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segunda-feira, 4 de março de 2013

Unidos

Contra o Barcelona, Varane marcou seu gol abraçado com José Mourinho (AS)

Entre dezembro e fevereiro, o Real Madrid viveu uma grave crise nos vestiários. A divisão entre espanhóis e portugueses era clara e o estopim foi a titularidade de Adán em um difícil confronto contra o Málaga na Andaluzia, quando Mourinho optou por deixar Casillas no banco por questão técnica. Para piorar a situação merengue, o goleiro acabou se lesionando numa disputa de bola com Arbeloa, o que resultou num período de três meses fora dos gramados. O jeito foi contratar um goleiro novo, que acabou sendo o canterano Diego López.

No início de fevereiro, Sara Carbonero, a namorada de Casillas, confirmou a um canal de televisão espanhol os consecutivos atritos dos jogadores com o treinador nascido em Setúbal. Até com Cristiano Ronaldo o bi-campeão da Champions League discutiu de maneira áspera. Em campo, o desempenho era bastante abaixo da média se comparado com a equipe da temporada passada. O reflexo disso era a abissal diferença para o Barcelona, que chegou a estar 18 pontos à frente na liderança, e até para o Atlético de Madrid.

Era difícil imaginar os merengues saindo dessa crise. Ainda mais porque o calendário ingratamente colocou dois confrontos consecutivos contra o Barcelona e um decisivo contra o Manchester United no Old Trafford, pelas oitavas de finais da Uefa Champions League. No entanto, paradoxalmente, o melhor que poderia ter acontecido para os blancos foram esses confrontos contra o maior rival. A começar porque, de maneira merecida, a vitória por 1x3 no Camp Nou marcou a reconciliação dos jogadores com Mourinho. O gol que sacramentou a passagem à final da Copa do Rei, marcado por Varane, teve de especial a comemoração do francês, que, ao lado de seus companheiros, abraçou o treinador português.

Não bastasse a vitória em Barcelona, o Real Madrid se abasteceu de moral para encarar o líder da Premier League em seus domínios ao voltar a derrotar o Barcelona utilizando uma equipe mista. Novamente, os merengues neutralizaram o jogo do rival e soube o que fazer nos momentos que tiveram a bola. Pepé foi claro após a partida: "necessitávamos de vitórias desse jeito para enfrentar o United em Manchester".

A sequência de vitórias diante dos azulgrenás serviram para ratificar o retorno da melhor versão de Cristiano Ronaldo, autor de dois gols no Camp Nou. O contra-ataque também está fino. O segundo gol contra o Barcelona pela Copa foi demonstração de como a transição madridista é letal. Messi errou passe no ataque e, dez segundos depois, viu seu time sofrer o gol. Di María desconcertou Puyol e Ronaldo concluiu. No setor defensivo, Varane e Sergio Ramos formaram uma sólida dupla de zaga na Catalunha, mas Pepe teve atuação especial no confronto de sábado. Mourinho pode deslocar Ramos à lateral direita e deixar francês e português no comando da retaguarda, com Fábio Coentrão, em boa fase, na lateral esquerda.

Por mais que encarar o Manchester United seja tarefa árdua (os merengues não fizeram boa partida na ida), o Real Madrid recuperou a auto-estima necessária para o duelo decisivo em busca do título europeu. Se a taça da Liga Espanhola dificilmente escapará das mãos do Barcelona, a orelhuda é um sonho possível. E impulsionado por um mágico Cristiano Ronaldo, os blancos são capazes de levarem o troféu ao Santiago Bernabéu.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O Real Madrid aprendeu a lição

 Mourinho e Cristiano Ronaldo são os principais responsáveis pelos recentes resultados positivos do Real Madrid contra o Barcelona (zimbio)

Casillas; Arbeloa, Sergio Ramos, Pepe, Marcelo; Xabi Alonso, Khedira; Di María, Özil, Cristiano Ronaldo; Benzema. Há dois anos, 10 desses 11 nomes começaram como titulares na humilhante derrota de 5x0 para o Barcelona. Naquele dia, apenas Arbeloa começou no banco, entrando no segundo tempo. Os blaugranas continuam sendo superiores, mas atualmente o Real Madrid já consegue enfrentá-los de igual para igual. Os resultados dos superclássicos apenas em 2012 evidencia tal evolução madrilenha: duas vitórias barcelonistas, dois empates e duas vitórias merengues. Ontem, mais um capítulo da história do Superclássico foi escrito. Em partida de gala, o 2x2 mostrou as carências das duas equipes na temporada, mas ratificou o novo peso do duelo. 

Atualmente, o Real Madrid sabe como jogar contra o Barcelona sem se acovardar (muito). Nesse cenário, dois personagens merecem destaque: Cristiano Ronaldo e José Mourinho. O treinador português conseguiu dar um padrão de jogo à equipe que Florentino Pérez tanto tentou achar com Manuel Pellegrini. A lição da manita foi aprendida em peso: para jogar contra o Barcelona, a aplicação tática precisa estar à mil. Após muitos confrontos, Mourinho, estrategista que é, conseguiu encaixar seu jogo ao do rival. Com intensidade, compactação dos setores negando espaços a Messi e velocidade para surpreender a zaga adiantada e em linha do Barça com Cristiano Ronaldo se infiltrando em diagonal, o Real Madrid, hoje, sabe como jogar contra os catalães.

Aí, o craque português tem seus méritos. Sempre taxado por amarelar nos clássicos, ele virou a página. Ao marcar de esquerda o gol que abriu o placar, Ronaldo tornou-se o primeiro jogador da história da rivalidade a marcar em seis confrontos consecutivos. Quem vê o Ronaldo de 2012 e o Ronaldo das temporadas anteriores sabe que houve uma mudança. O atual não tem medo de ousar. Chuta, dribla, toca, provoca. Aquele Cristiano Ronaldo apagado, com medo e displicente que enfrentava o Barcelona é coisa do passado.

Na parte defensiva, houve mudanças substanciais. Ainda que Pepe saia do sério a todo momento (e, convenhamos, se ele não saísse estranharíamos), ele mantém a cabeça no lugar a ponto de não comprometer. A emblemática expulsão no confronto da Champions League 10/11 mudou seus nervos - ainda que, na ida do jogo da Copa do Rei, ele tenha pisado em Messi. E isso ajuda em seu desempenho em campo. Na vitória de abril, por exemplo, o luso-brasileiro teve atuação de gala.

Quem também merece menção é Özil e Di María. O argentino é a válvula de escape dos blancos, sempre impussionando velocidade na parte esquerda da zaga blaugrana e sendo importante na recomposição. A marcação a Daniel Alves (ou Montoya, como no caso de ontem), anula uma dos trunfos do Barcelona. O alemão, por sua vez, vive cenário semelhante ao de Cristiano Ronaldo. E a parceria entre os dois é alta: em superclássicos, são cinco assistências do camisa dez ao gajo, quatro apenas nos confrontos deste ano.

O cenário é tão favorável ao Real Madrid que o empate foi comemorado do lado barcelonista. Tudo bem que deveria ser mesmo, afinal os oito pontos de vantagem se mantém e os azulgrenás atuaram com a zaga reserva, mas fatalmente isso seria lamentado há um ano, por exemplo. E a volta por cima dos merengues favorecem os fãs do futebol espanhol. A equipe de José Mourinho se concentra em jogar bola e não ficar à base de pancadas. Assim, mesmo sendo inferior, conseguiu achar uma fórmula de encarar o Barcelona.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Ritmo leve

 Pepe pede calma: logo você, cara? (getty images)

O Santiago Bernabéu recebeu uma partida com toda a pinta da temporada passada. Enquanto um Real Madrid bem abaixo da condição física e sem nenhum reforço mostrou pouca objetividade, o Valencia já com Gago e Guardado teve em Jonas, coadjuvante de luxo, seu principal destaque. Por outro lado, o empate por 1x1 nada teve de estranho. O Valencia costuma dificultar para o Real Madrid em Chamartín e emplaca sua segunda temporada sem perder na capital espanhola. José Mourinho, na coletiva pré-jogo, havia avisado: encarar uma equipe como o Valencia logo na primeira rodada seria complicado.

Além das peças, os times mantiveram os seus estilos. No entanto, o Real Madrid, posicionado no 4-2-3-1, teve problemas para bater a retaguarda protegida por Diego Alves. O aspecto positivo foi a capacidade de infiltração de Di María e a demonstração de vontade de Higuaín, destaques da parte ofensiva dos merengues. O meio-campista argentino, por mais uma temporada, começa voando fisicamente e foi o responsável pela bela assistência para Pipita anotar. O atacante, por sua vez, promete uma disputa mais igualada com Benzema pelo posto de centroavante. José Mourinho ratificou essa "briga saudável" entre a dupla, e aproveitou para dizer que isso é importante para toda a equipe, já que eles dão o melhor de si.

O Valencia evidenciou que é a melhor equipe humana do futebol espanhol. Os chés atuaram sem medo, não ficaram nervosos após o gol de Higuaín e tiveram coragem para empatar. A postura exercida no segundo tempo foi semelhante a que Unai Emery utilizou no confronto da temporada passada. Maurício Pellegrino deu uma recuada natural na sua equipe e tentou vencer o jogo apostando nos contra-ataques. Num desses ataques, Soldado saiu na cara de Casillas e anotou, mas teve o gol invalidado. Não obstante, o lance gerou bastante polêmica. A TVE, responsável pela transmissão e geração das imagens, não mostrou a jogada num ângulo favorável. O Super Deporte afirma que Soldado estava em condição legal, enquanto o Marca nega.

Ficou claro que o Real Madrid ainda precisa contratar. É louvável a aposta em Luka Modric para melhorar a qualidade da volância, mas existem necessidades muito mais urgentes. Há meio-campistas em demasia (Callejón, Kaká, Granero), porém poucas opções para a lateral e nenhuma alternativa confiável a Pepe. O zagueiro se lesionou após choque com Casillas e teve que ser substituído por Raúl Albiol. Fora de forma, o ex-valenciano não comprometeu, mas vacilou na jogada que poderia ter dado a vitória ao Valencia caso não tivesse sido anulada. Mourinho, que ainda não sabe se terá Pepe contra o Barcelona no jogo de ida da Supercopa quinta-feira, será obrigado a utilizar Albiol. Aposta totalmente arriscada. Hoje, ao contrário da temporada passada, quem está em melhor condição física é o Barcelona, que fez uma pré-temporada mais saudável.

No Valencia, só alegria. As linhas retraídas e o trivote defensivo no meio-campo para segurar o ímpeto madridista na reta final da segunda etapa confirmou que Pellegrino ainda não abandonou a ideia de propor uma filosofia mais defensiva - porém segura - ao elenco. Ele iniciou o duelo no 4-2-3-1, mas não teve vergonha de variar ao 4-3-2-1 tirando de campo Soldado e colocando Piatti, adiantando Jonas à referência, e depois Guardado para colocar Dani Parejo. Gago não foi o que o treinador espera dele e deu espaços suficiente para Di María raciocinar e assistir Higuaín marcar. O ponto conquistado em Madrid dá uma moral relevante ao Valencia. Pellegrino avisou: o empate não foi casualidade. Talvez não. Daqui a duas semanas, ele irá ao Camp Nou visitar o Barcelona. É a chance de comprovar isso.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A evolução de Portugal

*Como todo irmão carinhoso, o blog dá espaço para comentar e analisar Portugal, adversário da Espanha na semifinal da Eurocopa e vizinho ibérico do país das touradas

O craque: Cristiano Ronaldo é a grande ameaça para acabar com a hegemonia espanhola (getty images)

No dia 29 de junho de 2010, Portugal se despediu da Copa do Mundo nas oitavas-de-finais. Na África do Sul, a equipe treinada por Carlos Queiroz viu a Espanha ser seu grande algoz. Na Cidade do Cabo, sofreu ante o jogo de posse de bola e troca de passes espanhóis e foi uma das presas da futura campeã mundial. À época, o clima nos bastidores não era dos melhores e boa parte dos jogadores estavam insatisfeitos com a gerência do treinador. Nesta quarta-feira, quase dois anos depois, os rivais ibéricos voltam a se enfrentar. Dessa vez, valendo vaga na grande final da Eurocopa. A Espanha é favorita, mas diferentemente do confronto no Mundial os gajos vêm com enormes expectativas de vitória. Além do confronto de dois anos atrás, Espanha e Portugal se encararam recentemente na Eurocopa de 2004. No jogo decisivo da fase de grupos, os portugueses, anfitriões do torneio, despacharam a Fúria precocemente com um gol de Nuno Gomes. A história do confronto está do lado espanhol: em sete jogos oficiais, quatro vitórias e apenas uma derrota.

Após passar de fase num grupo considerado da morte, a confiança do selecionado luso aumentou. A evolução da equipe desde a eliminação na África até o confronto de amanhã é notória. E boa parte dos créditos têm que ser direcionados a Paulo Bento, treinador que assumiu a seleção após o fracasso no Mundial. A troca de comando durante as eliminatórias foi crucial para a recuperação do ânimo do público e dos jogadores. Cristiano Ronaldo, um dos principais jogadores da Eurocopa até o momento, foi um dos mais favorecidos após a chegada do ex-volante de Benfica e Sporting Lisboa (na Espanha, atuou no Oviedo). Acostumado a jogar isolado no ataque à época de Queiroz, o dono da camisa sete se sente mais à vontade com o novo treinador, que o coloca para atuar na posição onde mais gosta: à esquerda do ataque, como no Real Madrid. Ronaldo, contudo, não se limita somente a esquerda e tem liberdade para flutuar em qualquer parte do ataque, confundindo a defesa adversária. Nem todos, porém, subiram no mesmo barco. Desentendimentos com o técnico fizeram com que Ricardo Carvalho e Bosingwa se afastassem da seleção.

Sua escolha para o cargo não era exatamente uma unanimidade entre o público. Em seus seis anos no Sporting, não conseguiu ganhar um campeonato nacional, limitando-se a quatro títulos de copas. Naturalmente, só existe um José Mourinho, e não está em seus planos imediatos assumir a seleção agora, embora tenha se colocado à disposição para dirigir interinamente a equipe após a saída de Queiroz. As suspeitas sobre Paulo Bento rapidamente desapareceram com os resultados, e os temores de que ele adotaria um esquema excessivamente defensivo não se confirmaram. Apesar do pouco tempo para trabalhar, conseguiu implantar disciplina tática e conquistar a confiança do grupo de jogadores. O elenco ficou ao seu lado após as brigas com Carvalho e Bosingwa.

As mudanças são significativas em praticamente cada posição do campo. No gol, a principal para muitos. Após uma boa participação na Copa do Mundo, Eduardo esqueceu todo seu futebol no Genoa, onde caiu substancialmente de produção e falha à rodo. No continente africano, foi um dos poucos que teve atuações positivas. Manteve a porteira intacta ante Costa do Marfim e Brasil e evitou uma derrota mais trágica contra a Espanha. Tentando recuperar prestígio, voltou a Portugal para defender o Benfica, mas não demorou muito para perder a titularidade para Artur. O bom Rui Patrício, após uma grande temporada com o Sporting de Lisboa, é o preferido de Paulo Bento para a posição.

A defesa também passou por reajustes. Os problemas extracampos com Ricardo Carvalho, que renunciou a seleção após ter sido sacado do time titular, no início da temporada passada foi visto como uma dor de cabeça para o treinador. Até o amistoso contra a Turquia, o último antes da partida contra a Alemanha, na estreia na Eurocopa, o setor passava muita desconfiança. Os três gols sofridos diantes do turcos geraram uma incógnita que, curiosamente, foi esquecida durante a competição: está bastante sólido e vê em Pepe um líder nato. O jogador do Real Madrid, que fora muito utilizado como volante na seleção, é um mago e passa a sustentação necessária para o esquema de Paulo Bento. Tem feito partidas impecáveis (aliás, vem de uma temporada praticamente perfeita) e é o melhor zagueiro da competição ao lado do alemão Hummels. A outra mudança foi na lateral direita, onde o valencianista Ricardo Costa deu a vez a João Pereira, contratado pelo clube ché no início do mês. Fábio Coentrão, na esquerda, é sinônimo de jogadas perigosas pelo setor onde está o ponto mais fraco da Espanha: Arbeloa.

O meio-campo tampouco se livrou das mudanças. O sumiço de Pepe na volância foi substituído pelas importantes presenças de Miguel Veloso e João Moutinho. Miguel faz as vezes de Pepe na Euro e permite a Raúl Meireles, único sobrevivente da meiuca em relação à Copa, ficar menos sobrecarregado e jogar mais liberado, aparecendo como elemento surpresa nos ataques. Moutinho, que acabou cortado do Mundial, é o cérebro português. Comparado com Xavi pela imprensa lusa, o jogador do Porto é o grande articulador de jogadas. Dos pés deles, nascem as melhores oportunidades de Portugal. Os trio é muito bem disciplinado taticamente e ajudam a defesa quando atacada. Juntos, formam um meio-campo coeso e batalhador, principal esperança de Paulo Bento para (tentar) quebrar o fluxo de passes espanhol.

O ataque não passou por muitas mudanças dentro de campo, somente na postura. Cristiano Ronaldo tem atuado em grande nível com Bento e Nani, que entrou no lugar de Simão, é bastante importante no flanco direito. Os dois são as armas portuguesas para o confronto, sobretudo Ronaldo, que, assim como Coentrão, irá encarar Arbeloa pela frente como marcador invidual. Está aí a grande oportunidade do duelo ser decididor a favor dos gajos. Com a lesão do maño Helder Postiga, Hugo Almeida volta ao onze titular.

Em um amistoso em novembro de 2010, um promissor Portugal esmagou a Espanha, que ainda estava de ressaca pelo título mundial conquistado meses atrás. Os críticos portugueses são unânimes quando dizem que aquela foi a melhor atuação de Cristiano Ronaldo com a camisa da seleção. O craque jogou por apenas 45 minutos, o suficiente para fazer a vida de Busquets, Sergio Ramos, Piqué, Puyol e Xabi Alonso um inferno. Os 4x0 poderia ter sido muito mais, caso Nani não tivesse sido egoísta e deixado um golaço do camisa sete ter validado: um toque seu na bola na conclusão da jogada acabou invalidando o gol, por impedimento. O povo português espera uma atuação como essa de 2010 de Cristiano Ronaldo e cia para poder voltar a uma final de Eurocopa.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O mau perdedor

Imagem auto-afirmativa. Pepe afirmou que não teve o propósito de pisar em Messi (getty images)

Não existe nada pior no esporte do que um mau perdedor. O mau perdedor não é o que tem espírito vencedor, o que tenta a todo custo buscar o topo, o que quer sempre mais. O mau perdedor não é o que não gosta de perder, o que fica chateado com a derrota, o que passa a noite sem dormir pensando no que podia ter feito de diferente. O mau perdedor é aquele que não compreende que perder faz parte do jogo, que não admite reconhecer-se inferior, que apela quando o insucesso se avizinha.

O bom perdedor transforma a derrota em aprendizado. Aceita, mas não se conforma. Perde, não incita violência, aperta a mão do ganhador, parabeniza, volta para casa e matuta uma forma de superá-lo no jogo seguinte. O bom perdedor não põe o resultado à frente do caráter. Derrota não mancha currículo. Deslealdade mancha. O brasileiro naturalizado português Pepe se encaixa perfeitamente na imagem de mau perdedor.

O zagueiro chegou a Madrid sob expectativas. Até porque foram pagos 30 milhões de euros para tirá-lo do Porto. O preço foi um exagero total da cúpula merengue à época, apesar de Pepe ter futebol. Sim, o português sabe jogar bola. Mas não tem cérebro. Perde a paciência à toa, cai na provocação do adversário facilmente e, sobretudo, não aguenta ser humilhado pelos jogadores do Barcelona. Os ingredientes jogam por água abaixo boas partidas que Pepe faz. Um exemplo claro foi o superclássico do Bernabéu pela ida da Champions League passada. Pepe anulava Messi e o Barcelona não atacava a meta de Casillas com contundência. Mas estava lá Pepe para acabar com o esquema de Mourinho. Uma solada desnecessária em Daniel Alves gerou um cartão vermelho. O suficiente para Messi ficar solto em campo e desfilar genialidade, marcando dois e garantido o Barça na final.

Está paranóico diante do retrospecto negativo de sua equipe frente ao maior rival. Em oito confrontos desde que Mourinho chegou a Chamartín, perdeu cinco, empatou dois e venceu apenas um. Tomou um retumbante 5 a 0 no primeiro duelo, onde quem protagonizou cenas de mau perdedor foi Sergio Ramos. Uma ferida que ainda não cicatrizou. Perdeu Champions, La Liga, Supercopa e, pelo visto, Copa do Rei. Perdeu a razão.

Na derrota da última quarta-feira, por 2 a 1, Pepe apresentou ao mundo, mais uma vez, sua face de mau perdedor. O chute em Busquets, logo no final da primeira etapa, soaria como um gesto de jogo duro se fosse fato único. Representou, contudo, mais um capítulo de mau comportamento e falta de espírito esportivo. O luso-brasileiro criou polêmica desnecessária. Chegou a protagonizar um fingimento de tapa na cara para parar, propositadamente, um ataque azulgrená, quando, na verdade, Cesc Fàbregas utilizou do futebol limpo para desarmá-lo no campo de ataque. Foi vaiado pela torcida após ser substituido. Os aficionados já não o aguentam mais.

Mas o ato de Pepe que mais indignou os fãs de futebol pelo mundo e o barcelonismo envolveu aquele que tem uma imagem dialmetralmente oposta àquela que Pepe mostra a cada partida: Lionel Messi. Após boa jogada do argentino pelo meio, Callejón o derrubou. Até aí, tudo bem. O canterano merengue pediu desculpas e Messi aceitou. Mas Pepe não estava satisfeito. Nunca está. Desnecessariamente, deu um pisão nos dedos do melhor jogador do mundo, em um ato de mau caratismo e sujeira. Isso não é futebol. O zagueiro teve a chance de voltar atrás, mostrar-se um homem de verdade, mas voltou a repetir palavras que balbucia após cada lance violento: "não tive vontade de machucar Messi", disse.

Após ver o atitude de seu colega de equipe, Xabi Alonso correu imediatamente para ver como estava Messi, mostrando-se um sentimento de preocupação. Está aí os valores históricos do Real Madrid, que não precisa de jogadores como Pepe para aparecer na mídia. O descontrole emocional de Pepe e de outros jogadores tem a ver com Mourinho. O português também se encaixa na imagem de mau perdedor. Já criticou a arbitragem, já criticou Guardiola, já criticou a até a parceria do Barcelona com a Unicef. Além disso, até enfiou um dedo nos olhos do auxiliar-técnico azulgrená Tito Villanova. O Real Madrid virou um time truculento, que abusou das faltas e insistiu em jogadas desleais. É uma equipe à beira de um infarto coletivo, que não assimila a ideia, irrefutável até agora, de ser inferior ao Barça.

No futebol não há verdades absolutas. Mourinho, competente que é, pode encontrar em breve uma fórmula mágica de dobrar este Barcelona. Mas antes precisará entender que, pra saber vencer, tem que primeiro aprender a perder. Mais cedo, o Marca especulou que a diretoria blanca, com o aval de Mourinho, teria pensado na ideia de afastar o luso-brasileiro por 15 dias, o que o tiraria do jogo da volta contra o Barcelona, no Camp Nou. A ideia central de Mourinho, que teria ficado indignado com a falha de posicionamento de Pepe no gol de Puyol, é evitar que seu jogador passa por um inferno que pretende ser o estádio blaugrana com o jogador.



domingo, 12 de junho de 2011

Balanço Final: Real Madrid

O dono da bola: super artilheiro do espanhol, Cristiano Ronaldo encerrou uma excelente temporada individualmente. Coletivamente, porém, o Real Madrid ficou devendo (reuters)

Campanha: 2ª colocação. 38 jogos, 29 vitórias, 5 empates e 4 derrotas. 102 gols pró e 33 gols contra.. Classificado à fase de grupos da Liga dos Campeões.
Time-base: Casillas; Sergio Ramos, Pepe, Ricardo Carvalho, Marcelo; Xabi Alonso, Khedira; Özil, Di María, Cristiano Ronaldo; Benzema.
Os Artilheiros: Cristiano Ronaldo (40 gols), Benzema (15), Higuain (10)
O Técnico: José Mourinho
O Destaque: Cristiano Ronaldo
A decepção: Sergio Canales

A temporada do Real Madrid acabou com uma pergunta no ar: como irá se comportar os comandados de Mourinho na segunda temporada do treinador no clube blanco? Em sua apresentação no clube merengue, Mou deixou claro que a primeira temporada em seus clubes nem sempre é a mais esperada pelos torcedores. Porém, não hesitou em dizer que na segunda a sede de títulos é a maior possível. A temporada do Real Madrid teve aspectos positivos, como a evolução do jogo coletivo em relação às últimas temporadas e a recuperação do espírito conquistador que está no sangue madridista. O time goleou vários adversários, Cristiano Ronaldo bateu recorde histórico de gols em um Campeonato Espanhol e o time passou das oitavas de final da LC. No entanto, ser superado tantas vezes pelo Barcelona não faz bem ao ego merengue e deixa a sensação de que a temporada foi um insucesso.

O ex-técnico da Inter fez o estilo paizão, conquistou os jogadores, conseguiu recuperar a coesão do grupo após a sacolada no primeiro superclássico e incentivou a briga contra o Barcelona. Até deu certo em alguns pontos: na maratona de superclássicos em abril, a equipe mostrou em alguns momentos ser capaz de parar o Barcelona, como na "vitória moral" no jogo da Liga e no título da Copa do Rei. Na Champions League, a solidez do Real Madrid apareceu cedo, como na vitória soberana para cima do Milan, e a equipe avançou para as quartas-de-finais pela primeira vez desde 2003/2004. Porém, contra os blaugrana, a expulsão correta de Pepe jogou por água abaixo todo o esquema de Mourinho, pois o português era responsável diretamente pela marcação em Messi, que, com espaços após o vermelho do zagueiro improvisado de volante, decidiu o jogo com um doblete. Outro momento negativo do Real Madrid na temporada foi a derrota no Santiago Bernabéu para o Sporting Gijón, que além de dar ao Barcelona a oportunidade de abrir sete pontos de vantagens, acabou com uma invencibilidade de nove anos de José Mourinho sem perder em casa por campeonatos nacionais.

No plano individual, alguns nomes brilharam. Ricardo Carvalho e Pepe formaram uma dupla de zaga bastante sólida e sofreram apenas 33 gols no campeonato, sendo a segunda defesa menos vazada da competição. Além disso, o número de gols sofridos foi o menor da equipe da capital em sete temporadas. Marcelo foi o jogador que mais evoluiu com a chegada de Mourinho na equipe de Chamartin. Se antes o brasileiro era constantemente criticado por abusar das subidas ao ataque e deixar o lado esquerdo da defesa madridista exposta, nesta temporada o ex-Fluminense conseguiu balancear tal tipo de jogada. Ainda que continuasse pecando na marcação, os erros foram bem menores em relação às outras temporadas e o brasileiro se consolidou no posto de melhor lateral esquerdo do mundo. Özil e Di María caíram como uma luva no 4-2-3-1 de Mou: o turco-alemão foi o grande maestro da equipe na temporada e terminou-a com 23 assistências, líder máximo no quesito na temporada europeia. O argentino, por sua vez, começou mal, mas rapidamente se adaptou à Liga e foi peça importante em jogos-chaves na temporada.

Mas nenhum jogou como Cristiano Ronaldo. Regular na temporada inteira, o gajo foi o motor da equipe desde as primeiras rodadas do campeonato e, polivalente, atuou em quase todas as funções do meio para frente - chegando a ser escalado como falso nove em alguns jogos de janeiro. Com 53 gols na temporada, sendo 40 na Liga (maior artilheiro da história da LFP), Ronaldo, de praxe, ainda decidiu a Copa do Rei ante o Barcelona. Já são 86 gols em 89 partidas trajando blanco. Para a próxima temporada, já foram confirmadas as contratações de Yuri Sahin e Altintop, além da repatriação de Callejón, que estava no Espanyol. A base para brigar por títulos já está formada e a equipe não precisa ser refundada, como diziam alguns nos piores momentos de 2010.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Pós-jogo: Real Madrid 0x2 Barcelona

Treinadores em foco: Guardiola preferiu responder a Mourinho em campo e provou estar certo. O Barcelona, com a vitória, está mais próximo que nunca da final em Wembley (reuters)

O dia 27 de abril de 2011 já pode ser inscrito na história do Barcelona. Se, de uma hora para outra, o Real Madrid invertou o outro lado da moeda, ao chegar "favorito" para o confronto da Champions, o Barcelona mostrou por que não deve ser "subestimado". Ontem, Josep Guardiola demonstrou estar certo ao afirmar, na coletiva, para José Mourinho que a resposta ao gajo seria dado em campo. Mesmo com a notícia de que jogaria sem o lesionado Iniesta, que caiu como uma bomba em Barcelona, Guardiola recuperou Puyol e armou seu Barcelona com maestria para o terceiro dos quatro confrontos contra o rival Real Madrid. Assim, os azulgrenás jogaram muito bem contra os blancos e impusseram ao Real Madrid uma dura derrota por 2 a 0, dando um sólido passo rumo à final em Wembley.

Sem Ricardo Carvalho, melhor zagueiro merengue na temporada, Mourinho voltou a escalar Pepe na volância e deu mais uma chance a Raúl Albiol, que havia cometido pênalti infantil no confronto da Liga. Na parte ofensiva, Cristiano Ronaldo voltou a atuar como falso nove, enquanto Özil e Di María jogavam no suporte ao gajo. O camisa sete merengue, assim como o turco-alemão, fez uma péssima partida e pouco contribuiu para que sua equipe levasse perigo ao gol de Víctor Valdés, a não ser em um chute de longa distância ao final da primeira etapa. O Real Madrid começou a partida repetindo a marcação agressiva da final da Copa do Rei. Só que depois de cinco minutos de desarmes no início das jogadas do Barça, o time catalão passou a não arriscar bolas em profundidade e apenas trocou passes laterais para não correr riscos, esfriando o ímpeto merengue.

Villa, que no último final de semana, contra o Zaragoza, havia quebrado um incômodo jejum de onze partidas sem marcar, foi o primeiro a ameaçar as redes de Casillas. Caindo pelo lado direito, El Guaje deixou Marcelo e Raúl Albiol para trás e chutou de canhota rente à trave direita do capitão blanco. Dois minutos depois, Xavi arriscou de fora da área para defesa de Casillas. A linha de meio-campo do Real Madrid então recuou e o Barça passou a implementar seu toque de bola paciente e cadenciado. O time de Guardiola tinha dificuldades para encontrar espaços na bem organizada defesa do Real, mas aos poucos a movimentação de Messi passou a dar alternativas aos meio-campistas responsáveis pela transição da defesa para o ataque

Aos 24 minutos, Messi começou a aparecer e deu passe dentro da área para Xavi, que bateu no canto esquerdo para boa defesa do goleiro merengue. Messi participava do jogo ativamente recebendo a bola na região da intermediária, mas se a primeira linha de marcação dos blancos já haviam se mostrado difícil de quebrar, a última também resistia bravamente. Assim, o Barcelona conseguiu várias vezes cercar a área merengue, mas só penetrou na área com perigo uma vez. Aos 38 minutos, a primeira grande confusão no gramado em Madri: Pedro foi derrubado por Arbeloa e Daniel Alves foi caçado por Özil, enquanto Piqué e Sérgio Ramos discutiram rispidamente. Sobrou para Arbeloa, que recebeu cartão amarelo. A tensão voltou a tomar conta de todos na saída para os vestiários, com Keita, Pinto, Valdés e Milito discutindo com o delegado do Real Madrid, o ex-jogador Chendo. O goleiro reserva do Barcelona acabou sendo expulso pelo árbitro alemão Wolfgang Stark.

Na segunda etapa, Mourinho resolveu mudar seu 4-3-2-1 sem um centroavante de ofício para colocar Adebayor no lugar de um apagada Özil. Dessa forma, Cristiano Ronaldo voltou à sua função original, mas seu futebol continuou sem aparecer. O Real Madrid exerceu uma pequena função e parecia perto do 1 a 0, porém Pepe jogou tudou por água abaixo. Daniel Alves foi afastar a bola da defesa e Pepe entrou com a sola da chuteira em sua canela. Cartão vermelho direto para o luso-brasileiro e expulsão também do técnico José Mourinho, pela reclamação. Aos 17 minutos da segunda etapa, o Barça tinha um jogador a mais. A saída de Pepe teve efeito imediato sobre o jogo, com o Barcelona bem mais confortável nas trocas de passes e fazendo a bola chegar aos seus homens de flanco em boa posição para a jogada individual. Foi assim que o Barça chegou à abertura do marcador.

Aos 31 minutos, Afellay, que havia entrado no lugar de Pedro, deixou Marcelo, que escorregou no lance, para trás e cruzou para Messi, que antecipou-se a Sergio Ramos e finalizou por debaixo das pernas de Casillas para inaugurar o marcador. O holandês, autor da jogada do gol, mudou a cara da partida ao entrar em campo e, já há algum tempo, vem merecendo a vaga na equipe titular. Autor de boas partidas, Afellay, tímido (literalmente) quando chegou à Catalunha, parece ter se adaptado ao esquema de Guardiola e sempre entra bem quando o treinador o coloca em campo. Depois do gol, o Real Madrid chegou a esboçar uma reação com muita correria e pouca criatividade, mas logo o Barça voltou a controlar a partida e trocar passes para administrar o placar. Ainda houve tempo para Messi mostrar sua genialidade em um grande lance que ampliou a vantagem blaugrana.

Aos 43 minutos, Messi arrancou da intermediária, passou por Lass Diarra, Sérgio Ramos, Raúl Albiol e Marcelo e tocou na saída de Casillas, sacramentando o superclássico e colocando o Barcelona a um passo de Wembley. Nos minutos finais, Guardiola promoveu a estreia do canterano Sergi Roberto no lugar de um onipresente Villa, que passou a jogar mais aberto pela esquerda na segunda etapa. Com os gols sofridos no Santiago Bernabéu, o Real Madrid não igualará a marca do Milan campeão de 1992/1993, que não tinha levado gols em casa pela Liga dos Campeões.

Dos que decidiram
Messi foi o autor dos gols vitoriosos, quebrando a maldição de nunca ter marcado em jogos de semifinais de Champions e chegando a onze tentos na atual edição da Champions League, artilheiro isolado. Pela terceira vez consecutiva, é de se esperar que, ao final do ano, La Pulga ganhe o prêmio de melhor jogador do mundo novamente. Artilheiro da Liga Espanhola, da Copa do Rei e da principal competição europeia, o argentino a cada ano se supera: na atual temporada, La Pulga já marcou 52 gols, superando uma marca surreal de Ferenc Puskás e tornando-se o único jogador de uma temporada espanhola a chegar em tal casa de gols. São, além de 52 gols, 23 assistências em 50 jogos, totalizando uma participação direta em 75 gols do Barcelona nesta temporada. Como bem definiu Wágner Sarmento, Messi é um adjetivo. Sinônimo de maior.

Messi que com apenas 23 anos figura para ser o melhor (e, por que não, o maior), da história, superou o número de gols de um mito do barcelonismo, Samitier, com o doblete ante o Real Madrid. Com 175 gols, apenas Kubala e César estão à frente do argentino na artilharia do Barcelona. Outra marca magistral de Messi é ter sido o único jogador da história do superclássico a marcar pelo menos um gol em quatro jogos consecutivos na casa do rival. No total, são onze gols contra o Real Madrid, sendo seis no Bernabéu. Segundo Ronaldo, o segundo gol marcado por Messi ante o Real Madrid foi algo de PlayStation. Já Szczesny, que também já sofreu com Messi, mostrou não ter mágoas do argentino e, forçando um pouco a barra, escreveu no twitter: "é o melhor da história".

Na coletiva pós-jogo, como não deveria deixar de ser, Mourinho ironizou a expulsão de Pepe e o cartão amarelo de Sergio Ramos, que o tira da partida de volta e ainda colocou em xeque o último título europeu do Barcelona, o que causou revolta dos barcelonistas: "por que expulsaram Pepe, Thiago Motta e Van Persie e deram um cartão a Sergio Ramos, sendo que eles não fizeram nada? Eu tenho dois títulos europeus conquistados no esforço, e teria vergonha se tivesse conquista um igual Guardiola conquistou em 2009". As palavras do técnico de Setubal, que chegou a falar da parceria do Barcelona com a Unicef, foram interpretadas com indignação no mundo barcelonista, que denunciaram o técnico ao Comitê Disciplinar da Uefa. Apesar de Mourinho não ter aceitado a derrota, Guardiola provou que fez certo ao falar, na coletiva, que daria a resposta ao português em campo. Faltando sete jogos para o fim da temporada (seis, caso o Barcelona seja eliminado pelos merengues), a equipe blaugrana pode ter o gostinho de comemorar o doblete: LC e Liga BBVA.

Se o sonho da Tríplice Coroa se dizimou após a perda da Copa do Rei, os aficionados culés seguem eufóricos com a provável chance de ver o Barcelona ser tetracampeão europeu. Neste momento, antes mesmo de a temporada acabar, há de se reconhecer novamente o fantástico trabalho de Guardiola, que desmentiu estar com seu ciclo no Barcelona chegando ao fim, após uma entrevista a um jornalista da emissora italiana RAI. Um treinador que, pouco tempo atrás, antes mesmo de assumir a equipe principal do Barcelona, já mostrava seus dotes de bom técnico ao levar o Barcelona à Segunda División B. Agora, com um time desenhado taticamente por ele; com um 4-3-1-2 montado por ele para dar, especialmente, liberdade para Messi criar; com jogadores que atuam com seu perfil, dedicando-se inteiramente a um jogo de sacrifício pelo coletivo, Josep Guardiola continua firme para conquistar sua segunda Liga dos Campeões em menos de três temporadas. E, também, não há dúvidas de que este Barcelona foi construído por ele. Como bem definiu Pedro Venancio, "há quem diga que Guardiola não faria em outro clube o que faz no Barcelona. Mas não precisa. Mesmo que perca a vaga para a decisão, o que é muito improvável, Pep já está na história".

Real Madrid 0x2 Barcelona
Real Madrid: Casillas; Arbeloa, Sérgio Ramos, Albiol e Marcelo; Pepe, Lass Diarra e Xabi Alonso; Özil (Adebayor), Cristiano Ronaldo e Di María. Técnico: José Mourinho.
Barcelona: Valdés; Daniel Alves, Piqué, Mascherano e Puyol; Xavi, Busquets e Keita; Pedro (Afellay), David Villa (Sergi Roberto) e Lionel Messi. Técnico: Josep Guardiola.
Árbitro: Wolfgang Stark (ALE)
Gols: Messi e Messi (Barcelona).
Cartões Amarelo: Arbeloa, Sérgio Ramos, Adebayor (Real Madrid); Daniel Alves, Mascherano (Barcelona).
Cartões vermelho: Pepe, José Mourinho (Real Madrid); José Manuel Pinto (Barcelona).

sábado, 16 de abril de 2011

Vitória moral

Aplausos para nós: com um a menos, o Real Madrid buscou o empate (em pênalti polêmico) contra o Barcelona. O segundo round é na quarta-feira (getty images)

O que pensar de uma equipe que consegue um empate ante o melhor time do mundo com um a menos? O empate em 1 a 1 no Bernabéu praticamente sacramentou o titulo espanhol a favor do Barcelona, mas mostrou ao mundo que o Real Madrid é capaz de anular a equipe de Guardiola. Na primeira etapa, o 4-3-2-1 de Mourinho sufocou a saída de bola do Barcelona, que teve a posse de bola mas não levaram muito perigo à meta de Casillas. Os espaços, porém, não estiveram totalmente fechados em alguns contra-ataques azulgrenás e Messi acabou desperdiçando duas boas oportunidades. Na primeira, o argentino foi tentar encobrir Casillas e não executou a jogada do jeito que queria; na segunda, fez um carnaval no meio-campo blanco e chutou com força para bela defesa do capitão blanco.

O Real Madrid atuou no 4-3-2-1 que, às vezes, parecia com um 4-1-4-1. Pepe fazia a função de primeiro homem de meio-campo e à frente dele vinha uma linha com Di María, Xabi Alonso, Khedira e Cristiano Ronaldo, este último com mais liberdade para se juntar ao ataque. Na frente Benzema jogava centralizado. O Barcelona veio a campo no seu habitual 4-3-3 (4-2-3-1), com uma surpresa de última hora: Puyol, que não jogava há três meses, foi convocado e, não obstante, iniciou o superclássico como titular. El capitán blaugrana, porém, voltou a sentir dores musculares e saiu na segunda etapa por precaução, segundo o site oficial do Barcelona. Messi, Pedro e Villa compunham o ataque, sempre alternando-se nas funções de homem mais central.

A opção de um meio-campo mais defensivo que o comum deu certo durante todo o primeiro tempo. Porém, no segundo tempo, a entrada de Özil condicionou o jogo: o turco-alemão mudou a característica do Real Madrid e foi importante para que a equipe chegasse ao gol de empate. Na volância, Pepe não deixou passar batido: marcou Messi com solidez na primeira etapa, evitando que o argentino pudesse oferecer resistência ao gol merengue. O argentino pouco fez nos primeiros 45 minutos, mas seu brilhantismo ainda permitiu a criação de boa jogada individual aos 43 minutos, quando Casillas fez bela defesa. Apesar de ceder a posse de bola (que em momentos superou 80%), o Real Madrid também poderia ter aberto o placar: cabeçada de Cristiano Ronaldo salva em cima da linha por Adriano, no último lance da etapa inicial.

Messi comemora: gol no Bernabéu foi o primeiro da Pulga em equipes treinadas por Mourinho (getty images)

O lateral esquerdo brasileiro foi dono de uma grande partida. Marcou Cristiano Ronaldo com contundência quando este bordava pelo seu setor e evitou as subidas de Sergio Ramos ao ataque. O brasileiro, também, evitou por duas vezes um gol do gajo. Além da cabeçada ao fim da primeira etapa, Adriano tirou na hora exata uma bola que o português já preparava para chutar para as redes de Valdés. Cristiano Ronaldo recebeu de Marcelo mas acabou adiantando muito, o que facilitou a chegada de Adriano. Daniel Alves, na outra lateral, também fez boa partida. Apesar do pênalti, muito mal marcado pelo desastrado Muñiz Fernández, o baiano anulou Di María, em péssima noite, e, assim como Adriano na esquerda, praticamente impediu as subidas de Marcelo ao ataque. Porém, Daniel Alves não acrescentou nenhum poder de fogo ao Barcelona quando subiu para o ataque e se preocupou mais na marcação do extremo argentino.

Durante a semana, José Mourinho havia dito que, para jogar contra o Barcelona, estava treinando sua equipe para jogar com um homem a menos, insinuando que sempre alguém era expulso contra a equipe catalã. E, dessa vez, não foi diferente. Xavi lançou com maestria Villa, que ganhou na corrida de Raúl Albiol e acabou empurrado pelo zagueiro. O cartão vermelho, porém, foi mostrado corretamente, já que Villa iria finalizar para as redes de Casillas. Na cobrança, Messi converteu e abriu o placar para o Barcelona. O 49º gol do argentino na temporada destruiu o plano original de Mourinho, e a impressão era de que os dois times aproveitariam a circunstância para se poupar.

Villa, que vem brigado com as redes há alguns jogos, poderia ter matado o jogo, mas não o fez. A atuação do Guaje, e consequentemente sua fase, preocupa. Destaque no primeiro turno, hoje o atacante asturiano foi inoperante caindo às costas de Sergio Ramos, que teve facilidade para marcá-lo. Além disso, não foi por falta de oportunidades que Villa fez uma má partida: o ex-Valencia teve, no mínimo, três ótimas oportunidades de vencer Casillas; mas, na maioria das vezes, por displicência, acabou desperdiçando. Sem contar a falta de domínio na última chance da partida, quando Xavi lançou e o Guaje não conseguiu dominar uma bola, teoricamente, fácil.

Com a expulsão de Albiol, Mourinho refez sua tática com algumas alterações. A princípio, Pepe iria ocupar a vaga de Albiol na defesa, mas com a entrada de Arbeloa (e a de Adebayor, saindo Xabi Alonso e Di María) e o deslocamento de Sergio Ramos para a zaga, o luso-brasileiro voltou à função que vinha exercendo bem. Mas foi a primeira substituição, com a entrada de Özil no lugar de um nulo Benzema, logo após o gol sofrido, que deu novo gás aos merengues na partida. Com participação do turco-alemão, que deu inicio à jogada, Marcelo recebeu de Cristiano Ronaldo e "sofreu" pênalti de Daniel Alves. Com extrema categoria, Cristiano Ronaldo converteu e chegou ao seu primeiro tento contra o Barcelona em sete confrontos.

"Marcelo reconheceu e me disse que tinha que se jogar no lance", disse Daniel Alves após a partida. Fato é que houve falta de critério por parte de Muñiz Fernández. Em um lance bem semelhante, na primeira etapa, Villa foi derrubado por Casillas e caiu na área, mas o árbitro mandou seguir. No fim, o Real Madrid quase chegou à virada. Em jogada iniciada por Özil, que fez o que quis com Keita, Adebayor partiu em velocidade na direita e rolou para Khedira. O alemão, que tinha como opção Cristiano Ronaldo livre na esquerda, arriscou um belo chute de canhota, mas Valdés caiu para defender.

O empate foi justo pela superioridade do Barça e pela entregar do Real Madrid quando estava com um homem a menos. O 1 a 1 foi um bom placar para o primeiro de quatro clássicos. Com o empate, o Barça praticamente se define como o campeão espanhol mantendo a diferença de 8 pontos na ponta da tabela. Para a final da Copa do Rei, quarta-feira, o Barça terá de se preocupar com o possível desfalque de Puyol, que saiu machucado. Porém, Mascherano já estará de volta e, pelo menos contra o Shakthar, foi bem como zagueiro. O Real Madrid pode comemorar: apesar do empate ter selado o tri-campeonato barcelonista, a equipe jogou de igual para igual na primeira etapa e parece ter afastado seus complexos e se convencido de que pode acabar com a seca de vitórias contra o rival.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Para o orgulho

É festa no Bernabéu! Como há muito tempo não se via, Real Madrid voltou a atuar como um gigante na Champions League e deu um sólido passo rumo às semifinais da competição (reuters)

Contra o Lyon, o Real Madrid quebrou o estigma de amarelar nas oitavas de finais da Liga dos Campeões da Uefa e avançou de fase pela primeira vez em seis anos. Porém, a maior afirmação de que o Real Madrid de Mourinho é outro veio hoje no duelo contra o Tottenham: a vitória de 4 a 0 colocou os merengues a um passo de uma semifinal que já não vem desde de 2003/2004, quando os blancos acabaram eliminados pela Juventus. Tudo bem que o Tottenham sentiu muito a falta de um centroavante de ofício desde os 15 minutos do primeiro tempo, quando Crouch foi expulso de uma maneira estabanada, e a falta de Lennon, que sentiu uma lesão no aquecimento. Porém, não há nenhum mérito para tirar desta vitória madridista: os onze chutes a gol contra apenas um dos londrinos representam bem o que foi a partida.

Mourinho fez mistério durante toda a semana. Na sexta-feira, na coletiva pré-jogo contra o Sporting Gijón, havia assegurado que Benzema, Marcelo e Cristiano Ronaldo não estariam aptos à partida de ida contra o Tottenham. Entretanto, o paradigma mudou após a derrota para o Sporting Gijón no sábado, que praticamente confirmou o Barcelona como campeão espanhol desta temporada. Sem saída após a péssima partida feita, Mourinho não teve outro jeito: convocou Marcelo e Cristiano Ronaldo para o duelo, assim como Kaká. Nas quatro linhas, o português, apesar do gol, não foi brilhante, enquanto que o brasileiro ditou o ritmo da partida. Dono de uma excelente atuação, Marcelo não teve trabalho com Van der Vaart, que havia provocado seu ex-time antes do jogo.

A atuação mais surpreendente ficou por conta de Sergio Ramos. O lateral direito fez uma partida que lembrou aquele lateral de 2007/2008 e apesar de algumas desatenções com Gareth Bale, muito veloz, soube conter bem o galês na bola. Pepe, por sua vez, não deixou de cometer suas faltas bobas e acabou recebendo um cartão amarelo em um dos ataques do camisa três do Spurs, o que o tira do jogo da volta no WHL. Escalado no 4-2-3-1, toda a tática de Harry Redknapp foi por água abaixo logo nos primeiros minutos. Primeiro, aos três, quando Özil levantou e Adebayor testou firme para as redes de Gomes, que acabou enganado por Modric, que não afastou uma bola fácil. Depois, aos quinze, quando Crouch, com os nervos à flor da pele, cometeu falta em Marcelo, recebeu o segundo cartão amarelo e foi para os vestiários mais cedo.

Na parte ofensiva, o Real Madrid era infinitamente melhor, mas faltava ser mais incisivo. Özil, como alertávamos na prévia, parecia estar em outro mundo e foi facilmente batido por Sandro. Cristiano Ronaldo, por sua vez, sentiu um pouco a falta de ritmo e não levou muito perigo à meta de Gomes em boa parte da primeira etapa. Assou-Ekotto parecia nervoso e tomou um baile de Di María, um dos melhores em campo, enquanto Adebayor levava clara vantagem pelo alto. O togolês, que vinha fazendo más partidas, deu a volta por cima e foi ovacionado pela torcida merengue presente no Bernabéu.

No intervalo, Redknapp tentou concertar o erro de Peter Crouch. Sacou um decepcionante Van der Vaart, bem vaiado pelos aficionados merengues, para colocar Defoe. Assim, Modric passou a jogar mais aberto pela direita e Bale, que - estranhamente - passou os primeiros trinta minutos da primeira etapa na direita, passou a atuar com mais contundência pela esquerda. Percebendo isso, Mourinho resolveu sacar Khedira, muito ofensivo hoje, para colocar em campo Lass Diarra, que ficou responsável pela cobertura da marcação do galês. À medida que os minutos passavam, o volume de jogo do Real Madrid só crescia e o segundo gol não tardou a chegar. Aos 12 minutos, Marcelo fez boa jogada pra cima de Gallas e cruzou na medida para Adebayor, novamente em vantagem pelo alto, cabecear no canto direito de Gomes, que nada pôde fazer. A partir daí, a torcida madridista, que já fazia muita festa, inflamou o Bernabéu e foi ao delírio aos 26 minutos, quando um onipresente e incansável Di María recebeu de Özil, que subiu de produção, e, com extrema categoria, acertou um feliz chute no ângulo direito do goleiro brasileiro.

Com os 3 a 0, Mourinho deu chances a Kaká e Higuaín, para ganharem ritmo. O brasileiro mostrou vontade e até ensaiou algumas de suas características arrancadas. E foi a partir de uma jogada do meio-campista brasileiro que Cristiano Ronaldo sacramentou a partida. Kaká tabelou com Marcelo e, de esquerda, cruzou na medida para Cristiano Ronaldo, que, de primeira, acertou um belo chute de direita, chegando ao seu quinto gol nesta edição da Champions. A de se destacar a contribuição de Gomes no gol do gajo.

O resultado dará uma injeção extra de ânimo para o Real Madrid para a continuidade da temporada. Se, na Liga Espanhola, Mourinho parece ter jogado a toalha, a equipe continua muito viva e concentrada na principal competição europeia, sem contar a final da Copa do Rei contra o Barcelona, aquele que pode ser seu adversário numa histórica semifinal. Na coletiva, os jogadores seguraram a euforia, mas não há como esconder: o Real Madrid deu um sólido passo para a semifinal da Liga dos Campeões da Uefa.

Real Madrid 4x0 Tottenham
Real Madrid: Casillas; Sérgio Ramos, Pepe, Ricardo Carvalho e Marcelo; Xabi Alonso, Khedira (Lass Diarra), Özil e Di María (Kaká); Cristiano Ronaldo e Adebayor (Higuaín)
Tottenham: Gomes; Corluka (Bassong), Gallas, Dawson e Assou-Ekoto; Sandro, Modric, Lennon, Van der Vaart (Defoe) e Bale; Crouch
Árbitro: Felix Brych (ALE)
Cartão amarelo: Pepe e Adebayor (REA) Van der Vaart e Defoe (TOT)
Cartão vermelho: Crouch (TOT)