reds venceram por 2 a 1 de virada e Robocop foi eleito o melhor em campo, devido, principalmente, ao fato de ter anulado Lionel Messi, na época uma promessa ainda, é verdade, mas que estava voando (três dias depois, Messi viria a marcar um hat-trick ante o Real Madrid).

Após eliminar os blaugrana, os reds passaram por Olympiacos e Chelsea até chegar à final contra o Milan, reeditando a final de Istambul, em 2005. Com Kaká jogando o melhor futebol do mundo, Benitez optou por um meio-campo mais forte para combater, e Arbeloa acabou sentando no banco de reservas. Ao final, o Milan acabou vingando a derrota de dois antes e o Liverpool de Arbeloa ficou com o vice-campeonato. Em maio de 2009, teve uma forte discussão com uma das bandeiras do Liverpool, Carragher, em campo e os dois tiveram que serem separados pelos companheiros de equipe. Sem muito espaço na equipe, Arbeloa pouco a pouco ia se desligando do clube de Anfield Road, onde marcou apenas dois gols em 98 jogos.

Cegamente enlouquecido com o projeto Galáticos 2.0, Florentino Pérez não tardou a repatriar Arbeloa, mesmo contando com Sergio Ramos para a lateral direita. Polivalente, já atuou em todos os setores defensivos da retaguarda merengue, mas tem sido utilizado mais na lateral direita. Com Mourinho, Arbeloa tem sido mais utilizado em jogos mais pesados, devido ao fato do gajo não "confiar" muito em Marcelo em jogos assim. Pela seleção nacional, fez parte do plantel vencedor da Eurocopa e da Copa do Mundo. Convocado pela primeira vez à Fúria em janeiro de 2008, só foi estrear em Março desse ano, porque acabou se lesionando e tendo que ser cortado. De lá para cá, Arbeloa, assim como Casillas, Capdevilla e Xabi Alonso, foi convocado para todas as partidas da Fúria.

Álvaro Arbeloa
Nome completo: Álvaro Arbeloa Coca
Data de nascimento: 17 de janeiro de 1983, em Salamanca, Espanha.
Posição: Lateral direito.
Clubes: Zaragoza, Real Madrid Castilla, Deportivo La Coruña, Liverpool, Real Madrid
Títulos: Copa do Rei 2010/2011, Eurocopa 2008 e Copa do Mundo 2010.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Campeones Del Mundo: Xabi Alonso

Líder dos vestiários, Xabi Alonso é reconhecido por sua inteligência dentro e fora de campo (marca)

De origem basca, Xabi Alonso foi revelado pela Real Sociedad, sendo emprestado ao Eibar antes mesmo de estrear pelo clube de San Sebastián. Permaneceu por apenas uma temporada no Eibar, 2000/01. É filho do ex-jogador e ex-treinador Periko Alonso, membro da Seleção Espanhola na Copa do Mundo de 1982. Os dois irmãos de Xabi também se dedicam ao futebol: Mikel, defende atualmente o Tenerife, e o mais novo, Jon, é árbitro.

Após o retorno do empréstimo, atuou durante três temporadas como titular pelo Real Sociedad, sendo uma das grandes revelações da La Liga na temporada 2002/03, em que seu time por pouco não reconquistou o campeonato, ficando na segunda colocação, apenas dois pontos atrás do campeão Real Madrid.

Na temporada 2004/05, foi contratado pelo Liverpool, da Inglaterra, dirigido pelo espanhol Rafael Benítez. Foi eleito pelos torcedores do clube inglês como a melhor contratação do ano, seguido do seu conterrâneo Luis García. Ambos eram companheiros de clube e de seleção, assim como o também espanhol Pepe Reina.

No Liverpool, se destacou e passou pelo auge de sua carreira até o momento. Foi uma das importantes peças do clube inglês na final da UEFA Champions League 2004/05, iniciando como titular e atuando durante toda a partida. O Liverpool se tornou campeão daquela edição do torneio nas disputas de pênaltis, após um jogo histórico, no qual o clube reverteu um resultado de 3 a 0 em apenas 45 minutos contra o Milan, da Itália.

Foi também graças às suas atuações pelo Liverpool que Xabi Alonso conseguiu se manter durante muito tempo nas convocações da seleção espanhola, sendo titular ou reserva imediato de Xavi Hernández.Em 4 de Agosto de 2009, após uma longa negociação, Alonso acabou sendo contratado pelo Real Madrid, com valores não divulgados, mas especulados pela imprensa internacional em torno de €35 milhões. Foi mais uma das contratações milionárias do presidente Florentino Pérez (que acabava de retornar ao comando) para a temporada 2009/10. Atualmente é titular absoluto como volante da equipe galáctica.

Debutou com a seleção nacional no dia 30 de Abril de 2003 contra o Equador, em Madrid, onde a La Roja venceu por 4 a 0. Participou das fases finais da Euro 2004 e da Copa do Mundo de 2006, em que marcou o primeiro gol da Espanha na competição, o primeiro da goleada por 4 a 0 na estreia da seleção espanhola no torneio, contra a Ucrânia, em 14 de Junho de 2006.

Em 29 de Junho de 2008, Alonso foi, junto a sua equipe, campeão da Euro 2008. Jogou como capitão na terceira partida da fase de grupos, contra a Grécia, e foi eleito o melhor jogador da partida. Também jogou nas eliminatórias do torneio, como reserva na maioria das partidas.

Também esteve presente na Copa das Confederações de 2009, onde foi o autor do gol que deu o terceiro lugar a sua seleção contra a África do Sul, partida que terminou com o placar de 3 a 2. A grande expectativa da maioria dos torcedores para esse torneio era uma final entre Espanha e Brasil, o que não aconteceu, já que a Espanha foi eliminada nas semi-finais, sendo derrotada por 2 a 0 pelos Estados Unidos, que foram derrotados exatamente pelos brasileiros na final.

Ajudou sua seleção a obter 100% de aproveitamento nas eliminatórias europeias para a Copa do Mundo 2010, que será realizada na África do Sul. A Espanha foi a dona da melhor campanha nestas eliminatórias, terminando com a espetacular marca de dez vitórias em dez jogos, pelo grupo 5, com 28 gols marcados e apenas cinco sofridos.

Xabi Alonso
Nome completo: Xabier Alonso Olano
Data de nascimento: 25 de novembro de 1981, em Tolosa, País Basco.
Posição: Volante
Clubes: Eibar, Real Sociedad, Liverpool, Real Madrid
Títulos: Liga dos Campeões da Uefa 2004/2005, Supercopa da Uefa 2005, Copa da Inglaterra 2005/2006, Supercopa da Inglaterra 2006, Copa do Rei 2010/2011, Eurocopa 2008, Copa do Mundo 2010.

sábado, 9 de julho de 2011

Campeones Del Mundo: Fernando Torres

Fernando Torres pode olhar para trás e ver grandes feitos na sua carreira futebolística (fifa.com)

Ele é diferente. Para alguns, até diferenciado. Custa caro, mas dá retorno. Geralmente em forma de gols. Muitos gols. Nascido Fernando José Torres Sanz, o pequeno "El Niño" começou a carreira como goleiro, seguindo os passos de seu irmão. Colchonero desde nascença, contrariando a lógica em uma cidade onde o gigante e rival Real Madrid tem muito mais holofotes, Fernando Torres viu no ataque uma chance de vingar no futebol, já que a altura não era das mais apropriadas para um guarda-redes. A inspiração dessa vez vinha da televisão: o seriado "Oliver y Benji", que são os famosos Oliver Tsubasa e Benji Wakabayashi, protagonistas da série Super Campeões, como é conhecido o seriado no Brasil.

Entre as tentativas de bicicletas após bolas no travessão e chutes de trivela, Fernando atuava na base de um clube de Madrid que cedia jovens atletas para as categorias de base do Atlético. El Niño foi um dos três selecionados logo no primeiro ano, após marcar absurdos 55 gols. Estreou nos profissionais do Atlético de Madrid na temporada 2000/01, marcando seu primeiro gol diante do Albacete.

El Niño tinha status de estrela no clube. Era a maior jóia produzida nas canteras dos colchoneros em muito tempo. E correspondeu as expectativas enquanto atuou pelo clube madrilenho: foram 249 jogos e 91 gols em sete temporadas com a camisa tricolor. Como o Atlético não lutava pelo título dos campeonatos que disputava, grandes clubes de outros países e locais também se interessavam pelo futebol do atacante. Ao longo dos anos, os ingleses de Newcastle e Chelsea chegaram a entregar propostas por El Niño para o presidente Enrique Cerezo. A imprensa espanhola especulava, semana sim, semana também que o Barcelona via em Torres o seu #9 ideal.

Mas a proposta que seduziu Torres e a direção colchonera foi a do Liverpool. O manager Rafa Benítez, espanhol que treinava o clube da terra dos Beatles desde 2004, ofereceu 20 milhões de libras mais o meia esquerdo Luís García para o camisa #9 do Atlético ir jogar em Anfield Road.

Era o momento de Fernando Torres. Chegava a Premier League com um dos maiores salários do futebol, vestia a camisa de um clube tradicional e que tinha elenco para disputar o caneco de todos torneios que fosse jogar. E Torres correspondia a isso com gols. Foram 33 na primeira temporada com os Reds, além do terceiro lugar no prêmio de Melhor jogador do Mundo Fifa, no final da temporada.

Foram quatro temporadas em Anfield, com 81 gols marcados em 142 partidas. Nesse meio tempo, ele era a estrela da favorita Espanha na Euro 2008. Cumpriu seu papel de referência e foi líder da equipe rumo ao título, que veio com um gol dele, é claro. Pela Fúria em Copas do Mundo, Torres não teve tanto destaque. Nas categorias de base foi campeão europeu na Sub-16 e Sub-19 (2001 e 2002, respectivamente), mas em Mundiais foi discreto: em 2006, fez três gols em quatro jogos, mas a Fúria ficou nas oitavas-de-final. Na África do Sul em 2010, começou como titular, foi parar no banco de reservas durante o torneio e não marcou nenhuma vez, além de sair machucado na final. Mas levantou a taça de campeão...

Depois da Copa, Liverpool e Fernando Torres não tinham mais o mesmo entendimento. O Chelsea sabia disso e ofereceu algo entre 35 e 40 milhões de libras para ter El Niño em Stamford Bridge. A direção do clube não quis conversa e Torres jogou a primeira metade da temporada com a #9 vermelha. Em janeiro, o assédio foi tamanho que o Liverpool cedeu: o atacante espanhol custou 50 milhões de libras aos cofres de Roman Abramovich. O alto custo ainda não teve o retorno desejado: em 17 partidas, Torres marcou apenas uma vez - o segundo da vitória por 3-0 contra o rebaixado West Ham.

Aos 27 anos, com mais de uma década de carreira, Torres espera fazer no Chelsea o que todos esperam dele desde seu surgimento: a diferença. Ele, colchonero de infância em uma cidade de maioria merengue. Ele, desafiador de tabus desde a juventude. Ele, considerado a estrela de uma seleção antes que ela ganhasse tudo o que fosse possível - e que na hora H, não teve o poder de decisão que todos esperavam. A pressão está em cima de Fernando. Mas antes do apito final, sempre aparece um chute de trivela para resolver o problema.

Fernando Torres
Nome: Fernando José Torres Sanz
Apelido: El Niño
Nascimento: 20/03/1984 - 27 anos
Local: Fuenlabrada, Madrid, Espanha
Clubes que defendeu: Atlético de Madrid, Liverpool e Chelsea
Títulos: Segunda Divisão Espanhola (2001/02 - Atlético de Madrid)
Seleção: 86 jogos e 27 gols
Títulos pela Seleção: Europeu Sub-16 (2001), Europeu Sub-19 (2002), Euro 2008 e Copa do Mundo 2010

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Campeones Del Mundo: David Villa

David Villa foi artilheiro da Fúria nos dois últimos grandes torneios disputados e o Barcelona o contratou a peso de ouro (fifa.com)

Talvez ele não tenha o devido valor. Mas o reconhecimento que tem, para ele, já é mais que suficiente. Afinal, para o garoto nascido em um vilarejo de Langreo, o que conta são as pequenas coisas da vida. E, para isso, vale levar essa paixão de terceira divisão para o palco da final da Copa do Mundo.

David Villa tem uma trajetória incomum para os modernos tempos do futebol espanhol, recheados de super craques e transferências astronômicas de craques do exterior. "El Guaje" foi galgando espaços em clubes de maior dimensão aos poucos, chegando a um dos gigantes espanhóis apenas aos 28 anos, após já ter inclusive consolidado uma posição entre os titulares da Fúria.

Na infância, David fraturou o fêmur da perna direita. O fato o obrigou a aprender a chutar com o outro pé, moldando desde pequeno um dos ambidestros mais letais do futebol moderno. Mesmo com essa característica, aos nove anos, foi recusado pelas categorias de base do Real Oviedo, sob a alegação de ter pouca força e baixa estatura. A força, com o passar do tempo nas categorias de base do time local de Langreo, ele adquiriu. Já o 1,72m de altura nunca foram problema para um atacante de tantas outras virtudes.

Debutou entre os profissionais já pela equipe B do Sporting Gijón, onde ficou por duas temporadas. Estreou no time principal em uma partida da temporada 2000/01, mas se consolidou na equipe nos dois anos seguintes, onde teve média de quase meio gol por jogo, apesar de não ter conquistado o acesso para a primeira divisão. A vice artilharia na competição chamou atenção do Real Zaragoza, que havia conquistado o acesso com a segunda colocação. Três milhões de euros mais o passe do croata Mateo Bilic.

Em Zaragoza foram dois 12º lugares na Liga Espanhola, um título da Copa do Rei e 31 gols, desempenho que chamou atenção do Valencia, adversário derrotado na final da Supercopa local em 2004. Valendo quatro vezes mais que o valor pago duas temporadas antes, David Villa chegou à Valencia como solução para um ataque que tivera em Marco Di Vaio seu último artilheiro com apenas 11 gols na temporada 2004/05. "El Guaje" foi as redes por 25 vezes na sua primeira temporada, marca que chamou atenção de Luis Aragonés, técnico da Fúria que o convocou para o Mundial da Alemanha.

Seu único título com os "Ches" foi a Copa do Rei de 2007/08, mas o ambidestro asturiano continuava amedrontando as defesas adversárias. Na seleção, o desafio era cumprir de forma inédita o favoritismo e vencer a Euro 2008. Com quatro gols, foi o artilheiro do torneio e ajudou a amenizar o estigma de seleção "amarelona" da Fúria. A performance de Villa na seleção fechou o ciclo de um dos maiores ícones do futebol espanhol com a camisa do país: Raúl foi perdendo o espaço e a camisa sete para o asturiano, que apesar de não considerar-se um rival do ex-madrilenho, quebrou grande parte dos recordes obtidos pelo agora atacante do Schalke 04.

Mais 28 bolas na rede na temporada 2008/09 fizeram de "El Guaje" alvo dos galácticos de Madrid. Mas o clube merengue não entrou em acordo financeiro com o Valencia e Villa permaneceu nos Ches. A consolidação na seleção e no clube eram o trunfo do camisa sete para mais uma temporada de sucesso, mas nem ele, nem ninguém, esperava que tudo fosse ficar ainda melhor.

A temporada 2009/10 seria a última em Valencia e culminou com o título da competição de seleções mais importante do mundo. No Mundial, Villa superou a inoperância de seu companheiro de ataque (leia-se Fernando Torres) e foi co-artilheiro do Mundial com cinco gols. Villa marcou gols de grande importância, como os únicos tentos das vitórias diante de Portugal e Paraguai, sendo reponsável direto pela chegada da Espanha entre os melhores da competição. Nas fases finais, não brilhou com gols, mas já tinha dado sua contribuição efetiva.

O espírito coletivo demonstrado por ele ao longo da carreira, onde sempre procurou ser o mais efetivo quanto fosse possível, nunca chamando a atenção dos holofotes pra si, juntou-se ao fato dele ser o principal atacante de uma geração brilhante no país. E isso o levou para Barcelona, ao preço de 40 milhões de euros.

Em Barcelona, teria uma missão ingrata: substituir o sueco Zlatan Ibrahimovic, contratado a peso de ouro na temporada anterior e que não deu a resposta desejada por Josep Guardiola. Com El Guaje na equipe, o Barcelona impôs seu estilo de jogo contra todos os adversários e ganhou os dois principais campeonatos que poderia conquistar nessa temporada: o título nacional e a Liga dos Campeões. Com seu estilo de entrega total, Villa jogou grande parte da temporada como winger pela esquerda, avançado como todo time para marcar o adversário sobre pressão durante os 90 minutos e deixando o papel de falso nove para Lionel Messi.

Centroavante, ponta, atacante, não importa a nomenclatura. David Villa joga, se entrega, batalha pelo sucesso da equipe. Sua carreira demonstra isso. A trajetória dele é um sucesso, mas ele não quer o protagonismo. Ele gosta mesmo de ser o menino de Langreo, que admira o pequeno C.F. Tuilla, levando o clube consigo até na comemoração do maior título que um jogador pode conquistar. Villa é simples, como chutar com as duas pernas.

David Villa
Nome: David Villa Sánchez
Apelido: El Guaje
Nascimento: 3/12/1981
Local: Langreo, Asturias, Espanha
Clubes que Defendeu: Sporting Gijón, Real Zaragoza, Valencia e Barcelona
Títulos: Copa del Rey (2004 - Zaragoza / 2008 - Valencia); Supercopa (2004 - Zaragoza / 2010 - Barcelona); La Liga (2011 - Barcelona); Liga dos Campeões (2011 - Barcelona).
Seleção: 75 jogos e 47 gols (maior artilheiro da história da seleção espanhola)
Títulos com a Seleção: Euro 2008 e Copa do Mundo 2010 (em ambos, sendo o artilheiro do torneio)

terça-feira, 21 de junho de 2011

A primeira glória

O onze inicial da final contra União Soviética. 47 anos atrás, a Espanha tornava-se campeã europeia pela primeira vez em sua história (marca)

Há exatos 47 anos, no dia 21 de junho de 1964, a seleção espanhola de futebol comemorava pela primeira vez em sua história um título. Após o quarto lugar na Copa do Mundo de 1950 no Brasil e o fracasso na Copa de 1962 no Chile, a Fúria, liderada por Luis Suárez, maior jogador espanhol de todos os tempos, Josep Maria Fusté, Franciso Gento e treinada por José Villalonga conquistou a Eurocopa em seu território após vencer a ex-URSS na final.

Aquela gereção mágica de 64 bateu na trave por várias vezes, mas mereceu o título europeu. Era composta por jogadores históricos e conquistou a Europa por merecimento. Conhecida por amarelar na hora H - estigma que caiu por terra abaixo após as conquistas da Euro de 2008 e da Copa do Mundo de 2010, a má sorte espanhola, como sempre definiu o povo espanhol, começou nessa época. No Mundial do Chile, em 1962, a Fúria chegou com status de favorito por ser a base do, à época, quase imbatível Real Madrid, que arrasava em solo europeu, mas caiu na primeira fase e viu o Brasil de Garrincha e Pelé, algoz na fase de grupos, levar a taça Jules Rimet.

Na Eurocopa de 64, o caminho começou sem sustos. Após eliminar com facilidade a Romênia por 6 a 0 na primeira fase, Irlanda do Norte, nas oitavas de finais, num agregado de 2 a 1, e Irlanda, nas quartas de finais, no agregado de 7 a 1, La Roja chegou até à fase semifinal, que, a partir de então, seria disputada na própria Espanha. A adversária da vez seria poderosa Hungria, que havia deixado para trás nomes fortíssimos como Alemanha Oriental e Inglaterra, que seria campeã mundial dois anos depois. Segundo os jornalistas espanhóis, a partida foi bastante mirrada, como o previsto. Num Santiago Bernabéu com mais de 80 mil espectadores, o 1 a 1 do tempo normal levou a um tempo extra de trinta minutos e, numa espécia de "Iniestazo", Amancio deu a vitória à Fúria aos 30 minutos da prorrogação. Na outra semifinal, no Camp Nou, a União Soviética bateu com facilidade a Dinamarca por 3 a 0.

Na final, o favoritismo foi dividido 50% para cada lado. Do lado soviético, a melhor defesa da competição com apenas dois gols sofridos desde a fase eliminatória e, de praxe, ainda contava com Lev Ivánovich Yashin, a Aranha Negra, o melhor goleiro da história do futebol (para alguns) protegendo as redes. "Como iremos derrotar esta seleção?", perguntavam os milhares de torcedores espanhóis presentes no Bernabéu. As técnicas de motivação ainda não era tão utilizada à época, e para reforçar a motivação dos jogadores, talvez, Villalonga tenha dito apenas um "vamos com tudo!".

A Espanha começou o jogo a mil e bastante ofensiva. Jesús Maria Pereda, que com quatro gols foi o artilheiro da competição, pôs a Roja à frente do marcador logo aos seis minutos. No entanto, a felicidade durou pouco, pois, aos oito minutos, Khusainov empatou a partida para os soviéticos. A tensão durou até aos 41 minutos do segundo tempo: Marcelino Martínez aproveitou assistência de Pereda e venceu Yashin para colocar seu nome na história do futebol espanhol e levar os mais de 80 mil torcedores presentes no estádio do Real Madrid à loucura. "Gol da Espanha; gol de Marcelino, senhores", anunciava eufórico o locutor do Bernabéu.

A Espanha era campeã europeia pela primeira vez em sua história. O segundo título demorou - e como: 44 anos depois, em 2008, na Áustria, a seleção espanhola capitaneada por Casillas e liderada por Xavi, Iniesta, Villa e Fernando Torres conquistava o bi-europeu após bater a Alemanha. Esse título, contudo, será relembrado em outra hora.

Onze inicial: Iribar; Rivilla, Calleja, Zoco, Olivella; Fusté, Amancio, Pereda, Martínez, Luis Súarez; Lapetra.


Os gols da final histórica no Santiago Bernabéu. Durante muitos anos, a assistência para o gol de Martínez foi creditada a Amancio, mas a TVE, 34 anos depois, revelou a verdade e creditou a Pereda. A confusão aconteceu porque o gol do título não foi filmado por nenhuma televisão e, numa espécia de montagem, colocaram uma assistência de Amancio para passar à Europa