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sábado, 11 de maio de 2013

O título da regularidade

O abraço entre Messi e Iniesta, os protagonistas do título de Liga Espanhola do Barcelona 2012-13 (getty images)

Soa como clichê dizer que o campeão de um torneio de pontos corridos se destaca pela regularidade apresentada durante a competição. Mas essa é a palavra que mais se encaixa ao Barcelona de Tito Vilanova, campeão espanhol em sua primeira temporada como treinador profissional e líder do início ao fim. Em temporada inconstante e com alguns problemas extracampos, a equipe não deu sopa ao azar e capitalizou positivamente os tropeços de Atlético de Madrid e Real Madrid, seus principais rivais durante boa parte da Liga. 

Com um primeiro turno de alto nível, com 18 vitórias e um empate em 19 jogos, os blaugranas puderam atuar com mais tranquilidade na segunda parte, onde a queima de gordura foi permitida. Mais concentrado na parte decisiva da Uefa Champions League, o Barça caiu naturalmente de rendimento, mas nada que assustasse bastante: apenas duas derrotas (Real Sociedad e Real Madrid) em 15 jogos, até o momento. Ainda que não tenha derrotado o Real Madrid nos dois superclássicos, não há do que reclamar da campanha catalã.

Taticamente, Tito Vilanova deixou a desejar. O treinador manteve o 4-3-3 natural da filosofia azulgrená, mas não o utilizou em essência. Sem marcação pressão, poucas infiltrações dos ponteiros e uma recomposição mais lenta em relação ao time de Guardiola, a defesa ficou vulnerável aos contra-ataques. Outro problema foi as jogadas aéreas, sempre um Deus nos acuda ao sistema defensivo. A bem da verdade, o aparecimento repêntino de um câncer na glândula paródita acabou por colocar em xeque seu trabalho. É injusto julgar negativamente Tito Vilanova e esquecer do bom futebol que o Barcelona parecia estar recuperando até sua ida a Nova Iórque para o tratamente de quimioterapia. A vitória contra o Málaga por 1x3 na Andaluzia, com 74% da posse de bola e um tiki-taka ao fino, é a prova disso. Com Jordi Roura, os blaugranas viveram seu pior momento em 2012-2013.

Dos personagens, dois se destacaram: Andrés Iniesta e Lionel Messi. Apesar dos números assustadores do argentino, o espanhol talvez tenha se destacado tanto quanto. Em fevereiro, num momento crucial da temporada, Messi padeceu, enquanto o meio-campista (que atuou durante 60% da temporada aberto à esquerda do ataque) manteve-se bem. Até esse período, a temporada de Iniesta era de outro mundo. Para muitos críticos, foi o melhor ano do jogador de Albacete, que vem mantendo a boa fase desde a Eurocopa, quando foi campeão e melhor jogador. 

Mas o camisa 10 não pode se esquecido. Pichichi da Liga pela segunda vez consecutiva e terceira em sua carreira, Messi alcançou, mais uma vez, registros sobrenaturais. Ele se tornou o primeiro jogador a marcar gols em 19 rodadas consecutivas, o que dá, em outras palavras, um turno inteiro indo às redes. Além disso, marcou pelo menos um gol em todas as equipes da competição (à exceção do Barcelona, óbvio), feito que só Cristiano Ronaldo, na temporada passada, havia conseguido. Com 46 gols em 34 rodadas, La Pulga está a quatro de igualar seu recorde de 50 anotados em 2011-2012.

Com o título, o Barcelona se torna o clube espanhol com o maior número de títulos oficiais (79), dois à frente do Real Madrid, que disputa a final da Copa do Rei na próxima sexta-feira. Esse é o título de número 24 da carreira de Xavi, o jogador espanhol com mais títulos em toda a história. Em campo, no entanto, foi uma temporada atípica do maestro catalão, que já não foi tão dominante no meio-campo quanto nos últimos anos. Ainda que em janeiro e fevereiro tenha tido uma excelente sequência, o camisa seis barcelonista fez sua pior temporada desde 2008.

Agora, a diretoria começa a se planificar visando a próxima temporada. Principalmente pela eliminação acachapante na Uefa Champions League para o Bayern de Munique, com direito a 4x0 na Alemanha e 0x3 na Catalunha, o elenco precisa de uma renovação, sobretudo na retaguarda. Com Piqué inconstante e Puyol dando sinais claros de decadência, é necessário contratar, ao menos, dois zagueiros. Dentre os especulados, o nome de Hummels, do Borussia Dortmund, aparece com mais força, embora o preferido de Tito Vilanova e Andoni Zubizarreta seja o brasileiro Thiago Silva, sonho antigo dos espanhóis. 

No gol, o clube vive um dilema: Víctor Valdés revelou não querer renovar seu contrato, que se encerra em julho de 2014, e o desejo do corpo técnico é contratar um novo arqueiro já na próxima temporada. Ter Stegen, Guaita, Handanovic e De Gea são os que têm o nome ligado a uma possível transferência ao Camp Nou. Nas laterais, Daniel Alves mostrou-se irregular, enquanto Alba se adaptou perfeitamente ao time titular. Do meio para frente, o nome mais desejado é o de Neymar. O santista, que parece estar com um pé e meio em Barcelona, voltou a ser atacado pelo Real Madrid, de acordo com a imprensa espanhola, embora seu desejo seja o de atuar com Messi e cia. Além de Neymar, Tito prefere contar com mais um atacante de lado do campo.

Abaixo, os principais jogos, em ordem de acontecimento, que marcaram o título barcelonista. Para ver os gols, clique em cima do resultado.

Barcelona 5x1 Real Sociedad, 1ª rodada. Gols de Messi (2), Puyol, Pedro e Villa.
Nada melhor começar o campeonato goleando. No retorno (e com gol) de Villa, a Real assustou nos primeiros minutos, mas Messi deu seu cartão de visita à temporada com um doblete.

Osasuna 1x2 Barcelona, 2ª rodada. Gols de Messi (2).
Em um jogo extremamente difícil em Navarra, onde o Barcelona sempre encontra dificuldades, o time de Tito Vilanova não se encontrava em campo. Mas eis que Messi, como de praxe, decidiu marcando os gols da virada aos 31 e 35 minutos do segundo tempo. Na mesma rodada, o Real Madrid perdeu para o Getafe por 1x0 e os azulgrenás abriram distância na tabela.

Sevilla 2x3 Barcelona, 6ª rodada. Gols de Fàbregas (2) e David Villa.
A uma semana do primeiro superclássico contra o Real Madrid, o Barcelona iria à Andaluzia encarar o Sevilla, que à época viveu sua melhor fase na temporada. Com uma marcação forte, perigoso nos jogos aéreos e um contra-ataque fatal, os nervionenses abriram 2x0 e, indiretamente, ressuscitavam os merengues. Mas aí o Barcelona acordou, impulsionado por Fàbregas, autor de um doblete providencial. No último suspiro do jogo, Villa mostrou estar recuperado ao tabelar com Messi e anotar o gol da remontada.

Barcelona 2x2 Real Madrid, 7ª rodada. Gols de Messi (2).
No Camp Nou, tanto Barcelona quanto Real Madrid chegavam ao superclássico rodeado de dúvidas. E Cristiano Ronaldo e Messi, que anotaram dois gols cada, trataram de mascarar os problemas das duas equipes, num jogo não tão espetacular tecnicamente.

Barcelona 4x1 Atlético de Madrid, 16ª rodada. Gols de Adriano, Busquets e Messi (2)
À época, o confronto do líder contra o vice-líder. O Atlético de Madrid de Simeone chegava ao Camp Nou  com uma grande campanha e a segunda colocação. Dentro de campo, nos primeiros 45 minutos, os rojiblancos se comportaram muito bem e chegaram a abrir o placar com Falcao García. O golaço de Adriano trouxe o Barcelona de volta ao jogo e, depois, o Atléti inexistiu.

Málaga 1x3 Barcelona, 19ª rodada. Gols de Messi, Fàbregas e Thiago Alcântara.
O Málaga vivia um ótimo momento, era o quarto colocado e havia derrotado o Real Madrid um mês antes. Era um compromisso bastante difícil ao Barcelona. No entanto, o que se viu em campo foi um time à Guardiola, com muita pegada na marcação, infiltrações pelos lados do campo e belas trocas de passes.

Barcelona 2x1 Sevilla, 16ª rodada. Gols de Messi e Villa
Era o jogo depois da derrota em Milão para o Milan e antes do confronto decisivo pela Copa do Rei contra o Real Madrid. A virada marcou uma espécie de mudança na equipe titular: Villa aproveitou a chance dada por Roura, marcou o gol do empate e ganhou a vaga de Fàbregas no onze inicial, com Iniesta sendo recuado à sua posição original, no meio-campo.

Barcelona 4x2 Bétis, 34ª rodada. Gols de Alexis Sánchez, Villa e Messi (2)
Os blaugranas acabavam de sair da eliminação humilhante na Champions para o Bayern e pareciam estar sentindo a queda em âmbito europeu. Messi, que começou no banco, teve que entrar para decidir: no primeiro toque na bola, sofreu uma falta. No segundo, cobrou com perfeição. Com uma nova postura, o Barcelona virou e aliviou a relação com a torcida, que acabou o primeiro tempo vaiando a equipe.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

PSG x Barcelona

Pela segunda vez consecutiva, o sorteio da Uefa Champions League colocou frente a frente Barcelona contra Zlatan Ibrahimovic, que teve uma pequena passagem pelo clube blaugrana, de onde saiu de maneira controversa. Se na temporada passada seu Milan não conseguiu parar o tetracampeão europeu, dessa vez cabe ao sueco tentar levar o Paris Saint Germain à semifinal da principal competição europeia de clubes. Nas oitavas de finais, o clube da capital francesa eliminou um clube espanhol: vitória, no agregado, por 3x2 contra o Valencia. Mas os confrontos não teve um Ibrahimovic protagonista, muito pelo contrário. Expulso na partida de ida, quando ele passou em branco, coube a Pastore, Lavezzi e Lucas liderar os parienses.

Especialmente após eliminar o Milan, o Barcelona parece ter retornado à velha forma. O futebol total, que andava em modo lento, dá mostras que voltou com maestria e, como bem deixou claro o brasileiro Leonardo, diretor técnico do PSG, os azulgrenás são os favoritos para avançar de fase. Na última sexta-feira, o representante do Parc des Princes jogou para o gasto e derrotou o Montpellier por 1x0, gol de Gameiro. A derrota do Lyon para o Souchaux, no domingo, por 1x2, dá total liberdade à equipe de Carlo Ancelotti se concentrar nos confrontos contra o Barça.

Ao contrário dos catalães, o PSG não é um primor coletivo. A maioria das vitórias tem saído à base da invidualidade de seus principais jogadores, sobretudo Ibrahimovic, artilheiro do time na temporada com 31 gols. A velocidade de Lucas pela direita do 4-2-3-1 é uma arma importante da equipe, que costuma ter no brasileiro uma válvula de escape para a armação dos contra-ataques. No outro flanco, Ezequiel Lavezzi tem se destacado em âmbito europeu, onde é o principal goleador do PSG na LC, com cinco gols. No auxílio a Ibrahimovic, Javier Pastore, após um início opaco, atua mais à vontade, como nos tempos de Palermo.


Dizer que Ibrahimovic é uma ameaça real à zaga barcelonista é chover no molhado. Sem Puyol, que pode ficar de fora do restante da temporada, cabe a Piqué e Mascherano total atenção. Aliás, o argentino está a um cartão amarelo da suspensão, que poderia complicar a vida barcelonista visando o jogo da volta. Na esquerda, Jordi Alba irá precisar ser preciso como contra Di María no superclássico de outubro para encarar Lucas. Até por ser um lateral ofensivo, ele terá, acima de tudo, que contrabalancear suas subidas ao ataque para não deixar espaços ao brasileiro, que, certamente, também precisará marcar o espanhol nas jogadas ofensivas barcelonista.

Outra peça-chave para o Barça será Iniesta. O camisa oito jogará no setor do mapa da mina dos parienses: o lado direito da zaga, onde atua o fraco Christophe Jallet. Além dele, Villa é outro que cumprirá função importante. A versatilidade do Guaje oferece flexibilidade ao Barcelona. Tito pode orientá-lo a centralizar e puxar a marcação de Thiago Silva e Alex para Messi entrar em diagonal (um dos caminhos para a vitória contra o Milan) ou fechar o lado esquerdo do ataque. Na direita, Tello, com moral alta após a excelente partida na Galícia contra o Celta, deve ganhar a vaga de Alexis Sánchez e substituir Pedro, suspenso.

Contra dois jogadores velozes pela ponta e um dos melhores centroavantes do mundo, o Barcelona não pode deixar os franceses contra-atacarem. Trabalhar a bola com mais velocidade, acionar os ponteiros (para isso, Xavi on fire será primordial), aproveitando-se da carência do adversário na marcação pela bandas, é a chave para a vitória.

O pesadelo de todo o elenco do PSG certamente atende-se por Lionel Messi. Ibrahimovic, Thiago Silva, Lucas, Pastore e Lavezzi rasgaram elogios ao argentino antes do duelo. É provável que Ancelloti repita a "fórmula Inter-Chelsea-Celtic-Milan", com duas linhas de quatro protegendo a retaguarda de Sirigu para ilhar o camisa dez. Trocar de posição com frequência com Tello e cair pelo lado direito é essencial. A marcação frouxa do ex-blaugrana Maxwell não deve aguentar nem o catalão e muito menos o argentino. Com 56 gols na temporada, Messi voltou aos melhores momentos e deixou claro que "está animado e com boas sensações para enfrentar o PSG". Que o virtual campeão francês se cuide.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Prévia: Milan x Barcelona

Na temporada passada, o Milan parou Messi no San Siro e segurou o 0x0 contra o Barcelona com uma pequena retranca. E agora? (AP Photos)

Por mais um ano consecutivo, o sorteio da Uefa Champions League colocou frente a frente Barcelona x Milan. Se, nos confrontos da temporada, houve um leve favoritismo ao lado do Barcelona, principalmente depois da lesão de Thiago Silva, que ficou de fora dos dois jogos, atualmente o peso do favoritismo por parte blaugrana é ainda maior. À época, no entanto, o Milan deixou a competição de cabeça erguida, após segurar os azulgrenás no San Siro com uma competente retranca e chegar a assustar os mais de 90 mil torcedores culés presentes no Camp Nou, quando Nocerino empatou a partida por 1x1, resultado que classificava os rossoneros (logo depois, Messi, de pênalti, e Iniesta decidiram a classificação barcelonista).

Pelo lado catalão, o respeito pelo time de Milão é alto. Jordi Roura, na coletiva desta segunda-feira, afirmou ser altamente difícil encarar o Milan em seus domínios. O diretor esportivo Zubizarreta, por sua vez, admitiu não estar 100% confiante na classificação e que os rossoneros merecem respeito não importa a situação. O mesmo disse o capitão Puyol, reconhecidamente um seguidor do Milan.

Para a prévia deste confronto, que terá seu jogo de ida nesta quarta, 20 de fevereiro, às 16h45 (horário de Brasília), e volta no dia 5 de março, contaremos com a colaboração, por mais uma vez, dos parceiros do Quattro Tratti, especializado no calcio italiano. Quem fala sobre o Milan é Arthur Barcelos. Boa leitura.

A temporada até aqui
Milan: Depois de um início tenebroso, com seis derrotas, dois empates e apenas quatro vitórias, gerando um aproveitamento de 33,3%, o time de Massimiliano Allegri vem conseguindo se recuperar na Serie A. Nos últimos 13 jogos pelo campeonato, o Diavolo teve um aproveitamento de 69,2%, com nove vitórias, três empates e apenas uma derrota, marcando 26 gols e sofrendo outros 15. Atualmente, o clube de Milanello é o quarto colocado, com 44 pontos em 25 jogos, empatado com a Lazio, a última equipe na zona de classificação para a próxima Champions League. Pela Coppa Italia, o Milan parou nas quartas de finais, contra a Juventus, após ter batido sem dificuldades a Reggina nas oitavas. Já na fase de grupos da Champions, os comandados de Allegri fizeram campanha irregular, surpreendidos pela ótima campanha do Málaga, conseguindo uma vaga no mata-mata apenas na penúltima rodada.

Barcelona: Líder isolado e virtual campeão da Liga Espanhola, nem tudo foi mil maravilhas para o Barcelona no início da temporada. Sem Josep Guardiola, que em abril, logo após a eliminação para o Chelsea, havia anunciado que não renovaria seu contrato para 2012-13, a equipe demorou a engrenar. Em campo, Tito Vilanova não mexeu na filosofia de jogo de Pep, dando continuidade ao estilo do ex-treinador. No entanto, o jogo encantandor dos últimos quatro anos não fluia. Especialmente na Uefa Champions League, o Barcelona não convencia. O estopim foram dois jogos muito abaixo da média contra o Celtic, que resultou em uma derrota por 2x1 e uma vitória pelo mesmo placar com o gol da vitória aos 47 minutos do segundo tempo, através de Jordi Alba. A perda da Supercopa para o Real Madrid, quando foi amplamente dominado pelo time de Mourinho, foi moralmente absorvida pela campanha louvável em âmbito doméstico: enquanto os merengues iniciaram a temporada pecando na busca pela manuntenção do título, os blaugranas, por sua vez, firmaram o melhor início de um time em toda história do campeonato, vindo a perder sua invencibilidade apenas na primeira rodada do returno (derrota para a Real Sociedad por 3x2 no País Basco). Pela Copa do Rei, o Barça conseguiu boa vantagem ao empatar contra o Real Madrid no Bernabéu por 1x1.

Pontos fortes
Milan: A sequência de bons resultados deve dar um gás a mais para a equipe milanesa, mas são poucos os pontos fortes do atual Milan. Allegri tem no jovem El Shaarawy sua principal arma ofensiva, o artilheiro do time na Serie A e na Champions League, com 15 e 2 gols, respectivamente, contribuindo também com 4 assistências na temporada. Outros destacáveis dos rossoneri são Montolivo, Constant e De Sciglio. O primeiro vem rendendo bem na função de regista, correspondendo as expectativas, enquanto o segundo, por sua vez, talvez seja a grande surpresa na temporada, indo bem na lateral esquerda, e mesmo lhe faltando técnica, compensa com entrega e bom posicionamento. Já o último é a grande revelação do Diavolo, fazendo valer toda a expectativa criada após seu ótimo desempenho na base rossonera, desbancando o antes titularíssimo Abate e conquistando, inclusive, uma lembrança de Prandelli na Nazionale.

Barcelona: Lionel Messi e Andrés Iniesta vivem estados de graça. O primeiro, eleito pela quarta vez consecutiva o melhor jogador do mundo pela Fifa e France Football no início de janeiro, caminha para registrar sua melhor temporada nos números, após assombrosos 72 gols na temporada passada - 91 no ano. São 48 gols em 36 jogos, uma média de 1.33 por partida. Iniesta, por sua vez, é o motor do time. Adaptado ao setor esquerdo do ataque, em uma tentativa de encaixar Fàbregas no meio-campo, o espanhol, segundo muitos especialistas, faz a melhor temporada de sua carreira. Impulsionado pelo título e o troféu de MVP da Eurocopa, o camisa 8 é fundamental para o esquema do treinador, fazendo ótima parceria com Jordi Alba pelo lado esquerdo. Fàbregas é outro grande nome do Barça na temporada. Após um início fulminante, ele caiu de rendimento nos últimos jogos, mas nada de tão impressionante. Por outro lado, quem cresceu consideravelmente na temporada foi Xavi. O camisa 6 começou de maneira tímida, não tão dominante no meio-campo, mas desde dezembro tem feito partidas com selo Xavi.

Pontos fracos
Milan: Apesar do bom momento dos últimos quatro meses, o time de Allegri não apresenta bom futebol, que, certamente, não enche os olhos dos rossoneri. Suas vitórias geralmente vêm de placares apertados e/ou decididos no final dos 90 minutos, tendo muitas dificuldades contra equipes que jogam mais fechados e que usam contra-ataque e bola longa. O Milan tem a segunda maior média de posse de bola, 57,9%, atrás apenas da Juventus, contudo apresenta problemas quando com a posse, aproveitá-la para abrir espaços na defesa adversária, fazer infiltrações, chutar ao gol e, claro, converter suas chances, mesmo tendo o quarto melhor ataque da Serie A, 34% de gols do menino El Shaarawy, sobrecarregado no ataque. Balotelli, contratado no mercado de inverno, conseguiu amenizar um pouco a situação, marcando quatro gols em três jogos, porém não poderá jogar pelo Diavolo na Champions League, por já ter atuado pelo Manchester City. Não bastasse isso, a defesa segue falha, especialmente os zagueiros. Os veteranos Mexès, Yépes e Bonera não conseguem substituir a altura Nesta e Thiago Silva, e ainda apresentam certa irregularidade, enquanto Zapata não consegue repetir as atuações dos tempos de Udinese, também apresentando irregularidade.

Barcelona: Desde a Era Guardiola a zaga não inspirava confiança. Com Tito Vilanova tem exagerado. Os erros são múltiplos e cruciais. A recomposição é feita com muita lentidão, o que gera muitas bolas nas costas, sobretudo pelo lado de Daniel Alves, lateral que ataca com mais frequência que Alba, o lateral esquerdo. O catalão, talvez, seja o grande destaque desse sistema defensivo. Inteligente taticamente, ele comete poucos erros e ajuda substancialmente o ataque. Com Puyol apto, a melhoria é considerável, porém não garante 100% de confiança. Piqué, após bom início de temporada, voltou a falhar em janeiro, mas ganhou moral após anular Cristiano Ronaldo no superclássico de três semanas atrás. Outro ponto fraco conhecido desse time do Barça é a dificuldades de encarar retrancas. A eliminação para o Chelsea ratificou essa deficiência. Contra o próprio Milan, pelas quartas-de-finais da LC 2011-12, os azulgrenás passaram por dificuldades no San Siro, quando os rossoneros retraíram as linhas e diminuiram os espaços de Messi e Xavi. 

Expectativas
Milan: Bom momento, futebol burocrático, as expectativas do Milan contra o líder espanhol e soberano Barcelona não são das melhores. Contra o eficiente time de Tito Vilanova, Allegri já não conta mais com Ibrahimovic e Thiago Silva, além da disposição tática da equipe das últimas duas temporadas, fatores que seriam fundamentais contra o clube catalão, que também vem apresentando problemas na defesa, problemas esses que poderiam ser explorados pelo trio Niang-Balotelli-El Shaarawy, que não poderá se repetir nos dois confrontos pela ausência do camisa 45. Além de tudo isso, o retrospecto da equipe de Milanello contra o Barcelona também pesa contra: nos últimos seis jogos, foram três vitórias dos culés, sendo duas em pleno San Siro, e três empates. Os comandados de Allegri terão de se superar caso ainda sonhem com o avanço para as quartas, mas pelo visto as atenções do time de Berlusconi estão todas voltadas para a Serie A, na briga por uma vaga na próxima Champions.

Barcelona: O Barcelona recuperou o bom futebol dos últimos tempos, após um fraco início quanto ao desempenho em campo, e chega ao confronto com muita confiança e com o peso do favoritismo ao seu lado. 12 pontos à frente do vice-líder Atlético de Madrid, os azulgrenás podem se concentrar com mais atenção à competição europeia. O treinador Tito Vilanova não estará presente nos confrontos devido a uma ida a Nova York para o início da quimioterapia para curar o câncer. O auxiliar Jordi Roura, nos últimos três jogos, tem feito alguns turnovers no time titular especialmente para evitar algumas lesões, principalmente de jogadores "frágeis" fisicamente, casos de Iniesta, Fàbregas, Daniel Alves, Puyol e Xavi. Em quatro confrontos contra o Milan na temporada passada, o Barcelona venceu dois, enquanto os outros dois terminaram empatados. Por tudo que as equipes vem apresentando na atual temporada, é fácil imaginar os catalães avançando de fase com certa facilidade. Mas uma camisa como a do Milan merece respeito, como frisou Roura na coletiva pós-jogo contra o Granada, no sábado.

Prováveis escalações
Milan: Abbiati; De Sciglio (Abate), Mexès (Zapata), Yépes, Constant; Nocerino, Montolivo, Boateng (Muntari); Niang, Pazzini (Bojan), El Shaarawy. Técnico: Allegri.

Barcelona: Víctor Valdés; Daniel Alves, Piqué, Puyol, Alba; Busquets, Xavi, Fàbregas; Pedro, Messi, Iniesta. Técnico: Jordi Roura

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Os melhores do primeiro semestre

 Lionel Messi: 25 gols, pichichi absoluto e, por ora, o melhor jogador do campeonato (getty images)

Com 2012 chegando ao fim e, com ele, o primeiro semestre da temporada europeia, já podemos montar com convicção a seleção do primeiro turno da Liga Espanhola, ainda que falte mais duas rodadas para o final. Com incríveis 49 pontos em 17 rodadas (16 vitórias, 1 empate e nenhuma derrota), o Barcelona fincou seu nome na história do campeonato ao ter os melhores registros da Liga, com os números acima. O campeonato retorna neste final de semana, e os líderes terão dérbi para fazer contra o Espanyol. Abaixo, o 11 do primeiro turno, escalado no 4-3-3 por ser a tática do líder e virtual campeão Barcelona.

Willy Caballero (Málaga)
A melhor defesa do campeonato é impulsionada pelo excelente arqueiro Caballero, que vem numa crescente desde a temporada passada, onde foi um dos principais responsáveis pela boa temporada do Málaga, que culminou com a vaga na Champions. Há duas semanas, teve atuação de ouro contra o Real Madrid, ratificando por que é, até o momento, o melhor goleiro da elite espanhola

Cicinho (Sevilla)
Na lateral direita, Cicinho surpreende. Questionado em sua chegada pela saída conturbada do Palmeiras, o brasileiro caiu nas graças da torcida ainda na pré-temporada. Taxado de "novo Daniel Alves", ganhou destaque após a partida contra o Real Madrid no início da temporada, onde anulou Cristiano Ronaldo e ainda fez graça com o português. Ele caiu consideravelmente de rendimento nos últimos jogos, mas não apaga as brilhantes partidas feitas nas primeiras dez rodadas.

Gerard Piqué (Barcelona)
Piqué veio de uma temporada apagada. Durante a reta final de 11/12, perdeu a titularidade para Mascherano, ficando no banco nos jogos decisivos da Liga e da Champions League. Porém, tem recuperado à medida que a atual temporada passada sua melhor versão. Piqué garante segurança e excelência na saída de bola a um sistema defensivo que ainda não é perfeito.

Miranda (Atlético de Madrid)
É outro brasileiro que vai bem na temporada. Assim como Cicinho, teve uma queda no rendimento, mas é homem de confiança de Simeone e um dos principais jogadores da excelente temporada rojiblanca. Chefão da zaga, é importante também no jogo aéreo e faz uma dupla coesa com o uruguaio Godin.

Jordi Alba (Barcelona)
Alba repete, por ora, as atuações de alto nível que o levaram de volta ao Barcelona. O melhor lateral esquerdo da Eurocopa é, sem dúvidas, um dos três principais jogadores dos blaugranas na atual temporada na opinião deste colunista. Disciplinado taticamente, tem em Iniesta seu principal "ajudante" na ponta esquerda, uma parceria que deu certo durante a disputa da Euro. É provável que Abidal retorne como zagueiro, porque é difícil imaginar Alba perdendo a titularidade com Tito Vilanova.

Sergio Busquets (Barcelona)
"O jogador silencioso", assim definiu Diego Torres, colunista do El País em uma de suas recentes colunas no periódico. Jogador que equilibra o meio-campo barcelonista, é imprescindível ao estilo de jogo azulgrená. Você pode questionar Guardiola por ele ter deixado Touré sair de maneira tão fácil, mas, mesmo sendo inferior ao marfinense, o catalão encaixa mais na tática blaugrana. Aos 23 anos, é um dos melhores volantes do mundo.

Cesc Fàbregas (Barcelona)
Em 2011/2012, Fàbregas retornou ao Barcelona. No primeiro semestre, foi importante e fez excelentes partidas. No entanto, a partir da reta final, caiu drasticamente de rendimento, criando dúvidas quanto ao seu poder de decisão. Na Eurocopa, atuando de falso nove, foi importante, mas restava mostrar isso com mais regularidade no Barça. Por enquanto, repete o que fez na primeira parte da temporada passada com mais sobressaliência, atuando no meio-campo, ora fazendo a função de Xavi (onde se sai melhor, diga-se de passagem), ora exercendo o papel de Iniesta.

Andrés Iniesta (Barcelona)
Iniesta faz juz ao título de melhor jogador da Europa conquistado em agosto do ano passado. Se durante a era Guardiola (e a parte final da era Rijkaard), atuava num baixo nível quando escalado aberto à esquerda do ataque, o espanhol parece adaptado à função que cumpre tanto na seleção espanhola quanto agora no Barcelona. Versátil e incisivo o bastante para atuar por ali, tem contribuido à exaustão para Messi alimentar mais recordes. Com Iniesta em forma, é muito mais difícil do que o normal derrotar o esquadrão da Catalunha.

Lionel Messi (Barcelona)
25 gols em 17 jogos, 91 em 2012, seis rodadas consecutivas anotando ao menos dois gols numa mesma partida. Não há palavras para descrever Lionel Messi, o melhor jogador do campeonato. La Pulga começou a temporada num ritmo menos elevado, ficando muito preso à função de centroavante, mas já recuperou a forma avassaladora. Daqui a uma semana, tem tudo para receber mais um prêmio de melhor do mundo.

Falcao García (Atlético de Madrid)
El Tigre, mas pode chamá-lo de El Demolidor. O colombiano faz uma temporada dos sonhos e não é exagero dizer que, atualmente, ele é o melhor centroavante do mundo. Vice-artilheiro com 17 gols, é o protagonista da melhor campanha do Atlético de Madrid em muito tempo.

Cristiano Ronaldo (Real Madrid)
O gajo pode atuar melhor do que vem atuando, mas no ambiente mais do que conturbado que vive o Real Madrid não há mais o que pedir dele. Mesmo "triste" com pessoas do clube, não falta entrega dentro de campo. Será um verdadeiro baque para o Real Madrid perdê-lo ao final da temporada, como vem especulando a imprensa espanhola - prováveis destinos: retorno a Manchester ou ida ao PSG.

Menções honrosas: Courtois (Atlético de Madrid), Adriano (Barcelona), Filipe Luís (Atlético de Madrid), Godin (Atlético de Madrid), Demichelis (Málaga), Isco Román (Málaga), Joaquín (Málaga), Hemed (Mallorca), Leo Baptistão (Rayo Vallecano), Piti (Rayo Vallecano)Soldado (Valencia), Vela (Real Sociedad).

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Ao resgate

 Nas últimas duas semanas, o Barcelona recuperou o bom futebol e promete voltar a encantar (getty images)

No Ciutat de Valencia, o Barcelona, na teoria, teria um confronto difícil contra o Levante. Quarto colocado da Liga Espanhola e com a moral em alta após conseguir uma inédita e histórica classificação ao mata-mata da Liga Europa, os levantinos prometiam vida difícil aos blaugranas, assim como nos dois últimos confrontos em Valencia. O que aconteceu, sobretudo no segundo tempo, foi justamente o contrário. O gol de Messi logo na volta do intervalo abriu o caixão e serviu para fazer o Barcelona relaxar e chegar a mais três gols naturalmente, construindo as jogadas e exercendo um belo futebol.

É um desafio escrever sobre o Barcelona de Tito Vilanova sem entrar em comparações com o de Josep Guardiola (em evidência no Brasil após a suposta vontade de treinar a seleção brasileira). Mas esse é um desafio que deve ser encarado, porque não há nada mais vazio do que dizer que "o elenco é o mesmo" ou que "o time de Guardiola encantava mais", o que ainda é um equívoco, visto que a equipe de Vilanova poucas vezes fez um jogo completo com o onze que o novo treinador pretender levar a campo nos momentos decisivos. Ontem, por exemplo, Tito iniciou o duelo que fechou a noite com esses jogadores, ainda que tenha colocado Iniesta aberto à esquerda do ataque. Com Villa ainda sem estar no auge da forma e Tello e Alexis Sánchez em más fases, é perfeitamente plausível ver o meio-campista fazendo as vezes no ataque, como faz costumeiramente pela seleção espanhola.

O Barcelona de Tito Vilanova cumpre com competência, ainda que não com excelência, o que se espera dele: ele vence. Ontem, nos 4x0 diante do Levante, o Tito Team igualou o melhor arranque da história da Liga Espanhola, que, até o momento, pertencia em solitário ao Real Madrid de 91/92. À época, a equipe treinada por Antic somou 12 vitórias e um empate nas 13 primeiras rodadas, exatamente os mesmos registros que apresenta o Barça atual. No futebol espanhol, considerando Liga BBVA, Liga Adelante e Segunda División B, os blaugranas são os únicos a não conhecerem a derrotam em território doméstico, após o Tenerife perder sua primeira partida no sábado. Em âmbito continental, foram derrotados pelo Celtic por 2x1, pela quarta rodada da Uefa Champions League. Mais cedo, no início da temporada, uma derrota para o Real Madrid por 2x1 que custou a Supercopa Espanhola.

Mas essa excelência, pelo visto, começa a dar as caras. Contra Zaragoza, Spartak Moscou (primeiro tempo) e Levante, o Barcelona fez jogadas e gols semelhantes aos dos tempos áureos com o treinador anterior. Coincidentemente, o bom futebol retornou justamente quando Puyol se recuperou de lesão e formou a zaga ao lado de Piqué. A melhora defensiva é considerável. A recomposição também é feita com mais atenção. Pelo menos nesses três jogos, o Barcelona ofereceu pouca chances aos adversários e os laterais sofreram poucas bolas nas costas, algo que tornou-se praxe nos três meses anteriores. Jordi Alba iniciou a temporada em alto nível e não é exagero dizer que, atualmente, ele é o melhor lateral esquerdo do mundo, enquanto Marcelo não está apto por lesão.

No meio-campo, uma figura cresce e impussiona o Barcelona: Andrés Iniesta. Após um início de temporada modorrento, onde não engatou sequência na equipe titular graças à fase de Fàbregas, ele está fazendo jus ao prêmio de melhor jogador da Europa. Contra o Levante, ratificou a boa fase com atuação espetacular, ofuscando Messi. Foram três assistências e um golaço para dissipar as dúvidas. Por outro lado, o grande maestro Xavi permanece tímido. Fàbregas, quando escalado no setor do camisa 6, mostrou mais serviço e apresentou um leque de jogadas maiores que os do atual Xavi. Cesc deu oito assistências para gols e anotou quatro tentos, enquanto Xavi assistiu apenas uma vez e foi às redes três vezes.

O craque do time tem correspondido até num nível acima do normal. Após apresentar uma versão mais humana, Lionel Messi já desempenha um futebol digno de melhor do mundo. Se movimentando com mais contundência e arriscando mais dribles e arrancadas, ele está bem longe do Messi tímido que iniciou a temporada, muito preso à função de um verdadeiro nove. Seus números assustam. São 82 gols em 2012 e 26 na temporada 2012/2013. Após ultrapassar a maior marca de Pelé num único ano, La Pulga está a um passo de chegar em Gerd Müller, o maior artilheiro, que marcou 85 gols em 1972. Agora é questão de tempo. Artilheiro isolado da Liga Espanhola com 19 gols e da Champions League com 5 (ao lado de Artur e Cristiano Ronaldo), o dado a seguir assusta: equipes como Liverpool e Milan marcaram 71 e 81 gols ao longo do ano, menos do que o argentino sozinho.

Ainda assim, há quem viva um pesadelo. Antes tratado como peça-chave, Daniel Alves já não é mais tão fundamental. Mais uma vez lesionado (pela quarta vez em três meses), ele ficará duas semanas fora do gramado. Montoya não é um substituto à altura, mas tem sido essencial porque está servindo para contrabalancear as subidas de Alba pela esquerda. Até por ser mais conservador que o baiano, o canterano deixa o sistema defensivo menos exposto. Sua atuação no superclássico do início de outubro foi positiva. Daniel Alves, por ter boa qualidade ofensiva, poderia ser opção para jogar aberto à direita no ataque, papel este que desempenhou em algumas partidas com Guardiola, quando o treinador optou pelo uso do 3-4-3. O entendimento com Xavi e Messi pode ajudá-lo.

Finalmente, após algumas críticas e especulações de fim de ciclo, o Barcelona mostrou capacidade de ser avassalador novamente. Com o bom futebol de volta, será que veremos a melhor equipe dessa geração encantar em campo novamente, como vimos com tanta frequência nos últimos quatro anos?

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Cenário diferente

 Iniesta e Pedro: o canário, melhor em campo contra a Bielorrúsia, deve começar novamente como titular contra a França (getty images)

Em Donetsk, há quatro meses, a Espanha entrou em campo contra a França sob dúvidas. Após uma fase de grupos onde mostrou um futebol bastante pragmático, a Fúria precisava se desligar dos rótulos. Nos primeiros 30 minutos, a seleção encaminhava-se para tal. Nesse período, o time de Vicente Del Bosque pressionou a França como ainda não havia feito com nenhum adversário nos três primeiros jogos. E abriu o placar, após passe incisivo de Iniesta, arrancada e cruzamento de Alba na medida para Xabi Alonso testar. Depois disso, a Roja voltou ao modo preguiça. Tocou, tocou, tocou, pouco foi ameaçada e achou mais um gol no final do jogo, novamente com Xabi Alonso, convertendo pênalti controverso sofrido em cima de Pedro.

Amanhã, às 16h, as seleções se enfrentam no Vicente Calderón, em Madrid. A partida marca o retorno de Fernando Torres ao estádio onde teve suas primeiras grandes exibições como profissional. El Niño, provavelmente, não será titular, mas o reencontro com a torcida colchonera será emocionante. Os aficionados do Atlético de Madrid prometeram uma homenagem ao seu ídolo antes da bola rolar. Em campo, Del Bosque deve manter Fàbregas como falso nove. O barcelonista se adaptou à posição e sente-se à vontade em campo com uma maior liberdade de movimentação. Mais cedo, na coletiva antecedente ao duelo, Cesc afirmou que a posição é relativa, ainda que prefira atuar de meio-campista. O Marca fez um levantamento afirmando que, nesse sistema, a Fúria marca mais gols.
As prováveis escalações, segundo o Marca

Há quatro meses, o duelo, válido pelas quartas-de-finais da Euro, foi naturalmente estudado durante boa parte da primeira etapa. Amanhã deve ser diferente. Com as duas seleções dividindo o poderio de favoritas do grupo, o confronto tende a ser mais disputado. Ainda mais pelo fato de haver mais uma partida a ser feita entre eles, daqui a um ano, o que mostra que tanto França quanto a Espanha devem ousar mais. Ninguém tem convicção de que a dupla irá superar Geórgia, Finlândia e Bielorrúsia.

As lesões de Piqué e Puyol deixa a defesa espanhola sem seus donos. Del Bosque tem Raúl Albiol à disposição, mas deve optar pela improvisação de Busquets, como no confronto de sexta. O treinador, também, não sabe se irá contar com Sergio Ramos, com desconfortos musculares. Embora o andaluz esteja apto pelo departamento médico, Del Bosque afirmou que só irá se decidir em última hora, pois não pretende forçar seu uso. No ataque, após a ótima atuação com direito a hat-trick ante a Bielorrúsia, Pedro larga na frente de Villa e Jesus Navas para iniciar o jogo. A defesa de Laurent Blanc atua bem adiantada, e a dupla formada por Rami e Sakho é muito lenta. Koscielny, do Arsenal, parecia ser uma alternativa interessante para minimizar a questão, mas Blanc prefere os zagueiros de Valencia e PSG pelo fato do gunner não viver boa fase. A capacidade de Pedro de se infiltrar nas defesas adversária  pode ser a chave da vitória espanhola. Xavi, que irá atuar no setor onde mais gosta, provavelmente irá abusar das bolas lançadas às costas de Debuchy.

Do meio para frente, em compensação, a França é ótima. Ainda que M’Vila seja desfalque, Matuidi  pode substituí-lo em alto nível. A tendência é o meio-campo francês sentir-se mais "à vontade" em relação ao confronto de junho pelo fato do meio-campo espanhol estar desfalcado de seu principal marcador, Busquets. Com Xabi Alonso, que não é marcador nato, jogando de primeiro volante e organizando o time à frente da defesa, a Fúria fica mais "exposta". O contra-ataque francês exigirá concentração da defesa Roja. Ribéry, à esquerda, deve centralizar para criar jogadas, trocando posição com Benzema, que, assim como contra o Japão, irá jogar no auxílio ao centroavante Giroud. Menéz, à direita, irá dar trabalho extra ao ofensivo Alba, que terá que fazer uma marcação semelhante a que fez em Di María, no superclássico - onde se saiu bem, diga-se de passagem.

A França perdeu para o Japão num lance de azar na última sexta-feira. Os Bleus controlaram a partida, tiveram quase 60% da posse de bola, mas sofreram um contra-ataque fatal que resultou no gol de Kagawa. Amanhã, a equipe de Blanc irá trabalhar como os nipônicos. Vicente Del Bosque sabe disso. A seleção espanhola tem armas mais do que suficientes para levar os três pontos, mas a França, como bem disse Iniesta, promete dificultar e muito a vida dos atuais campeões mundiais e europeus.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Superjogo

 No último jogo, Cristiano Ronaldo decidiu e tirou onda... (getty images)

Não poderia haver confronto melhor para "abrir" a temporada de elite espanhola. Tradicionalmente, a disputa da Supercopa é o pontapé inicial para a Liga Espanhola, porém a LFP decidiu inverter os valores e começou a temporada com a primeira rodada da Liga BBVA. O que mais importa, no entanto, é que amanhã, às 17h30, horário de Brasília, o Camp Nou recebe o jogo de ida entre Barcelona e Real Madrid. Pela segunda vez consecutiva, os maiores clubes do futebol espanhol se enfrentam na decisão do torneio. No ano passado, o Barcelona, maior vencedor da competição, teve um Messi mágico e levantou a taça.

Nos bastidores, polêmicas. Expulsos no confronto de 2011, Marcelo, Mesut Özil e David Villa poderão atuar normalmente amanhã. O novo comitê de arbitragem espanhol considerou que a multa paga pelo trio em setembro passado "compensa" a lógica suspensão que eles deveriam cumprir. Na coletiva pré-jogo, José Mourinho e Tito Vilanova se alfinetaram de leve. O português considerou que "não quebrou nenhuma hegemonia ao conquistar a Liga Espanhola porque não há hegemonia alguma quando um time não consegue vencer a Champions League, torneio mais difícil de clubes, duas vezes consecutivas". Irônico, o catalão rebateu: "verdade, não há hegemonia quando você vence 14 de 19 campeonatos".

Com Alex Song, novo contratado junto ao Arsenal, à disposição, o Barcelona parece mais preparado para os duelos. Ao contrário da temporada passada, os blaugranas fizeram uma pré-temporada mais estável que a dos merengues e contam com os retornos de David Villa e Ibrahim Afellay como opções. O Guaje voltou em alto estilo, marcando contra a Real Sociedad, mas é difícil pensar na sua escalação como titular. Com base nos amistosos e na estreia na Liga, existe a tendência de que Pedro comece os 45 minutos iniciais. A dúvida de Tito é o último homem de ataque. Ele ainda não se rendeu à ideia de jogar com Fàbregas mais adiantado - nem Iniesta, por exemplo, que só deve aparecer nesta posição em caso de urgência - e, com o retorno de Alexis Sánchez, pode iniciar com o chileno. Arriscar Tello, titular na derrota de abril, é improvável.

Mourinho esconde, mas sabe o quão importante é começar a temporada desbancando o rival novamente. Ele afirmou que prefere "perder a Supercopa, mas ganhar a Liga BBVA ao final da temporada". Blefe? A depender dessa declaração, o gajo mostra que não se importa em fazer experiências e priorizar a preparação para a temporada de fato. Assim, não é improvável a presença da trinca de volantes no meio-campo e o retorno do 4-3-3. Mourinho havia dado mostras de que abdicara dessa tática mais conservadora desde que jogara bem contra o Barcelona no 4-2-3-1. Em janeiro, no confronto da Copa do Rei, o Real Madrid dominou os azulgrenás no Camp Nou e saíram de campo satisfeitos com o empate por 2x2, apesar da eliminação na competição. O resultado foi a vitória no mesmo estádio três meses depois, no jogo que decretou o título espanhol.

A aplicação tática de jogadores como Özil, Di María, Xabi Alonso, Khedira e até Cristiano Ronaldo é essencial para a fluência da tática sem que haja covardias. É claro que há um recuo natural das linhas para se proteger do poderio barcelonista, mas já é bem diferente da proposta utilizada, por exemplo, no confronto de ida da semifinal da Champions League, em 2010/2011. Os merengues são programados para se protegerem com solidez encurtarem o máximo possível os espaços do Barcelona, evitarem a presença de Messi no setor onde ele mais gosta de atuar e saírem com perfeição no contra-ataque. O simbólico gol de Cristiano Ronaldo no último jogo evidencia isso. Foi uma bola roubada no campo de defesa, lançada para Özil e definida pelo português. Tudo como o script manda. O problema será a defesa, que não terá Pepe, lesionado, e sim o inconstante e nada confiável Raúl Albiol.

... mas Messi e o Barcelona pretendem dar a volta por cima. Quem largará na frente? (zimbio)

Apesar de ser cedo para chegar a alguma conclusão, o Barcelona ilusiona. Com um elenco bem mais homogêneo em relação ao de 2011/2012, o triunfo contra a Real Sociedad mostrou uma faceta que há tempos não se via no jogo azulgrená: a utilização em demasia dos ponteiros. As chamadas infiltrações que tanto aterrorizou os adversários durante três temporadas e meia da era Guardiola raramente foi vista no segundo semestre da campanha passada. A escolha de jogar no 3-4-3 por parte de Pep foi o principal responsável pela perda de uma das principais jogadas. Com quatro meio-campistas, o jogo tendia a se concentrar mais pelo centro, o que explica um pouco os mais de 70 gols de Messi.

Na defesa, Puyol oferece segurança a quaisquer parceiros. Em forma fisicamente, o capitão iniciou muito bem a temporada e deve ser acompanhado de Mascherano ou Piqué, o que só será definido em última hora. Alba, na esquerda, não é um marcador nato e precisa balancear as investidas ao ataque com a defesa. Se, com Daniel Alves, o lado direito fica mais vulnerável, com o Alba o setor esquerdo também ficará bastante exposto, o que pode ser um perigo para Vilanova: é exatamente os ponteiros merengues (Cristiano Ronaldo e Di María) que fazem a diferença nesse tipo de jogo. Busquets, que costuma fazer a cobertura do lado direito para deixar o baiano livre para subir, terá que se redobrar nos dois flancos.

No confronto das principais estrelas, o momento é inverso. Cristiano Ronaldo, sempre cobrado por atuações positivas no superclássico, vem de três jogos consecutivos marcando gols contra o Barcelona, enquanto Lionel Messi já não marca há quatro partidas contra o Real Madrid. A média do argentino, que era praticamente de um gol por partida, diminuiu. Até por sinalizar menos alterações em relação à temporada passada e mostrar um estado físico melhor nesta abertura da temporada, o Barcelona parece ter certa vantagem para amanhã, mas nada que transforme uma eventual vitória do Madrid em surpresa. Os blancos sabem o caminho para a vitória.

Málaga
Os blanquiazules fizeram a lição de casa e venceram o Panathinaikos por 2x0 no jogo de ida da última fase classificatória da Uefa Champions League. Atuando com sobresaliência, os boquerones não deram espaços para o time grego e mereceram sair com a vitória. Marcaram sob pressão desde o campo de ataque, tiveram o controle da posse de bola e levaram muito perigo nos ataques. A movimentação do trio de meio-campistas foi o segredo da vitória. Isco, Eliseu e Joaquín - até ele, veja bem - se revezaram bastante e levaram a zaga rival à loucura. A vantagem é considerável, mas Manuel Pellegrini precisa abrir o olho, pois o Panathinaikos costuma atuar muito bem em Athenas. Assim, os andaluzes estão a 90 minutos de alcançarem a fase de grupos da principal competição de clubes do mundo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Os pecados da Espanha nas Olimpíadas

 É, Mata, difícil de entender a eliminação da Espanha na fase de grupos das Olimpíadas (Zimbio)

Espanha 0x1 Japão. Espanha 0x1 Honduras. Espanha 0x0 Marrocos. Em três jogos, nenhuma vitória e nenhum gol marcado. A Espanha que deixa Londres sai pelas portas do fundos. Favorita ao ouro, a equipe em momento algum brilhou, mostrou uma faceta negativa e um futebol diametralmente opostou àquele que deveria ser exercido e que já é costume na seleções de base espanhola. A geração, formada por jogadores como Jordi Alba, Javi Martínez e Juan Mata, campeões europeu com a principal há cerca de um mês, não pode ser totalmente crucificada, mas a falha é inadmissível. O blog tenta traçar alguns motivos da vergonhosa queda precoce da Fúria.

O melhor de Ander Herrera. Em maio, discutimos a forma física de Ander Herrera. Essencial para o Athletic Bilbao, o jovem foi bastante desgastado numa temporada em que a equipe disputou três torneios até o limite. O basco viveu um dilema e teve a opção de operar no final da temporada e perder os Jogos Olímpicos. Preferiu esperar e chegou em Londres totalmente abalado fisicamente. O resultado foi a presença no banco de reservas nos dois primeiros jogos, que culminaram na eliminação da Roja. Koke, seu substituto, assim como toda a Espanha, não brilhou e em momento algum foi o armador de jogadas que se esperava.

Thiago Alcântara. Cortado dos Jogos Olímpicos devido a uma lesão nas costas sofrida no final da temporada passada, o hispano-brasileiro foi a ausência mais sentida. Principal jogador na conquista do Europeu Sub-21 em 2011, o culé não viu em Isco, Rodrigo e Tello substitutos à altura. O senso de liderança do meia, seus dribles e, principalmente, seus passes fizeram a falta na hora da decisão. Faltou o dinamismo que Thiago dava ao meio-campo e suas mágicas jogadas tiradas da cartola.

"Ausências" dos melhores Mata e Adrián. Centralizado para criar jogadas devido a ausência de Thiago, Mata ficou sobrecarregado e naufragou junto à equipe, quando deveria puxar a responsabilidade. Faltou mais vontade do camisa 10, que, mesmo marcando na final da Eurocopa, convive com uma má fase vista desde a reta final da temporada passada com o Chelsea. Indiretamente ao mau torneio do jogador blue, Adrián nada fez. Dependente das enfiadas de bola dos meio-campistas, o colchonero tentou muitas vezes sair da área para construir as jogadas, mas em vão. Acostumado a jogador aberto à direita no Atlético de Madrid, não rendeu dessa vez de falso nove.

Má forma dos titulares. Mesmo se avançasse de fase demonstrando esse futebol, a Espanha dificilmente conquistaria o ouro. À exceção de Jordi Alba, Javi Martínez e David De Gea, que evitou um desastre maior na estreia contra o Japão, todo o resto do grupo mostrou-se abaixo da média. As participações fracas de Botía, Iñigo Martínez, Montoya, Muniain, Tello, Rodrigo, Oriol Romeu e dos já comentados Mata e Adrián fazem a gente recordar da Eurocopa de 2004, quando a Espanha também caiu na fase de grupos: peças-chaves apáticas e alegadamente cansadas. Houve várias decepções, que resultaram nessa queda tão cedo.

O oba-oba pré-Jogos. O clima de "já ganhei" afetou o vestiário. Ainda que Luis Milla ratificasse a cada coletiva que o grupo não estava com a cabeça na medalha de ouro, os jogadores fizeram questão de evidenciar isso nas diversas coletivas pré-Olimpíadas. De Gea, Mata, Azpilicueta e Adrián discursavam como se a Espanha já tivesse conquistado a medalha. O amistoso de preparação feito contra Senegal (perdido por 3x0) mostrou que o buraco seria mais embaixo e no final pode ser interpretado como uma tragédia anunciada. Acabou que a falta de humildade pesou. A bola puniu.

Apatia nas conclusões. O defeito que mais chatou a atenção. Contra a Honduras, um show de horror. Só Mata desperdiçou três claras chances na primeira etapa. Se a seleção principal é criticada justamente por não chutar a gol, ao menos a Sub-21 usa e abusa das finalizações. No entanto, mostrou ao longo do torneio muitas falhas na hora das conclusões. As múltipas chances jogadas para fora fizeram falta. Contra o Marrocos, a falta de contudência para derrotar a seleção mais fraca do grupo resumiu bem a vergonhosa campanha olímpica da Espanha em Londres, que deve ser apagada da recente história vencedora do futebol do país.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Decepcionante

Luis Milla iniciou com uma escalação mais tímida do que a habitual e começa a ser criticado pela imprensa espanhola (getty images)

A estreia da Espanha nos Jogos Olimpícos foi a mais decepcionante possível. A derrota para o Japão por 1x0 foi um duro golpe no psicológico de uma seleção que era taxada por muitas como favorita. Se o povo já temia o Brasil antes mesmo da abertura dos jogos, agora isso ganha mais força: o provável é que, se a Fúria avance, encare a seleção brasileira nas quartas-de-finais. Luis Milla, treinador da seleção, já tem um grupo em mente. A seleção sub-23 da Roja é base da equipe vencedora da Eurocopa Sub-21 há um ano e treina junto há praticamente três anos. Porém, para a partida contra o Japão, foi montada às pressas e evidenciou o peso dos desfalques, como Thiago Alcântara, Iker Muniain, Botía e Ander Herrera, que começou no banco. A esperança é que, com o retorno de três dos quatro nomes acima - o único, de fato, fora do torneio é o hispano-brasileiro -, a Espanha convença ante o Marrocos, em jogo que virou a primeira final para essa seleção.

É preciso entender que a formação espanhola foi ocasional. Luis Milla, que começa a ter seu nome criticado pela opinião pública, porém, contribuiu para o baile japonês, que poderia ter ganhado de mais de três gols. A defesa, exposta, sentiu a falta de Víctor Ruíz, um de seus pilares na competição europeia. O corte do catalão até agora não foi bem explicado. O meio-campo, que pouco criou, não teve em Isco e Rodrigo substitutos à altura de Muniain e Thiago Alcântara. Isso sobrecarregou Mata, que teve uma atuação abaixo da média. Pelo posicionamento de Isco e Rodrigo e o fato de Mata ter começado, durante boa parte dos ataques, a construção das jogadas atrás da linha de meio-campo, a Espanha pareceu ter atuado no 4-3-3.

Nesse módulo tático, Mata deveria desempenhar um papel semelhante ao de Iniesta no Barcelona, mas teve que ser Xavi: Koke, o encarregado de armar as jogadas para a seleção, foi outro que passou batido e não aproveitou a ausência de Ander Herrera para ganhar pontos com o treinador espanhol. O meio-campo teve bom controle de bola, mas foi muito pressionado pelos nipônicos, que fizeram uma marcação implacável nos 90 minutos do jogo. Além disso, com a bola, a seleção mostrou uma faceta negativa, sem objetividade nenhuma. O maior exemplo é o fato de Adrián não ter dado um chute a gol. A expulsão infantil de Iñigo Martínez, a maior revelação da Liga BBVA passada, só serviu para deixar o meio-campo ausente de um ladrão natural, porque Javi Martínez teve que ser recuado. Na hora do desespero, Milla deixou em campo apenas jogadores de centro do campo, retirando os ponteiros - tirou Rodrigo e Isco e colocou Ander e Oriol Romeu.

Mas o fator mais preocupante do jogo foi a defesa. Exposta e, sobretudo, lenta, foi o ponto de festa do Japão, que impôs muita velocidade pelo centro e ocasionou um surto na retaguarda espanhola. Álvaro Domínguez, Iñigo Martínez, Montoya e Jordi Alba não se entenderam e bateram cabeça. Talvez, apenas o novo barcelonista mostrou do que é capaz, mas foi bastante prejudicado pela partida abaixo da média dos companheiros. Botía não é muito melhor que Iñigo, mas já estava acostumado com Domínguez. Quem teve que segurar a barra pela fragilidade defensiva foi De Gea, que salvou a Roja de uma goleada histórica nessa estreia.

O resultado foi ruim, mas não é um desastre total. Honduras e Marrocos empataram no outro jogo do grupo e oferecem à Espanha a maior forma possível de se recuperar. Acontece que dificilmente esse selecionado japonês, que mostrou-se bastante contundente apesar dos deveras erros na hora da conclusão, irá tropeçar, o que coloca a Espanha no caminho do Brasil na segunda fase, sem dúvidas a seleção mais temida pelos espanhóis. Se quiser ganhar o ouro ainda, a seleção espanhola deve ser mais agressiva, nos mesmos moldes da equipe de um ano atrás. É claro que a sagacidade de Thiago Alcântara, que mandava e desmandava no meio-campo, faz falta, mas é precisa achar outros meios. Isco precisa atuar melhor do que foi hoje, porque tem futebol para isso. O retorno de Muniain e Ander Herrera deve dar mais liberdade a Mata, que não deveria se preocupar muito com a marcação como aconteceu hoje. Para pensar em medalha, a Espanha será obrigada a criar soluções.

domingo, 8 de julho de 2012

Missão Londres

 Campeã Europeu Sub-21 em 2011, a Espanha Olímpica vem aí para tentar sua segunda medalha de ouro (getty images)

Passada a Eurocopa, o futebol espanhol se prepara para mais uma competição importante: os Jogos Olímpicos 2012. Dessa vez, contudo, quem irá representar a Espanha são os garotos da equipe sub-21, campeã do europeu da categoria no ano passado. Na última quinta-feira, o técnico Luis Milla deu a conhecer os nomes que irão a Londres tentar a conquista da medalha de ouro pela segunda vez. Na única e primeira vez, em 1992, em Barcelona, o grupo liderado por Guardiola, Luis Enrique, Ferrer e Cañizares passou por Colômbia, Gana, Itália e, na final, Polônia para conquistar a inédita medalha. A última aparição da Roja em Olimpíadas havia sido em 2000, na Austrália, quando a geração de Puyol, Xavi, Tamudo, Luque, Marchena e Albelda foi prata para Camarões de Samuel Eto'o.

Ao contrário do que muitos pensam, a medalha de ouro olímpica está sendo tratada como prioridade. Quando assinou contrato com a RFEF, em 2009, Milla começou a construir todo seu trabalho em função das Olimpíadas. Uma base que vem sendo trabalhada há três anos para chegar em forma em Londres.  Chama a atenção o fato de não haver nenhum jogador acima de 24 anos no elenco. O mais velho? Mata, justamente com 24 anos. Muitos se perguntam sobre por que nomes como Xavi, Iniesta e Villa não foram chamados para ser os jogadores acima de 23 anos. A resposta é simples: para Milla, seu trabalho não deve ser misturado com o de Vicente Del Bosque. Ele possui seu grupo e Del Bosque, o dele. Por isso as convocações de Mata, Adrián e Javi Martínez como os nomes acima de 23 anos. Os três trabalham com Milla desde 2009 e, logicamente, estiveram na conquista da Eurocopa Sub-21 em 2011.

A influência do Barcelona no momento espanhol é inegável. Todos os já tão debatidos valores barcelonistas foram devidamente absorvidos pela seleção principal, incluindo um dos principais deles: a preparação cuidadosa e atenta daqueles que estarão no time A em alguns anos. A Fúria Olímpica não é diferente. Joga com a bola nos pés, tratando-a com paciência e fazendo um jogo psicológico com o adversário.  Aprimorar essa fidelidade ao modus operanti que se estabilizou na Fúria adulta foi um dos marcos do trabalho de Milla. Um grupo bastante coeso e disciplinado tecnicamente. O Brasil, por exemplo, é o maior favorito por ter em Neymar, um dos principais jogadores do mundo, seu principal destaque individual, enquanto a Roja se dá ao luxo de manter uma equipe muito forte coletivamente. Incisiva, utiliza a exaustão seus jogadores ofensivos do lado do campo. Jogando num 4-2-3-1 que varia para um 4-3-3 em determinadas jogadas, Mata e Muniain se juntam a Adrián no ataque para ludibriar os adversários.

A Espanha, entretanto, terá um desfalque de peso. Principal jogador da equipe no Europeu, Thiago Alcântara não estará presente em Londres. Uma lesão nas costas na reta final da temporada passada o deixará de fora dos gramados por mais um mês. É inegável que a ausência de seu principal cérebro fará falta, mas a temporada de Isco, seu provável substituto, poderá não deixar cair a qualidade do meio-campo. Se confirmar mesmo a entrada do jogador do Málaga, Mata deverá ser centralizado para articular as jogadas junto de Ander Herrera. Apesar de jogar mais pelos flancos do campo, o jogador do Chelsea tem talento o suficiente para armar as jogadas no centro do meio-campo. Vale lembrar que ele foi, com 13 assistências, o segundo maior assistente da Premier League passada, perdendo somente para seu compatriota David Silva.

O setor esquerdo do campo será o principal trunfo de ataque. Com Jordi Alba, que foi liberado pelo Barcelona a disputar a competição, e Muniain colocando velocidade, é dali que sairão as principais chances de gols. Se, na Euro, o lateral foi a principal revelação, a lógica é que, com um grupo onde ele joga junto há mais tempo, as Olimpíadas seja seu playground. De acordo com o Diário Sport, Tito Vilanova não teria ficado muito satisfeito com o fato de Alba perder a maior parte da pré-temporada, mas foi convecido a aceitar isso. Em 2008, Messi viveu situação semelhante. Porém, Joan Laporta, à época presidente, declarou que é o sonho de qualquer atleta ganhar uma medalha olímpica.

Além de Alba, a defesa é bastante segura e passa por poucos apuros. No gol, De Gea foi sempre seguro. Não à toa, a maturidade apresentada na Euro Sub-21 atestou as virtudes para que o Manchester United acertasse os últimos trâmites de seu contrato. À sua frente, no miolo de zaga, a dupla formada por Domínguez e Botía é discreta mas sóbria. Na lateral direita, Montoya sobe tanto quanto Alba, mas é possível que se contenha mais um pouco e fique mais na cobertura. Independente das escolhas, existe uma única certeza: com ou sem força máxima, a Fúria é candidatíssima ao título olímpico. 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Assustador

 O dono da bola: Iniesta trouxe o protagonismo para si, foi eleito o melhor jogador da Eurocopa e dá a volta por cima após uma turbulenta temporada (getty images)

Pode parecer exagero, mas o título que encabeça esse texto tem tudo a ver com o futebol da Espanha. Bastante criticado durante toda a Eurocopa, taxado de pragmático, chato e sonolento até mesmo pela imprensa espanhola, a Fúria deixava no ar uma interrogação: seria capaz de vencer e convencer? Pois bem, o tri-campeonato europeu, o segundo consecutivo (algo inédito na história da competição), serviu para jogar todas as argumentações anti-Espanha por ladeira abaixo. A Roja venceu, convenceu e foi campeã. Em sua melhor exibição em terras ucranianas, a equipe treinada por Vicente Del Bosque deu um enorme passo rumo à galeria dos maiores do esporte. Os 4x0 ante a Itália, tetra-campeã mundial, representa muito bem o poderio absurdo desse grupo.

Em campo, Del Bosque repetiu a mesma escalação que usou contra a mesma Itália na estreia na Eurocopa. Um onze inicial que, semanas atrás, criou dúvidas quanto ao estilo de jogo espanhol e gerou críticas ao treinador. Porém, o campeão mundial e agora europeu deu andamento ao que faltava: a ousadia. Se é para comparar, como a imprensa espanhola tanto gosta de fazer, a Espanha da final lembrou aquela avassaladora que conquistou a Eurocopa em Viena há quatro anos. Foi incisiva, utilizou bastante seus pontas, com destaque para a grande partida de David Silva, viu em Fàbregas um falso nove de excelente nível e, sobretudo, teve em Xavi seu principal articulador. 

O dono da camisa oito foi outro nome que decepcionava na competição. Como o blog já previa, o fato de Del Bosque adiantá-lo para um setor do meio-campo onde não estava acostumado a jogar foi um dos principais fatores para seu mau futebol no torneio. Além disso, o cansaço de uma temporada para lá de cansativa com o Barcelona e o surgimento de novos problemas físicos valeram para Xavi não mostrar nem 80% de seu futebol. Ele mesmo admitiu antes da bola rolar que se sentia um pouco decepcionado com suas exibições. "Gostaria de poder ajudar mais", disse. Na coletiva pré-jogo, porém, os múltiplos elogios de Del Bosque, que mostrou confiança no cérebro da equipe, valeram para seu futebol aparecer. Xavi tomou conta do meio-campo, assistiu Alba e Fernando Torres, cadenciou o jogo e, além disso, tomou conta de Pirlo durante os 90 minutos.

Os grandes trunfos da Roja para parar a Azzurra foram congestionar o meio-campo para evitar a superioridade numérica do losango italiano, alternar Xavi e Fàbregas no cerco a Pirlo e combinar retenção de bola e verticalidade, arriscando mais o passe longo e as ultrapassagens, utilizando bastante das infiltrações, algo que tanto faltava nessa equipe. Tanto que não houve o habitual controle da posse de bola (apenas 53% na primeira etapa e 57% no total), com mais erros de passe e equilíbrio nas conclusões enquanto houve disputa. Os acertos compensaram. A objetividade ficou em primeiro plano. Como bem disse André Rocha, a fantástica atuação não isenta e até enfatiza as críticas ao futebol apresentado nas fases anteriores. Uma verdade. De acordo com Cesare Prandelli, treinador da Itália, a Azurra sentiu problemas físicos, por falta de descanso - vide Chiellini, que chegou lesionado à Euro e se machucou outras duas vezes durante o torneio.

Um título que acrescenta ao currículo respeitável de Vicente Del Bosque a única competição que lhe faltava. Como treinador, o madrilenho pode ser orgulhar de ter conquistado Champions League, Copa do Mundo e Eurocopa, uma trinca desejável por qualquer técnico do planeta. Além disso, pelo Real Madrid, Del Bosque conquistou duas Ligas Espanholas e um Mundial de Clubes. Um título que mostra, de vez, ao mundo o talento de Jordi Alba. O melhor lateral esquerdo da competição abusou do bom futebol e mostrou-se sócio perfeito de Iniesta no setor esquerdo. A dupla, agora, irá se encontrar mais vezes em campo, visto que Alba retornou ao Barcelona. Mais um motivo para temer o time azulgrená e tentar achar mais motivos para pará-lo.

Mas quem merece um parágrafo à parte nessa conquista é justamente Iniesta. Após passar por uma temporada irregular onde as lesões novamente voltaram a atazaná-lo, o meio-campista brilhou. Eleito pela Uefa o MVP da Eurocopa - com justiça, diga-se de passagem -, Iniesta foi o ponto de equilíbrio da Fúria e voltou a ratificar sua importância para a seleção. "O homem mais querido por toda a Espanha"se destacou em todas as partidas da Roja no torneio, sem exceção. É um merecido prêmio a um jogador extremamente profissional, avesso às câmeras, humilde, que só pensa no trabalho. "Não jogo para ganhar Bola de Ouro, e sim para ganhar títulos com meu país e meu clube", afirmou na zona mista. Mas você merece, Don Andrés Iniesta.

domingo, 24 de junho de 2012

Propaganda enganosa

 Com atuações positivas nesta Euro, Xabi Alonso tem saído da sombra de Xavi e é um dos destaques da competição (Marca)

Por Ubiratan Leal

Ver o jogo por cima, sem muitas considerações e reflexões, permite equívocos. É como avaliar o Espanha 2x0 França pelo placar, e pela superioridade espanhola durante a partida. A Fúria praticou seu futebol de toque de bola, não foi ameaçada pelos franceses e não teve dúvidas de que conseguiria se classificar. Boa atuação, então? Não é bem assim. A facilidade da vitória não significa que o desempenho tenha sido bom ou convincente. Foi seguro. E parte da segurança se deveu à passividade da França diante do placar negativo, diante do predomínio do sistema de jogo espanhol sobre o seu. Mas, quando precisou ser mais aguda e incisiva com esse seu futebol, a Espanha sofreu.

A troca incessante de passes neutralizou o meio-campo francês, mas a equipe de Vicente Del Bosque deu razão para quem fala em “futebol improdutivo”. Durante quase todo o jogo, o meio-campo não encontrou o ataque. Os espaços não apareciam, e a movimentação ofensiva não era suficiente para criá-lo. A crônica da falta que David Villa faz a esse time continua válida. O duelo foi modorrento durante os 90 minutos. Só houve um momento em que a dinâmica foi quebrada: quando a Espanha conseguiu jogar pelos lados. No caso, foi o apoio de Jordi Alba pela esquerda. Um lateral que aparece pouco, e, quando o fez, pegou Reveillère desprevenido. O espanhol venceu na velocidade e chegou livre na linha de fundo. Teve temo de olhar para a área e perceber Xabi Alonso livre para receber o cruzamento e cabecear para o gol. Detalhe para o passe de Iniesta, melhor da Espanha e da Eurocopa, no lance oriundo da jogada, que quebrou a linha defensiva dos Bleus.

Detalhe que nenhum jogador do meio-campo e do ataque encontraram esses espaços. Foi um lateral e um volante que apareceram. Isso não tira o mérito da Espanha, já que mostra que o perigo pode vir de diferentes lados. No entanto, também mostra os problemas do meio para frente, o que já ficou evidente nas partidas contra Itália e Croácia. O segundo tempo praticamente não existiu. Foi um time segurando a bola para manter o placar contra outro que olhava jogar. Fàbregas teve uma boa jogada, quando foi lançado por Xavi e só não fez o segundo gol porque Lloris salvou. Fora isso, foi um jogo arrastado, em que a facilidade dos espanhóis de impor seu jogo não significa que tenha pressionado o adversário e feito o que bem entendesse em campo.

Ah, e teve o segundo gol... Mas, convenhamos, só o árbitro viu aquele pênalti em Pedro. De qualquer modo, ele não mudou o andar da partida (o jogo estava nos minutos finais) e só ajudou a construir um marcador que dá uma sensação enganosa de vitória convincente. A Espanha tem mais bola do que jogou contra a França, e não pode se contentar pelo fato de o placar ter ficado em 2 a 0.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Evolução

Fase do Valencia não é a melhor da temporada, mas empate conquistado em pleno Santiago Bernabéu ante o líder do campeonato Real Madrid evidencia que chés ainda são a terceira força do futebol espanhol (getty images)

Que o Valencia tem uma dificuldade crônica para se defender, todo mundo sabe. Víctor Ruíz não inspira confiança há tempos, o futebol de Rami caiu substancialmente e Jordi Alba, apesar de bom lateral, é uma espécie de Marcelo espanhol: ninguém duvida de sua capacidade quanto às jogadas ofensivas, a desconfiança vem na marcação. Mas, no confronto de contra o Real Madrid, a ineficiência do ataque merengue não foi exatamente o principal culpado pelo empate por 0x0 no Bernabéu. A passividade e tranquilidade dos chés chamaram mais atenção. Com Topal no lugar de Jonas para ganhar mais força na marcação no meio-campo e Guaita muito inspirado na defesa, Unai Emery, bastante contestado em Paterna, mandou uma mensagem às outras equipes com potencial: é preciso inteligência e, acima de qualquer coisa, obediência tática para sair do Bernabéu com 1 ponto pelo menos.

Antes do Valencia, 15 times haviam visitado o Bernabéu na liga. Só dois haviam conseguido tirar pontos: o Barcelona, que venceu, e o Málaga, que empatou. Onze deles levaram pelo menos quatro gols. O Valencia, por sua vez, tinha somado apenas um ponto nas últimas três rodadas, jogando fora a boa vantagem que havia construído na terceira colocação e até correndo riscos de cair para o quarto lugar: basta um empate do Málaga contra o Racing Santander em jogo que se inicia daqui a pouco para os chés perderem uma posição na tabela. No empate por 1 a 1 com o Levante, uma semana atrás, os torcedores protestaram contra o técnico Unai Emery e pediram sua demissão. A goleada sobre o AZ, pela Liga Europa, devolveu um pouco da confiança.

O Valencia se reconciliou com a torcida após uma partida séria e contundente ante os holandeses que garantiu o passaporte às semifinais da Liga Europa. Recuperou sua verdadeira imagem, pressionou os 90 minutos o adversário e chegou a quatro gols, jogando para longe a faceta das partidas anteriores. No Bernabéu, Emery optou por não forçar Soldado, com problemas físicos, e utilizou Aduriz na referência de seu 4-3-2-1. O Valencia, é bom lembrar, não só se defendeu durante os 90 minutos. Teve oportunidades de marcar e, em contra-ataques, levou perigo ao gol de Casillas, sobretudo nos 15 minutos finais, quando Mourinho lançou mão de qualquer tática para ir para cima e buscar os três pontos, deixando os merengues à mercê do contra-ataque.

Mas a satisfação dos blanquinegros com o empate podia ser captada em outros aspectos, bem além de uma escalação mais conservadora que a habitual. As linhas retraídas no início do jogo para segurar o ímpeto madridista, a quase completa dependência de Feghouli e Alba para agredir o adversário na ausência de seu principal centroavante e a demora nas reposições de bola foram indícios de que o 49º ponto na Liga BBVA valia muito mais do que o risco de perdê-lo e permitir o avanço de Levante e Málaga na tabela. Ainda que saíra de campo sabendo que o Málaga tem 85% de chances de ultrapassá-lo na tabela, o aspecto psicológico da equipe, sob riscos pelos tropeços das rodadas anteriores, é um trunfo na briga pela vaga direta na Champions (ou, como estão dizendo, pelo título da Liga dos Humanos). O Valencia deixou claro: mesmo passando por uma fase delicada, continua sendo a terceira força do futebol espanhol.

Você pode questionar os métodos e a ambição no Santiago Bernabéu, mas é difícil negar a evolução em relação as temporadas passadas. Mesmo sem nenhum destaque do peso de David Villa, David Silva ou Juan Mata, o time, programado para correr e atacar, com um futebol sempre ofensivo, mostrou ter coragem para se defender e permite a Unai Emery contrariar o DNA ofensivo quando ele achar necessário. A boa partida de Víctor Ruíz pode representar a volta da boa fase vista antes da fatídica partida no Stamford Bridge, em dezembro passado, que marcou a eliminação do Valencia na fase de grupos da LC. Dificilmente o treinador permanecerá para a próxima temporada, mas a reta final de 2011/2012 pode definir uma saída pelas portas da frente do Mestalla. E está mais do que claro: os chés são favoritos para o título da Liga Europa.

Em seu blog no site da ESPN, o jornalista Leonardo Bertozzi falou mais sobre Real Madrid x Valencia. A crônica de um 0 x 0 eletrizante. Clique
aqui para ler

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Passaporte para a Euro

Os 3 gols de Soldado carimbam seu passaporte à Eurocopa (getty images)

Foi bem simples. Estreando roupa nova, a Espanha goleou uma frágil Venezuela por 5x0, com gols de Silva, Iniesta e Soldado (3). Envolvido pela posse de bola e pelas contundentes jogadas ofensivas espanholas, a vinotinto pouco lembrou aquela seleção promissora que, há pouco menos de quatro meses, derrotou a Argentina de Messi e é uma das favoritas a copar uma vaga na próxima Copa do Mundo. Relembramos: em junho passado, a mesma Venezuela foi derrotada pela Espanha por 3 x 0, em jogo disputado em Nova York. Com a manita, a Fúria de Del Bosque torna-se a mais goleadora da história. Os 131 gols em 52 partidas ultrapassam os 126 tentos em 62 partidas da Espanha de Javier Clemente, atual técnico do Sporting Gijón que treinou a seleção entre 1992 e 1998. Outro feito, talvez até mais destacável, envolve o capitão. Casillas chegou a 72 partidas sem sofrer gols, igualando o feito do holandês Van Der Sar. A excelente atuação roja em Málaga deixa cinco certezas.

1) Sem Villa, vai predominar o 4-2-3-1. A escalação inicial que contou com Busquets protegendo a defesa e Xabi Alonso ajudando na criação numa linha atrás de Silva aberto à direita; Iniesta, à esquerda, e Fàbregas, centralizado, ratificou a ideia de que o 4-3-3 visto nas Eliminatórias só será utilizado no retorno de Villa. No momento é a ideal sem a presença do Guaje e contando com o retorno de Xavi. Mas Del Bosque terá problemas. Xavi e Iniesta são titulares absolutos, mas quem vai deixar o onze inicial: David Silva ou Fàbregas?

2) Iniesta merece um capítulo à parte. Já ficou comprovado que quanto atua aberto à esquerda mas na última linha ofensiva seu futebol é burocrático. No meio-campo, auxiliando o atacante, sempre dá espetáculo. Marcou um gol e ofereceu, mais uma vez, mostras de sua qualidade. Saiu de campo ovacionado por um povo que o tem como herói. É verdade que a temporada 2011/2012 de El Albino, muito por causa das lesões, tem sido abaixo da média, mas o bom futebol mostrado hoje pode elevar sua moral. Silva foi seu principal sócio.

3) Há três semanas, em uma entrevista ao site da Uefa, Fàbregas afirmou que sente um pouco a pressão de ser o sucessor de Xavi tanto no Barcelona quanto na Espanha. Cesc disse que não tem a "paciência" que o camisa oito blaugrana tem para armar uma equipe e aproveitou para deixar claro que "não sabe a hora" de tocar para o lado ou lançar para o atacante. Guardiola, de fato, não tem escalado muito Fàbregas na posição de Xavi, mesmo no momento de ausência, optando por Thiago Alcântara. Mas a sensação é de evolução. Quando escalado contra o Valencia, pela Copa do Rei, fez uma partida nota 5,5. Contra o Bayer Leverkusen, já foi melhor, dando até uma assistência preciosa para Alexis Sánchez marcar vinda do setor do campo onde Xavi mais gosta de atuar. Hoje, contudo, Fàbregas ditou o ritmo da partida. Ficou só na distribuição, à Xavi, onde todas as bolas passavam pelo seu pé. Resultado: duas assistências.

4) A lateral esquerda tem novo dono: Jordi Alba. Com a preferência de Capdevila de ir se "esconder" em Portugal, Del Bosque fechou as portas da seleção para o ex-Villarreal. Azpilicueta e até Arbeloa passaram pela lateral nos primeiros jogos, mas quem mais aproveitou-se do fato foi o jogador ché. Já havia sido elogiado pela imprensa após o jogo contra a Inglaterra, mas hoje confirmou que, salvo algum imprevisto, vai à competição europeia como dono da posição. Hoje, apareceu em, praticamente, todos os ataques pelo setor esquerdo.

5) O nome mais falado após o amistoso foi o de Roberto Soldado. Seu debut com Del Bosque não poderia ter sido melhor. O hat-trick representa não só o primeiro jogador da história da seleção espanhola a sair do banco de reservas e marcar três gols, mas sim que foi lhe dado o passaporte para a Eurocopa. Só não vai à Euro por lesão ou algum outro imprevisto. A depender do estado de Villa, pode chegar até como titular: se, por um lado, Llorente não aproveitou a chance que lhe foi dada, Soldado, além de marcar três gols, se movimentou com contundência, batalhou pela bola mesmo com a partida já ganha, tabelou com os meio-campistas. "Del Bosque pediu para que eu jogasse como no Valencia", revelou na zona mista. Seus companheiros estão felizes por ele. Enquanto isso, quem se lamenta é Fernando Torres. Já discutimos, mas é bom lembrar: há espaços para El Niño Torres na Eurocopa?