segunda-feira, 30 de abril de 2012

O sucessor

 Sombra de Guardiola, Tito Vilanova terá a difícil missão de substituir seu amigo no comando técnico do Barcelona (AP Photos)

É tempo de mudança de ciclo no Barcelona. Na última sexta-feira, Josep Guardiola se reuniu com Sandro Rosell e Andoni Zubizarreta para decidir que não irá mais permanecer no comando técnico da equipe a partir da próxima temporada. Com a saída de Guardiola, os azulgrenás serão treinados por Tito Vilanova, auxiliar técnico do atual treinador barcelonista e até hoje um ilustre desconhecido para quem não acompanha o futebol de base na Espanha. Uma mudança não tão drástica no comando da equipe, já que Tito é adorado pelo elenco, que concordou num ato unânime o nome do novo treinador, e conhece a filosofia de jogo e as formas de treinar de Guardiola.

Catalão de Bellcaire, aos 42 anos Vilanova assume o maior desafio de sua vida profissional. A história de Guardiola e seu auxiliar começou cedo. Os dois são amigos de infancia. Coincidiram em La Masía no final dos anos 1980; porém, Vilanova não teve a mesma sorte de Pep. Fora das canteras barcelonistas, jogou duas temporadas no Figueres, pequeno clube da Catalunha, e mais tarde no Celta Vigo. Sua aventura na Galícia fora rápida: não durou um mês e Vilanova se transferiu ao Badajoz. De poupa em poupa, o catalão seguiu seu caminho: Mallorca, Lleida, Elche e Gramenet foram os outros clubes por onde passou. Após não estacionar em um lugar, resolveu se aposentar, em 2002.

Nesse mesmo ano, voltou à sua casa. No retorno ao Barcelona, foi encarregado de treinar o Cadete B dos blaugranas. No time, nada mais nada menos que três nomes especiais: Lionel Messi, Cesc Fàbregas e Gerard Piqué. Tito é internamente famoso também por ter dado início àquele que ficou marcado na história como o maior time da base barcelonista em todos os tempos. A invencibilidade desse super time chegou a cinco temporadas. A geração 1987 venceu títulos em todas as categorias: Alevín A (Sub-12). Infantil A (Sub-13), Infantil B (Sub-14), Cadete B (Sub-15), Cadete A (Sub-16), Juvenil B (Sub-17), Juvenil A (Sub-18). 

Propondo um futebol ofensivo, utilizou o 3-4-3 que variava para o 4-3-3 na prodigiosa equipe. Títulos era rotina daquela geração moldada a partir de Tito Vilanova. A quarta estrela era Victor Vázquez, hoje a serviço do Brugge, da Bélgica. Tito Vilanova, o primeiro treinador de Messi no Barcelona ainda na pré-adolescência, permaneceu com os cadetes (sub-14 e sub-15) até 2003, quando foi demitido justamente por Sandro Rosell, então diretor. 

A chegada de Juan Laporta à presidencia do Barcelona gerou uma série de mudanças drásticas e reestruturação no futebol de base barcelonista. Dez anos depois, Vilanova terá aquele trio em mãos outra vez. Promovido pelo presidente Rosell. Seu segundo retorno ao clube aconteceu em julho de 2007. Quando a cúpula azulgrená apostou em Guardiola para treinar o Barcelona Atlétic, Pep convidou seu amigo de longa data para ser auxiliar. A parceria permaneceu intacta quando Pep assumiu o time A, em 2008. Ao longo do ciclo de Guardiola, Vilanova ganhou o apelido de "sombra" pela imprensa catalã, justamente porque, segundo palavras de Pep, seu trabalho não seria nada sem o auxiliar. Em 2009, nas quartas-de-finais da Champions League, Vilanova treinou o Barcelona em Munich no confronto contra o Bayern, pelo fato de Pep ter sido expulso no jogo da ida.

Vilanova também já era bem quisto pela direção azulgrená. Foi contratado por expressa vontade de Andoni Zubizarreta, diretor-geral do Barcelona, e vem sendo constantemente elogiado por Guardiola. Ontem, após a esmagadora goleada ante o Rayo Vallecano por 7x0, Pep ratificou sua confiança em Vilanova: " Este time é novo. Tito conhece bem os jogadores e eu estou confiante que o Barcelona vai continuar competitivo sob o comando dele. Estou muito grato por todo o louvor em volta da minha ida, mas eu não estou indo pra sempre. Eu continuarei por perto", disse.

Vilanova já começa a planejar seu primeiro trabalho. O primeiro ato é uma boa preparação na pré-temporada, principalmente com os jogadores europeus que disputarão a Eurocopa. Os amistosos, antes sempre na Ásia ou na América do Norte, serão feitos somente na Europa (Inglaterra e Escócia). O motivo é não desgastar muito o elenco no início da temporada. Quanto a parte técnica, o Diário Sport já especulou que o treinador quer um zagueiro (de preferência Thiago Silva), um lateral esquerdo e um centroavante de ofício (Llorente é o nome ideal). A primeira contratação da Era Vilanova deve ser anunciado daqui a algumas semanas. Trata-se de Jordi Alba, que vinha em namoro com os blaugranas.

36ª rodada: Sentenciado, parte 1

 O capitão Torrejón lamenta. Dessa vez não deu para o Racing Santander, rebaixado matematicamente a três rodadas para o fim da Liga Espanhola (getty images)

Real Sociedad 3x0 Racing Santander
A Liga BBVA conheceu seu primeiro rebaixado. O Racing Santander, que a cada temporada se salvava da degola nas últimas rodadas, não resistiu. Tímida ações no mercado, grande crise interna e manuntenção de uma base que já havia assustado outrora era a receita da tragédia anunciada. O Racing Santander, por ironia do destino, disputará a Liga Adelante justamente no ano de seu centenário O enterro dos cantabrianos aconteceu no Anoeta, diante de uma Real Sociedad que garantiu sua permanência na elite espanhola. A base, formada de jogadores novos e promissores, encarou uma temporada de sufoco, mas promete melhores resultados a partir de 2012/2013. A boa notícia foi o renascimento de Grirzmann, que, elevado à condição de coadjuvante pela bela temporada de Vela, andava apagado. 
  
Levante 3x1 Granada
Nada de Real Madrid, Barcelona, Málaga ou Athletic Bilbao. O time da temporada é o Levante. Com orçamento baixo, um onze inicial com média de idade de 29,1 e a essa altura do campeonato na quinta colocação, a três da tão sonhada e utópica vaga na Champions League, dá para acreditar? Em partidas notáveis de Valdo e Koné, o último ganhou destaque após a partida. Com o gol, chegou a 17 na temporada. A cláusula que o Sevilla propôs ao Levante após finalizar o negócio previa que, caso o marfinense fizesse 18 gols, voltaria automaticamente ao clube andaluz. Koné declarou publicamente que deseja ficar em Valencia e, para isso, os levantinos terão que desembolsar 11 milhões de euros, praticamente a mesma quantidade gastada somente para montar o elenco para esta temporada. O que a diretoria fará nesse caso? Uma vaga na Champions League daria um bom acréscimo no caixa do clube.

Villarreal 1x1 Osasuna
O Villarreal está ameaçado. A 4 da zona de rebaixamento, o Submarino Amarelo esteve a 18 minutos de salvar. O gol de Raúl García colocou pânico e tensão nos torcedores presentes no El Madrigal. Na próxima terça-feira, a equipe de Miguel Ángel Lotina tem um importante confronto direto a fazer: irá as Astúrias encarar o Sporting Gijón, em jogo de vida ou morte para as duas equipes. Por sua vez o Osasuna deu procedimento a fase irregular. A goleada sofrida perante o Real Madrid desanimou os rojillos e esfriou os ânimos dos jogadores, ilusionados pela disputa por uma vaga na Champions League. Agora, resta tentar uma vaga na Liga Europa.

Zaragoza 2x0 Athletic Bilbao
Crer é poder. Após passar o campeonato praticamente inteiro na última colocação, o Zaragoza engatou uma sequência positiva de resultados e ainda sonha com a permanência. A vitória que levou La Romareda à loucura mostra que os maños estão esperançosos. O estádio blanquillo será essencial: contra o Athletic, foi o primeiro de três jogos cruciais que o Zaragoza fará em seus domínios. Ainda que não dependa de si, somar seis pontos pode definir o futuro aragão na temporada. O Athletic Bilbao deu adeus de vez às chances de disputar LC, mas quem liga? Na final da Copa do Rei e da Liga Europa, os leones estão mais preocupados nos dois torneios.

Málaga 1x0 Valencia
No principal jogo da rodada, o Málaga deu um passo à frente na disputa por Champions League. No confronto direto contra o Valencia, jogou com inteligência e chegou aos mesmos 55 pontos dos chés. No entanto, ainda permanece na quarta colocação devido ao primeiro critério ser o confronto direto, onde o Valencia leva vantagem por ter vencido no primeiro turno por 2x0. Apesar das expectativas criadas, as duas equipes não fizeram um jogo animador. Enquanto Guaita salvava tudo no lado valenciano, Cazorla e Isco ratificaram novamente por que são os principais jogadores do Málaga na temporada.

Real Madrid 3x0 Sevilla
O Real Madrid teve seu primeiro match point para voltar a comemorar o título espanhol. A festa em Cibeles, no entanto, foi adiada devido a vitória do Barcelona contra o Rayo por 7x0. A oportunidade de comemorar o título fica para um campo especial: San Mamés. Se vencer o Athletic Bilbao na próxima quarta-feira o Real Madrid sagrará-se oficialmente campeão espanhol pela 33ª vez. Cristiano Ronaldo marcou e chegou a 43 na Liga. A batalha contra Messi pela artilharia mais do que histórica segue adiante.

Bétis 2x2 Atlético de Madrid
Quando Falcão García marcou o gol aos 49 minutos do segundo tempo, todo o Benito Villamarín desabou. O Bétis estava a um lance de confirmar a manuntenção na elite espanhola quando El Tigre chegou ao seu 30º gol na temporada. Entretanto, o veredito será formal daqui a algumas rodadas: basta 1 ponto em 12 disputados para confirmar de vez a permanência. Enquanto isso, o Atlético de Madrid ainda sonhava com uma vaga na Champions League. Koke, que abriu o placar, deixava os rojiblancos a cinco pontos do Málaga, mas quis Pozuelo e Pereira que os madrilenhos voltem a disputar a principal competição europeia talvez só em 2013/2014. Agora, resta a Simeone e cia se concentrarem na grande final da Liga Europa.

Espanyol 0x3 Sporting Gijón
Soa como surreal o tropeço blanquiazul perante os gijoneses no Cornellà El Prat. E o resultado, acreditem, está em investigação. Um dia após o jogo, o jornalista José Ramón De La Morena, da rádio Cadena Ser, divulgou que a LFP encaminhou para a Fiscalização Anti-Corrupção espanhola uma denuncia afirmando que alguns times da primeira divisão estariam negociando placares de partidas. Todavia, o Gijón está em estado de coma. Faz uma partida importante contra o Villarreal na terça, diante de seus torcedores e ainda sonha com a permanência.

Rayo Vallecano 0x7 Barcelona
No primeiro jogo da despedida de Guardiola, o placar pouco importou. Messi, que marcou duas vezes, é o único que importa. O plantel já deixou claro que quer ver La Pulga artilheiro do campeonato e farão de tudo para que isso aconteça. Porém, o que mais chamou a atenção foi a comemoração do gol de Thiago Alcântara. Após marcar, o hispano-brasileiro comemorou dançando com Daniel Alves. Imediatamente, Puyol interrompeu os dois e a câmera focou Guardiola e Tito Vilanova com cara de poucos amigos. Na coletiva, Guardiola pediu desculpas: "Pedimos desculpas pela celebração de Thiago e Dani Alves. Não é de jogador deste clube, não voltará a acontecer", disse. O comportamento de Daniel Alves nos últimos meses tem chamado a atenção. A imprensa catalão especula que Vilanova pensa em se desfazer do jogador na próxima temporada. Será?

Seleção da rodada
Roberto (Zaragoza); Weligton (Málaga), Pepe (Real Madrid), Filipe Luís (Atlético de Madrid); Raúl García (Osasuna), Cazorla (Málaga), Adrián Colunga (Zaragoza), Griezmann (Real Sociedad), Valdo (Levante), Benzema (Real Madrid), Pedro (Barcelona). Treinador: Javier Clemente (Sporting Gijón)

sábado, 28 de abril de 2012

Josep Guardiola e o melhor jogador do mundo


Em seus quatro anos ocupando o cargo de treinador do Barcelona, Josep Guardiola não só ganhou uma quantidade enorme de títulos como também aproveitou para sacar o melhor rendimento possível de seus jogadores. Vimos Xavi, Iniesta, Puyol, Piqué, Busquets, Daniel Alves, Pedro e até Víctor Valdés tornarem-se jogadores respeitáveis em cenário mundial durante a Era Guardiola. Mas, sem dúvidas nenhuma, o jogador que mais cresceu como futebolista na presença do técnico nascido em Santpedor foi Lionel Messi, que passou de um figurante a melhor do mundo a figurante a melhor da história. Peça-chave do Dream Team de Pep, Messi é eternamente agradecido ao treinador. "Graças a grande emoção, resolvi não comparecer a coletiva de despedida de Pep. Só tenho a agradecer por tudo que fez a minha carreira futebolística e a minha pessoa", disse Messi através do Facebook.

Antes da chegada de Guardiola ao time A, La Pulga começava a ganhar mais protagonismo na Catalunha, mas ainda era coadjuvante quanto as questões de títulos, ficando atrás de nomes como Ronaldinho Gaúcho, Deco e Eto'o. Contudo, a saída de Rijkaard e a mudança de treinador foi o primeiro passo para Messi entrar na galeria de ídolos barcelonistas. Até a "eterna" disputa contra as lesões La Pulga venceu. Guardiola se reuniu com o departamento médico e preparou o melhor trabalho para Leo vencer a disputa que sempre o atrapalhava ao longo da temporada. Em 2007/2008, foram duas lesões no bíceps femoral que, no total, o deixaram fora dos gramados por 2 meses e meio. 

Primeiramente, Guardiola não teve dúvidas: dispensou Ronaldinho e Deco e montou seu trabalho centrado na figura do argentino. É bom lembrar (e com justiça) que antes de se tornar a grande estrela azulgrená, Messi já havia demonstrado parte de sua qualidade e contava com duas Liga dos Campeões e duas Ligas Espanholas no currículo. Mas sua melhora dentro de campo foi notória. E não só individualmente: Messi passou a ajudar coletivamente, virando um arco e flecha letal. Uma máquina. Guardiola e Messi ganharam 13 de 16 títulos possíveis (ainda há uma Copa do Rei para disputar). Com Rijkaard, o máximo de gols em uma única temporada que havia alcançado foram 17 em 2006/2007. Com Guardiola, a melhoria se ratificava à medida que as temporada passavam: 38, 50 e 53, respectivamente em 2008/2009, 2009/2010 e 2010/2011. Na atual temporada, os números do camisa 10 assustam: 61 tentos.

Os títulos conseguidos e os números firmados nas últimas quatro temporadas serviram para Messi se estabilizar no topo do mundo. Nas últimas três premiações da Fifa e da Bola de Ouro da France Football, La Pulga levou os três troféus. Além disso, conquistou o prêmio de melhor jogador da Champions League duas vezes, competição na qual foi artilheiro nas últimas três edições (e, por ora, é artilheiro da edição 2011/2012, com seu principal concorrente, Mário Gómez, tendo um jogo a mais pela frente). Na Liga Espanhola, foi o Pichichi do torneio em 2009/2010, vice-artilheiro em 2010/2011 e disputa pau-a-pau com Cristiano Ronaldo na atual temporada. Com Guardiola, Messi superou o recorde de gols de Ronaldo Fenômeno em uma única temporada no Barcelona, ultrapassou Rivaldo como maior artilheiro azulgrená em competições europeias e tornou-se artilheiro máximo da história do clube. Recordes e mais recordes pulverizados.

A qualidade técnica de Messi e a ambição de Messi são as principais características que levaram Messi a converter-se no melhor jogador do mundo por três vezes consecutivas, mas tampouco a de se esquecer a fundamental presença de Guardiola. Pep deu ao argentino mais liberdade de movimentos ao sacá-lo da ponta direita e levá-lo ao centro do ataque, como um falso nove. Quando Messi fracassava na seleção, Maradona teve que procurar Guardiola para falar sobre como escalar o argentino em sua seleção. Nos poucos momentos negros que o argentino viveu até o momento, jamais faltou o apoio do treinador. Fato é que não há dúvidas de que a saída de Guardiola não só deixará um período de incerteza no clube, como também deixará Messi sem um de seus principais seguidores e apoiadores.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O adeus do mister


A vida é eterno perde e ganha. Num dia você perde, no outro você apanha. Hoje de manhã, Guardiola acordou mais cedo do que de costume. Tomou banho, lavou bem seu rosto e partiu para uma decisão que entristeceu todo o barcelonismo: não continuar mais treinando o Barcelona a partir da próxima temporada. A coletiva mais emocionante de uma das eras mais bonitas do futebol mundial durou 1 hora. Nela, Guardiola explicou tudo. Além disso, Sandro Rosell aproveitou para dizer o nome novo treinador, surpreendendo a todos: trata-se de Tito Villanova, auxiliar técnico de Guardiola.

Rinus Michels na década de 70. Johan Cruyff no início dos anos 1990. Josep Guardiola de 2008 a 2012. Em comum entre eles, mais do que nomes com o mesmo número de letras. Pep, que chegou desconhecido e desacreditado ao Barcelona, era a continuação de uma sina. Veio, viu, venceu. Daqui a um mês, vai abandonar o Barcelona, mas continuará vivo nos corações de cada culé. Sai do clube pela porta da frente, num tapete vermelho estendido unicamente para ele. Durante 4 anos, montou um time que encantou, pulverizou recordes e deixou o mundo inteiro boquiaberto. Em 4 anos, foram 13 títulos. Agora, Guardiola encara um novo desafio: levar a proposta de futebol bonito ao seu próximo clube, que saberemos ao longo do tempo. Em suas mãos está a missão de garimpar novos Messis, Xavis e Iniesta.

Ironia do destino, Guardiola chegou ao clube A de maneira semelhante ao de Tito. Em 2007, assumiu o Barcelona Atlétic. Logo em seu primeiro ano, foi campeão da Terceira Divisão, chegando a Segunda División B um ano depois após conseguir o acesso passando pela fase de promoção. Quando a era Rijkaard chegou ao fim, as atenções voltaram-se a José Mourinho, cotado para treinar o Barcelona. A cúpula barcelonista teve que escolher entre o português e o jovem Guardiola. Com as exigências feitas por Mourinho, não tiveram dúvida: Guardiola seria o novo treinador. Na bagagem, Pep trouxe mais dúvidas do que esperanças. Quatro anos depois, contudo, a desconfiança foi para o ralo, e o careca entrou para a história. O ex-volante tem no currículo os títulos nacionais de 2009, 2010 e 2011. Por duas vezes, conquistou a Europa (em 2009 e 2011). O mundo já foi seu também por duas vezes: 2009 e 2011. As estatísticas de Guardiola são elucidativas: orientou 242 partidas do Barcelona, ganhou 72%, a equipe marcou 618 gols e teve uma média de 67% de posse de bola.

Guardiola, produto de La Masía, recuperou toda a honra do barcelonismo. Sua aposta em jogadores da base foram um dos principais pontos de sucesso durante esses 4 anos. Na última final da Champions League, 7 dos 11 iniciais foram formados nas canteras blaugranas. Apostou em jogadores que tornaram-se sucesso como Pedro e Busquets, recuperou um canterano enterrado em Manchester como Piqué, transformou Lionel Messi, craque mas derrotado sempre pelas lesões, em melhor do mundo, Puyol, eterno capitão mas sempre estabanado, em um dos melhores de sua posição, Víctor Valdés em goleiro confiável e Xavi, subestimado durante o período de Rijkaard, num dos melhores passadores de todos os tempos. Sem falar em Iniesta, um dos melhores meio-campistas do mundo. Com essas modificações e novidades, conseguiu trabalhar. Montou um Barcelona fadado ao sucesso. Pressão intensiva, busca pela posse de bola, coletivismo, trabalho em grupo, atacar e dominar sempre o jogo.

Antes de Guardiola, foram 2 anos regados por espera e sofrimento. Mais de 3 anos sem conquistar a tão cobiçada taça da Champions League. Em âmbito nacional, viu o Real Madrid quebrar a hegemonia e conquistar o bi-espanhol. O sabor de um título jazia no paladar do torcedor blaugrana como um gosto distante. Perdido no banquete das desilusões. Mas o martírio teve fim. E deixou cada culé de barriga cheia. Bastou só 1 ano. Nesse tempo, Guardiola entrou para a história. Liga Espanhola, Copa do Rei, Uefa Champions League, Supercopa da Espanha, Supercopa da Uefa e Mundial de Clubes. Momentos especiais pedem pessoas especiais. Guardiola, o volante inteligente, o treinador em campo, o desconhecido, saiu da filial para brilhar no time A. As cinco letras voltavam ao Camp Nou para cumprir a sina. Catalunha era do Barcelona. O Barcelona era de Guardiola. Nascia um ídolo. Se despede um mito.

Vamos a Bucareste

Athletic Bilbao e Atlético de Madrid garantiram seus bilhetes para Bucareste ao eliminarem, respectivamente, Sporting de Lisboa e Valencia. No Mestalla, os colchoneros atuaram com inteligência, foram atacados à exaustão na primeira etapa, mas mataram a partida e esfriaram os ânimos chés no segundo tempo, num balaço de Adrián. Por sua vez, o Athletic Bilbao teve mais trabalho. Derrotado no jogo de ida, abriu o placar, mas viu os lisboetas empatarem e deixarem a Catedral de San Mamés numa situação tensa. Mas Llorente, nome do jogo, apareceu nos minutos finais para explodir o estádio, fazer a festa e chorar de emoção ao levar os Leones à grande final. Veja por que você deve assistir à final da Liga Europa, em 9 de maio.

 Dramático: Athletic Bilbao conseguiu classificação à final da Liga Europa aos 44 minutos do segundo tempo (getty images)

Prêmio ao futebol arte. É unanimidade a todos que a equipe que mais desempenha o dito futebol arte na competição é o Athletic Bilbao. A equipe mostrou duas virtudes irrefutáveis ao longo do torneio. A primeira é individual, de ótimos jogadores como Javi Martínez, De Marcos, Muniain, Susaeta, Ander Herrera e Llorente, que derrubam o conceito preconceituoso de que o clube, limitado a atletas bascos, não pode competir em alto nível. A segunda e mais importante é coletiva: os habituais ataques em bloco, pressão à defesa adversária e zelo com a posse de bola que fazem de Marcelo Bielsa um treinador brilhante.

Para entrar para a história. Marcelo Bielsa, em sua primeira temporada no clube, tem tornado-se um ídolo na cidade de Bilbao. Além da elogiável concepção de futebol, El Loco é profissional e detalhista a ponto de ter assistido a 126 horas de seu time em ação para traçar perfis do elenco e conhecer um terreno que se apresentou como um desafio inédito em sua carreira. Uma das inspirações de Pep Guardiola, o argentino é valorizado agora pela capacidade de implantar ideias que fogem ao trivial mesmo em equipes com recursos bem mais escassos que os do Barcelona. A oportunidade de disputar duas finais logo de cara é o passaporte que o argentino recebeu para entrar para a história do clube rojiblanco.

Um título para Llorente. El Rey León. O jogador preferido dos aficionados bascos vem se mostrando decisivo há bastante tempo. Suas belas atuações chamaram a atenção de Del Bosque, e o centroavante esteve no elenco campeão mundial. Dois anos depois, é cotado até para ser titular na Eurocopa. Porém, falta preencher uma lacuna: ser campeão pelo seu clube. Em terras de Real Madrid e Barcelona, essa missão é quase impossível, mas Llorente nunca desistiu. Recusou convites de clubes ingleses e agora tem a oportunidade de realizar seu sonho. Seu choro após o término do jogo contra o Sporting revela o árduo caminho que percorreu até que chegasse esse dia.

Jogando com inteligência, Atlético de Madrid despacha Valencia novamente e vai atrás do bicampeonato da Liga Europa (reuters)

Falcão García e Adrián López. Se do lado bilbaíno há El Rey León, no madrilenho tem El Tigre. Falcão García já havia entrado para a história da Liga Europa na temporada passada. Campeão com o Porto, foi artilheiro com 17 gols, superando a marca história de Klinsmann. O melhor jogador do Atlético de Madrid na temporada tem a oportunidade de ser bicampeão e conquistar de vez o coração dos torcedores colchoneros. Seu grande companheiro é Adrián López, artilheiro da atual edição da Liga Europa. Campeão europeu com a Espanha Sub-21, Adrián tem números bons e pode conquistar seu primeiro título na carreira em clubes. Será uma final especial para o atacante.

Não subestime o Atlético de Madrid. Os holofotes estão voltados ao Athletic Bilbao, pelo motivo explicado no primeiro tópico. Mas não cometam o erro de subestimar o Atlético de Madrid e, num provável título rojiblanco, levar propensão à zebra. Os colchoneros sabem como jogar a Liga Europa. Em âmbito europeu, estão invictos há 11 jogos, onde ganharam todos, e conquistaram a competição há duas temporadas. É time de chegada, tem um meio-campo forte e aguerido capaz de parar a troca de passes bilbaína e um contra-ataque fatal. Na Liga Espanhola, no último confronto entre as equipes, ganhou por 2x0.

Simeone merece. A chegada de El Cholo ao comando técnico do Atléti foi um divisor d'águas para o time. Fadado ao fracasso com Manzano, os rojiblancos se recuperaram de maneira espetacular e chegam a segunda final europeia em três anos. O argentino, que foi campeão com o Atlético de Madrid como jogador, vê que o status de ídolo do clube permanece intacto As comemoração efusiva do treinador com a vaga na decisão certamente serão multiplicadas em caso de conquista. O entusiasmo dele é emocionante.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Bola para frente

 Mais importante para o Barcelona é a permanência de Josep Guardiola. Os azulgrenás precisam urgente de mudanças para voltar a dominar o futebol (getty images)

O Barcelona está eliminado da Liga dos Campeões 2011/2012. A queda barcelonista na semifinal do torneio ante o Chelsea representa a Guardiola a primeira temporada sem os dois títulos de maior importância no futebol europeu: o nacional e o continental. Em dia que até Messi desperdiçou não só pênalti decisivo como inúmeras oportunidades claras, nada deu certo. O baque psicológico pós-pênalti do argentino foi claro. A ansiedade atrapalhou, as tentativas de enfiadas de bolas foram pequenas e os erros, crassos. Xavi apareceu pouco e errou muito, Iniesta limitou-se à esquerda, Cuenca não acertou nenhum cruzamento à área e Fàbregas e Sánchez tentaram em vão. O blog não irá tentar achar motivos da eliminação azulgrená, e sim tocar num assunto crucial: mudanças, a partir de agora, são necessárias.

O dia após uma queda tão sentida é de pensamento. É hora de rever conceitos: o que faltou para o Barcelona conquistar o penta europeu? O principal ponto é um elenco mais encorpado. Por mais que o Barcelona continue sendo a melhor equipe do mundo, falta elenco e peças de reposições à altura. No Real Madrid, por exemplo, se Benzema tiver mal, entra Higuaín. Se Di María ou Özil caírem de produção, tem Kaká e Callejón à disposição de Mourinho. Ontem, ficou evidenciado esse problema do Barcelona, que explodiu após o gol de Fernando Torres. Mais cedo, Guardiola olhou para o banco, viu que Cuenca e Fàbregas não estavam muito bem em campo e, pensando muito, teve que colocar em campo Tello, jovem das canteras que nem ficha de time A tem, e Keita. Enquanto isso, Pedro, um campeão de Copa do Mundo, de LC e Mundial de Clubes marcando gols, permaneceu no banco.

O outro ponto contraditório de Guardiola é apostar cegamente em jogadores da base em dentrimento de ir ao mercado buscar opções melhores. Para tentar buscar a virada, o ataque teve Cuenca e depois Tello acompanhando Messi e Sánchez. Numa rápida comparação, voltamos três anos no tempo, contra o próprio Chelsea no jogo de ida da semifinal no Camp Nou: Messi teve a companhia de Henry e Eto'o no ataque. Querendo ou não, impõe mais respeito. Os azulgrenás precisam de um zagueiro, um lateral esquerdo e um volante para que Busquets não fique muito sobrecarregado ao longo da temporada. Alguns nomes são comentados e estão em pauta há algum tempo: Thiago Silva, Adil Rami e David Luiz para a zaga; Jordi Alba para a lateral esquerda; Javi Martínez para a volância (na temporada, atuou mais na zaga); Gareth Bale e Iker Muniain para a meia ofensiva; Neymar (a incógnita quanto ao brasileiro é quando) e Van Persie para o ataque.

Outro ponto a se rever é a preparação na pré-temporada. "Uma pré-temporada bem feita é o primeiro passo para o sucesso", disse Guardiola no dia de sua apresentação no Barcelona. E, de fato, é verdade. Já comentávamos lá em Agosto que os catalães poderiam ter problema ao longo da temporada pela preparação confusa que fazia na volta ao trabalho. As lesões são provenientes disso. Os números chegam a assustar: ao longa da temporada, foram mais de 105 lesões musculares sofridas pelos jogadores do plantel A. Apenas Víctor Valdés, Mascherano, Abidal e Messi não lesionaram o bíceps femoral, principal responsável por mais da metade dessas lesões.

Entretanto, o mais importante para o futuro do Barcelona é a permanência de Josep Guardiola como treinador da equipe. O Mundo Deportivo trata o assunto como incógnita - que é. O catalão costuma renovar seu contrato sempre no final de janeiro ou começo de fevereiro. Estamos no final de abril, com a temporada chegando ao seu término, e até agora nada. Seu contrato vai chegando ao fim e as especulações, começando. Os mais falados são Andrés Villas-Boas, Luis Enrique, Joaquim Löw e Marcelo Bielsa. Em enquete do Diário Sport, os aficionados culés que votaram optaram por El Loco Bielsa substituindo Guardiola, em caso de saída do atual treinador. O Barça segue fiel ao estilo, nem tanto ao seu padrão de excelência. Ou será que é uma oscilação normal e estamos mal (ou bem) acostumados com o domínio azul e grená? O mais importante é cair na real e ver que a equipe, uma das melhores da história, também está fadada ao fracasso e precisa de mudanças.

terça-feira, 24 de abril de 2012

35ª rodada: Fim de Liga

 Real Madrid vence no Camp Nou e sentencia Liga Espanhola (getty images)

Barcelona 1x2 Real Madrid
O Real Madrid provou neste sábado que o Barcelona não é perfeito. Atuando fora de casa, o time madrilenho anulou Messi, impôs forte marcação no meio-campo e venceu o superclássico por 2 a 1. O triunfo no Camp Nou deixou o Real muito próximo do título espanhol. São 88 pontos atingidos pelo time madrilenho, sete a mais que o Barcelona, segundo colocado. Faltam quatro rodadas para o término do Campeonato Espanhol. Caso as equipes encerrem a competição com mesmo número de pontos, o Barça fica com o título no critério de desempate (confrontos diretos). Para o superclássico, José Mourinho seguiu postura adotada com sucesso dias antes pelo Chelsea, que bateu o Barça por 1 a 0. O treinador do Real congestionou o meio-campo, dificultando a costumeira triangulação entre Xavi, Iniesta e Messi. Além disso, Mourinho acelerou os contragolpes, destacando Cristiano Ronaldo aberto pelo lado esquerdo. O craque português explorou as subidas de Daniel Alves. 

Osasuna 1x1 Málaga
O Málaga sobreviveu ao estádio Reyno de Navarra, mas perdeu forças na disputa por uma vaga na próxima Liga dos Campeões. Dentro do alçapão do Osasuna, os boquerones saíram desvantagem no placar e só conseguiram buscar o empate por 1 a 1 graças a Santi Cazorla. A equipe segue na quarta colocação do Campeonato Espanhol, agora com 52 pontos, enquanto o Osasuna subiu para o oitavo lugar. A pressão no início da partida foi dos visitantes, que tiveram duas oportunidades desperdiçadas por Joaquín e José Salomón Rondón. Enquanto isso, o Osasuna apertava a marcação e quase marcou aos 17, com Carlos Kameni espalmando chute de Puñal. As chances seguiram iguais até que Nacho Monreal acertou a trave dos rojillos, soltando a bomba após rebote.O Osasuna foi para cima na volta do intervalo e saiu em vantagem no placar aos nove minutos. Álvaro Cejudo cruzou e Nino apareceu livre na segunda trave para marcar de cabeça. Quando parecia mais próximo de sofrer a sentença, porém, o Málaga buscou a igualdade, aos 22 minutos. Cazorla arriscou de fora da área e acertou o ângulo. E a virada quase saiu a dois minutos do fim, em escanteio batido por Cazorla que Ignacio Camacho cabeceou no travessão.

Sevilla 1x1 Levante
Apesar da inconsistência durante o segundo turno do Campeonato Espanhol, o Levante ainda luta por um lugar na próxima Liga Europa ou, quem sabe, até mesmo na Liga dos Campeões. Neste sábado, os granotes foram até o Ramón Sánchez-Pizjuán e saíram com um suado empate por 1 a 1 contra o Sevilla, mantendo a quinta colocação, dois pontos atrás do Málaga. Já os rojiblancos saltam três posições e aparecem logo abaixo na tabela, com três pontos a menos.

Atlético de Madrid 3x1 Espanyol
Na mesma rodada que Barcelona e Real Madrid se enfrentam, Atlético de Madrid e Espanyol fazem um dérbi alternativo entre a capital e a Catalunha. E os habitantes do coração político da Espanha podem dizer que venceram o duelo com sobras. Com show de Arda Turan, os colchoneros derrotaram os blanquiazules por 3 a 1 no Vicente Calderón. O resultado deixa o Atlético na sétima posição de La Liga, com 48 pontos, atrás do Athletic Bilbao apenas nos critérios de desempate e brigando por um lugar na próxima Liga Europa. O Espanyol, por sua vez, tem os mesmos anseios e aparece na décima colocação, três pontos atrás.

Valencia 4x0 Bétis
O Valencia voltou a abrir vantagem na terceira posição do Campeonato Espanhol. Após sequência ruim nas últimas semanas, que causaram protestos dos torcedores, os Ches afastaram os maus momentos com uma goleada avassaladora sobre o Betis no Mestalla, com placar de 4 a 0. A equipe ganha folga de cinco pontos na zona de classificação da Champions, além de ostentar quatro pontos a mais que o Málaga, quarto colocado. Mais abaixo, os verdiblancos estão em 13º.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

A assistência da temporada

Özil recuperou sua melhor versão, está mais solto e confiante em campo e é peça-chave do esquema de José Mourinho (getty images)

5 anos. Foi esse o período de jejum do Real Madrid sem vencer o Barcelona no Camp Nou. Os merengues, durante esse tempo, sofreram em suas visitas à Catalunha: perderam de 2x0, de 5x0, de 3x2... Simplesmente o jogo não fluía. A cada partida, o cenário era o mesmo: um Real Madrid acuado, nervoso e antipático perante uma avalanche azulgrená, que só fazia valer sua filosofia de jogo. Porém, é preciso voltar a janeiro deste ano para saber que os blancos já haviam perdido o medo de visitar os barcelonistas. No jogo de volta das quartas-de-finais da Copa do Rei, o Real Madrid foi ao Camp Nou para vencer. Empatou, foi eliminado, mas a sensação foi de avanço.

E foi o que ficou comprovado no superclássico deste sábado. A vitória por 2x1que praticamente sentenciou a Liga evidencia que, após anos de derrotas e humilhações, o Real Madrid está disposto a dar a volta por cima. O primeiro passo foi dado. Os merengues não sofreram em momento algum da partida. Dominaram o meio-campo, em partidas destacáveis de Khedira e Xabi Alonso, mostraram uma louvável aplicação tática (Di María se sacrificou em prol de ajudar na marcação de Iniesta) e não deixaram Messi em paz: eram dois marcando na frente e um na cobertura. La Pulga inexistiu, só aparecendo em lampejos (diga-se de passagem foi dele a jogada do gol de Sánchez).

Nesse cenário, dois nomes se destacam: Cristiano Ronaldo e Mesut Özil. O português sempre se viu taxado de amarelão. A própria torcida madridista o criticava justamente por sumir em jogos contra o Barcelona. A torcida culé, por sua vez, o ironizava em cada visita do gajo ao Camp Nou. Mas CR7 nunca abaixou a cabeça e continuou fazendo seu trabalho. O gol e a comemoração de desabafo e ironia é um divisor d'águas em sua carreira no Real Madrid: Ronaldo está pronto para ser ídolo, fazer história e ganhar tudo na capital espanhola.

Entretanto, o personagem do post é o alemão. Özil encerrou 2011 em baixa. Em má fase e relegado ao banco, perdeu moral com José Mourinho. A lesão de Di María abriu espaços para o camisa 10 recuperar os créditos perdidos. E o germânico o faz com louvor. Está mais elétrico e, assim como Cristiano Ronaldo, tem sido peça fundamental em superclássicos. Já havia sido o melhor em campo na Copa del Rey e, dessa vez, foi o responsável pela assistência milimétrica para o tento do gajo. O periódico AS definiu bem: foi a assistência da temporada. O que mais chama a atenção nessa nova versão de Özil é sua regularidade. A irregularidade era justamente o ponto no qual a imprensa sempre batia o martelo.

Özil é o arquiteto - junto com Xabi Alonso - que o Real Madrid não tinha há muito tempo. Özil cumpre uma função tática semelhante a de Figo (não estou comparando os jogadores, hein) na época do título europeu de 2002. São 19 assistências na Liga, 25 na temporada. Seja jogando aberto à direita ou centralizado no auxílio a Benzema ou Higuaín seu futebol continua o mesmo. É o talento somado a regularidade e a naturalidade. Aos 23 anos, ele tem o arranque, o chute e a visão de jogo que o transformam num dos meio-campista mais completo da liga. Mourinho celebra a cada jogo o retorno do futebol e a adaptação de Özil ao estilo de jogo merengue. É evidente que o Real Madrid se sagrará campeão com autoridade e justiça. Assistimos a uma irrefutável demonstração de força dos líderes na temporada e a um concerto do alemão, que cumpre todas as tarefas que você pode esperar de um criador de jogadas. Um timaço, um craque.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Cultura de Madrid

O Mister Liga Europa: mais uma vez decisivo, Falcão García marcou dois e colocou o Atlético de Madrid próximo da final da segunda principal competição de clubes da Europa (AP Photos)

O Valencia sucumbiu ao Atlético de Madrid, no jogo de ida da semifinal da Liga Europa. Querendo uma revanche pela eliminação na mesma competição duas temporadas atrás, os chés só viram pela frente uma avalanche de cores vermelha e branca e, não bastasse, estão muitos próximos de uma nova eliminação. O discursso em Paterna, contudo, é de confiança. E há motivos para isso: as estatísticas mostram que o Valencia costuma marcar mais de um gol jogando no Mestalla na temporada. Além disso, o gol marcado por Ricardo Costa no final deu sobrevida à equipe.

Derrotado mais uma vez em jogo decisivo, não é unanimidade dizer que Unai Emery está balançado no comando técnico valenciano. Hoje, notícias do periódico Superdeporte, que cobre os clubes de Valencia (acima de tudo o Valencia), informou que o treinador teria revelado ao plantel que não irá permanecer sob comando da equipe para a próxima temporada (como a imprensa espanhola vem especulando há tempos) e deixou uma última mensagem: "quero sair pela porta da frente. Vamos em busca do terceiro lugar na Liga e do título europeu", teria dito Unai Emery.

Enquanto isso, no lado capitolino, Simeone esbanja prestígio. Após sua chegada, em janeiro, a temporada atleticana ganhou uma nova dimensão. O plantel era forte, mas o psicológico estava derrubado. Simeone, mestre nessa função, consegue tirar o melhor de cada jogador independente da partida. El Cholo, para começar, definiu uma tática. Se, por um lado, Manzano mexia no módulo tático rojiblanco a cada jogo e sempre mudava o onze inicial, um dos motivos para seu mau trabalho, o argentino estacionou no 4-2-3-1, variando sempre durante a partida para o 4-3-3 ou 4-4-2 em linha. Dá certo porque Adrián e Arda Turan, que compõe a linha de três ofensivo atrás de Falcão García inicialmente, se movimentam muito e recompõe bem na marcação, sobretudo o turco, quando atacado. Adrián, artilheiro da Espanha no Europeu Sub-21 e do Atléti no primeiro turno, tem se sacrificado em prol do time: joga mais aberto à direita e ajuda na marcação pelo seu setor em dentrimento de uma disputa de gols sadia com Falcão García. Não que isso bloqueie o faro de gol do "atacante": são 20 na temporada.

A vitória sobre o Valencia serve para alimentar esperanças de mais um título em solo europeu. Os colchoneros jogaram com muita intensidade, pressão e agressividade. Lembrando o futebol desempenhado pelo maior rival Real Madrid. É um estilo de jogo muito físico, mas os estereótipos não podem encobrir as outras qualidades do time. Filipe Luís enfim encontrou seu futebol após a saída do Deportivo. O lateral, que chegou a ser vaiado no Calderón, ataca com contudência e tem sido importante na marcação pela esquerda. O AS, em sua crônica do jogo, definiu como "cultura de Madrid". Fato é que o Atléti foi bastante superior aos blanquinegros e não abaixaram a cabeça após o gol de empate de Jonas.

Simeone tem dois jogadores em ótima fase no meio: Arda Turan e Diego. O primeiro, instável durante a temporada, quebra as defesas adversárias, como quando serviu Falcão García no gol que abriu o marcador ontem. Diego é mais técnico, mas também impõe correria quando necessário. Após uma passagem apagada pelo Wolfsburg, o brasileiro tem feito valer a confiança depositada nele pela cúpula rojiblanca. Ele orquestra o meio-campo e arma as jogadas para Adrián ou Falcão. Diego sabe que é essencial para o esquema de El Cholo e voltou melhor após a lesão que o deixou fora dois meses. 

O colombiano, por sua vez, merece um parágrafo à parte. Que temporada fenomenal faz El Tigre. Dono de 30 gols na temporada, Falcão mostra-se mais uma vez decisivo em âmbito europeu. Campeão e artilheiro com o Porto na temporada passada, quando superou o recorde goleador de Klinsmann, com 17 gols. Em 2011/2012, são 13. A vitória também estabeleceu dois recordes para a segunda principal equipe da capital espanhola. O Atlético de Madrid tornou-se o primeiro clube a chegar a 15 vitórias numa única temporada em competições europeias e o segundo que ganha 10 jogos consecutivos, atrás apenas do Barcelona (11) de 2002/2003. Individualmente, Falcão e Adrián tornaram-se a primeira dupla a produzir 10 gols um um ano na Europa. Isso é o Atlético, a equipe que, pelo visto, abrangiu a cultura madrilenha de jogar futebol.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Derrotado

Bem marcados, Messi, Xavi e Daniel Alves não tem o que comemorar. Derrotado, Barcelona irá atrás de primeira remontada na temporada para continuar vivo em luta do penta da Uefa Champions League

Imagine esse cenário: 74% de posse de bola, 21 chutes a gol, sendo oito delas no alvo, e pressão do início ao fim. É inimaginável pensar numa equipe com essas estatísticas sendo derrotada, não? Pois bem, a descrição acima é a do Barcelona, como sempre. Contudo, ao contrário de outros jogos, os azulgrenás saíram de campos derrotados. Valente, o Chelsea fez valer o mando de campo, derrotou o atual campeão da Liga dos Campeões da Uefa e vai ao Camp Nou precisando apenas de um empate para conseguir chegar à tão sonhada final.

Na temporada, foi apenas a terceira derrota do Barcelona, derrotado antes para Osasuna e Getafe. Em âmbito continental, foi um londrino o último comemorar uma vitória perante o tetracampeão europeu: o Arsenal, em fevereiro passado, no jogo de ida das oitavas-de-finais (2x1). O tabu blue prossegue: desde fevereiro de 2006 que a equipe de Stamford Bridge não é derrotada pelo o Barcelona em jogos oficiais. Abaixo, os motivos para o prosseguimento do tabu.

Má eficiência nas finalizações. 21 chutes a gol. 8 delas no alvo, chances claras. Zero gols. É raro ver o Barcelona desperdiçando tantas oportunidades, mais ainda é ver uma atrás da outra da maneira que foi. Fàbregas e Sánchez tiveram duas ocasiões perfeitas de gols, mas falharam. No final, Pedro acertou a trave e Busquets isolou. Errar a exaustão numa semifinal de LC pode ser crucial. Por outro lado, o Chelsea teve somente uma chance de gol. E Drogba jogou para as redes.

Cadê Piqué, Guardiola? Contra o Milan, Pep teve respeito. Não utilizou Fàbregas e Adriano para jogar com Keita e Mascherano, com Puyol fazendo a lateral esquerda. O resultado foi um 0x0 que levantou questionamentos ao treinador: por que não ser mais ousado? Ontem, entretanto, os questionamentos foram outros: por que relegar Piqué ao banco e não dar continuidade a escalação habitual? Joan Vehils, colunista do Diário Sport, escreveu: "talvez, com Piqué em campo, o Barcelona não teria tomado nenhum gol". Difícil dizer com palavras certas o que seria o jogo com Piqué em campo, mas é provável que o zagueiro catalão, que fica mais plantado na zaga do que Mascherano, chutasse para longe a bola cruzada para Ramires. Porém, o se inexiste no futebol.

Muro azul. Duas linhas de quatro atrás da bola fecharam os espaços do Barcelona. A tática montada por Di Matteo não é comum no cenário barcelonista: atualmente, já está provada que é a única que pode parar o Barcelona. Inter de Milão, Real Madrid, Milan e agora Chelsea tiveram sucesso. Faltam mais 90 minutos e a pergunta que fica é: num campo com dimensões maiores como é o Camp Nou o Chelsea conseguirá se defender dessa forma? Vale lembrar que os azulgrenás acharam espaços em momentos da partida.

Mais participação de Xavi. O Barcelona tem meio-campo mais criativo que Paulo Barros e retoma a posse de bola com muita facilidade. Portanto, ofereceria a qualquer adversário um papel secundário. Sabendo disso, Di Matteo abriu mão de Kalou/Sturridge e escalou Mikel, Meireles e Lampard pra reforçar o centro. Mata e Ramires abertos se sacrificaram na marcação, sobretudo o espanhol. Principal jogador dos londrinos na temporada, o ex-Valencia não participou de nenhuma jogada ofensiva e nem criou nenhum lance de perigo. O povoamento do meio-campo foi a principal estratégia para levar a vantagem ao jogo da volta. Xavi, muito marcado, inexistiu.

Pedra no sapato de Messi. O melhor jogador do mundo tentou. Passava de um, de dois, mas o terceiro já chegava afastando de qualquer maneira. Em certos momentos, lembrava a derrota para a Inter em 2010. La Pulga, também, não teve muita ajuda dos companheiros de ataques. Muito preso à marcação adversário, Sánchez e Fàbregas não ofereceram a Messi oportunidades de tabela. Assim, Messi segue sem marcar contra o Chelsea: são seis jogos (sete se considerarem os 25 minutos disputados em 2005/2005, quando saiu lesionado ainda no primeiro tempo) e nenhum gol. E foi de um desarme de Lampard sobre Messi que iniciou-se o contra-ataque que parou com o único gol do jogo.

terça-feira, 17 de abril de 2012

34ª rodada: Esperanças recuperada

 Com gol de Sérgio García, o Espanyol recuperou as esperanças de conquistar uma vaga na próxima Champions League (getty images)


Real Madrid 3x1 Sporting Gijón
O Real evitou uma surpresa e vai tranquilo para o clássico diante do Barcelona, no próximo sábado. No dia em que Cristiano Ronaldo atingiu a marca de 41 gols no Espanhol, algo jamais feito por um atleta em uma mesma temporada, e seu ataque igualou um feito histórico, o time madrileno ganhou de virada do ameaçado Sporting Gijón por 3 a 1, em pleno Santiago Bernabéu, e manteve quatro pontos de vantagem sobre o rival catalão a uma semana do clássico entre os dois. No jogo, Cristiano Ronaldo quebrou outra marca. O português chegou aos 41 tentos em uma mesma temporada, superando a marca de 40 tentos anotados na edição 2010/2011. Além disso, o ataque do Real chegou aos 107 gols anotados na competição e igualou sua maior marca alcançada na edição de 1989/1990.

Levante 1x2 Barcelona
O Barcelona se manteve vivo na briga pelo título do Espanhol. A equipe de Guardiola superou a fraca atuação do primeiro tempo e venceu de virada o Levante por 2 a 1, em jogo marcado pela arbitragem polêmica --o Levante questionou muito a marcação do pênalti que originou o segundo gol--, e com dois gols de Messi, que chega aos 41 tentos e se iguala ao português Cristiano Ronaldo na artilharia. O começo parecia jogo de ataque contra a defesa. Como já era esperado, o Barcelona tinha mais posse de bola e se mandou para frente. Mas criava poucas chances claras de gol. Até então, o Levante se mostrava preocupado em marcar. Apenas isso. No entanto, acabou sendo eficiente em um de seus primeiros ataques.

Espanyol 4x0 Valencia
Na partida que abriu os jogos de domingo da 34ª rodada do campeonato espanhol, o Espanyol, jogando em seu estádio, em Barcelona, goleou o Valencia por 4 a 0, e retomou as esperanças de conseguir uma vaga nas competições europeias da próxima temporada. Com a goleada, os Periquitos chegaram ao oitavo lugar, com 45 pontos, mesmo número do Sevilla e apenas um atrás do Osasuna, sexto colocado e na zona da Liga Europa. Para a Liga dos Campeões, são cinco pontos atrás do Málaga, quarto colocado. No campo, o Espanyol abriu o placar aos 25 minutos do primeiro tempo, com Cristián Gómez. Quatro minutos depois, Joan Verdú ampliou para os Periquitos. Na segunda etapa, Álvaro Vázquez, aos 12, e Uche, aos 34, fecharam o marcador.

Rayo Vallecano 0x1 Atlético de Madrid
O Atlético de Madrid segue com esperanças de chegar á próxima Liga dos Campeões da UEFA. Jogando no Estadio de Vallecas, os Colchoneros derrotaram o Rayo Vallecano por 1 a 0, com um gol de Falcao García, e chegaram aos 45 pontos, no nono lugar da tabela. São seis pontos a menos que o Málaga, quarto colocado e que estaria na UCL se o campeonato terminasse agora. Faltam quatro rodadas para o fim do torneio. Já o Rayo, com 40 pontos, tem remotas chances de chegar à Liga Europa - está seis pontos atrás do Osasuna, sexto colocado - e tem poucas chances de rebaixamento, pois está nove pontos à frente do Zaragoza, o primeiro da zona de descenso.

Getafe 5x1 Sevilla
O Getafe tratou de esfriar as pretensões do Sevilla no Campeonato Espanhol. Em jogo realizado em Madri, os andaluzes até começaram em vantagem, com um gol de rara beleza anotado por Negredo. Durante a segunda etapa, porém, os azulones desandaram a fazer gols, fechando o placar com vitória humilhante por 5 a 1. O triunfo alça o Getafe aos mesmos 45 pontos do Sevilla, a seis pontos de distância da zona de classificação à Liga dos Campeões. O primeiro grande lance da partida foi do Getafe, com Miku perdendo um gol feito, aos nove minutos. E, depois que Moyá salvou cabeçada de Manu Del Moral, é que Álvaro Negredo fez o primeiro gol da partida, em um lance que combinou extrema dificuldade e beleza. Piotr Trochowski fez lançamento frontal, o atacante correu mais que os zagueiros e deu bicicleta arrojada para estufar as redes.

Falta um algo a mais ao Real Madrid?

Özil e Cristiano Ronaldo são símbolos de um Real Madrid que, por ora, padece nos momentos decisivos (getty images)

"Talvez esse Real Madrid tenha um pouco menos de fantasia do que no passado", disse Jupp Heynckes, técnico do Bayern de Munich. Embora tenha admitido que os blancos são muito perigosos e uma das melhores equipes do mundo, o treinador campeão europeu com o Real Madrid em 98 não hesitou em soltar essa. Os números mostram o contrário: só o fato de contar com 108 gols na Liga Espanhola joga por água baixo a confirmação do alemão. Mas a análise de Heynckes, baseada nos jogos contra equipes grandes do Real Madrid, teve sua validade comprovada há pouco, na derrota por 2x1 para o Bayern de Munich na partida de ida das semifinais da Uefa Champions.

Quando falamos em fantasia, quase toda comparação que se faça com o Madrid campeão pela última vez da Uefa Champions League será ingrata. Afinal, a força motriz daquele time era um meio-campo com Makélélé, Figo, Zidane e Mcnamanam. A formação inicial de hoje não foi diferente da habitual. Teve Xabi Alonso, Khedira, Di María, Özil e Cristiano Ronaldo. Mas aí vem o questionamento sobre o poderio dessa equipe em partidas que requer múltiplo esforço. Di María esteve bastante opaco e errou quase tudo que tentou. Cristiano Ronaldo não foi nem 40% do jogador de 53 gols na temporada e passou em branco perante Phillip Lahm. Özil e Benzema tentaram, mas não tiveram muito sucesso. O alemão teve lampejos, marcou até o gol de honra, mas em certos momentos da partida foi anulado pelo compatriota Schweinsteiger.

Talvez faltasse mais ousadia por parte de Mourinho. O recuo inexplicável após o tento de Özil, quando o Real Madrid dominava, chamou o Bayern ao jogo. Saíram Di María e Özil, entraram Marcelo e Granero. Aí vem mais um questionamento: por que não apostar na ofensividade da equipe e tentar sentenciar ainda em Munich. Havia espaços para isso. A defesa do Bayern, como explicada no preview, não é nada confiante. Tirar Di María, que ainda mostra uma falta de forma física ideal em relação ao pré-lesão, não é nada anormal, mas por que não Kaká? O brasileiro vem crescendo de produção e é mais confiável nesses tipos de jogos.

É também importante entender a cabeça de Mourinho em grandes jogos. O tímido 4-3-2-1 após o gol de empate, com Cristiano Ronaldo distante do gol, é mais uma mostra de que ele prioriza a defesa nessas circunstâncias. A opção por Fábio Coentrão no lugar de Marcelo (aquele que "é tudo, menos um lateral" na visão do treinador português à época de Inter de Milão) só evidencia essa tese. Acontece que a temporada do brasileiro é mais sólida de sua carreira na Europa. O lateral tem balanceado as subidas ao ataque com a ajuda na marcação na hora do contra-ataque adversário. Em campo, Coentrão sofreu. Na primeira etapa, quando Robben caia pela seu setor; em partes da segunda etapa, quando Ribéry inverteu de lado; e nos minutos finais, quando, precisando de qualquer forma da vitória, Lahm abandonou a marcação a Cristiano Ronaldo e se lançou ao ataque. Fez a jogada do gol de Mario Gómez justamente driblando o lateral gajo.

É preciso ver a importancia do gol de Özil por um lado. "Não precisaremos de milagre nenhum. Basta jogarmos o nosso futebol e fazer, pelo menos, um gol para irmos à final", disse Mourinho após o jogo. Ainda que possa sofrer um gol num contra-ataque bem encaixado pelos bávaros no Bernabéu, as palavras de Mourinho tem um quê de realista. O problema é a atenção necessária ao Bayern na partida de volta. O outro é como irá se comportar o Real Madrid caso receba o primeiro gol ou volte do intervalo com o marcador zerado. Mais uma vez ficou ratificado que os blancos não sabem jogar pressionado. A falta para expulsão de Marcelo em Thomas Müller exemplifica o nervosismo em situações adversas. Enquanto isso, antes da última parada rumo à final, o Real Madrid tem pela frente o Barcelona. Tudo que Mourinho não queria.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Prévia: Bayern de Munich x Real Madrid

José Mourinho, atento: português briga pelo terceiro título europeu e verá o Bayern de Munich, adversário da última conquista, pela frente nas próximas semanas (getty images)

Quando voltou à presidência do Real Madrid, Florentino Pérez apostou todo seus milhões de euros em Cristiano Ronaldo e Kaká, naquilo que batizou de projeto galáticos 2.0. Um ano depois, após mais uma eliminação nas oitavas-de-finais da Champions League, o presidente resolveu ir para o tudo ou nada e gastou mais milhões em José Mourinho. Nesse meio tempo, o treinador foi campeão europeu com a Inter de Milão, desbancou o arquirrival Barcelona na principal competição europeia e conquistou a tríplice coroa, sonho antigo dos merengues.

Mais cedo, logo na introdução à temporada, Florentino Pérez, disposto a minar todos os jogadores comprados à época da gestão de seu antecessor, Ramón Calderón, praticamente chutou Arjen Robben do clube, que o vendeu ao Bayern de Munich. A primeira parte da vingança do holandês foi levar o time de Munich à final da LC justamente no Santiago Bernabéu, onde caiu para os milaneses da Inter. Mas, três anos depois, o destino coloca Robben frente a frente com o ex-clube e com o homem que o vendeu a troco de nada.

O confronto marca um dado especial: Bayern e Real Madrid já se enfrentaram 18 vezes em âmbito europeu, um recorde entre equipes de países diferentes (saiba mais aqui). O ringue da LC os unirão para o novos combates nos dias 17 e 25 de abril, na Allianz Arena e no Bernabéu respectivamente. É a última parada antes da tão sonhada final de Munique. A partir de agora, acompanhe o que de melhor e pior as equipes têm, a temporada até aqui da dupla e as expectativas para o eletrizante duelo. Quem escreve sobre os bávaros é Luan Cláudio, do site Bundesliga Brasil, especialista sobre o futebol tri-campeão mundial. Confira a prévia de Bayern de Munich x Real Madrid e depois, nos dois endereços, o resumo do embate. Boa leitura!

A temporada até aqui
Bayern de Munich: Pode-se dizer que a temporada do Bayern é boa e equilibrada: chegamos na reta final e o time está na briga para conquistar a tríplice coroa (Campeonato Alemão, Copa da Alemanha e a Liga dos Campeões). Na Bundesliga, ficou distante do título ao perder o confronto direto para o Borussia Dortmund e ver o rival abrir seis pontos de diferença na liderança, faltando quatro rodadas para o fim. Na DFB-Pokal, o time está na final e enfrentará o mesmo Borussia Dortmund, para tentar dar o troco pela provável perda do campeonato e conseguir um título contra o seu maior rival atualmente. Já na Champions, os confrontos contra o Real Madrid deverão ser decididos no detalhe, sendo talvez o duelo mais equilibrado desta edição da LC, onde parecem estar juntos duas equipes praticamente no mesmo nível e as únicas capazes de derrubar o favorito Barcelona no território europeu. O Bayern "dará a vida" nestes jogos para manter o sonho de conquistar o título na Allianz Arena, seu estádio e palco da grande final de 2012.

Real Madrid: Com a atenção mais voltada à Liga dos Campeões e com muita gordura para gastar, o rendimento na Liga Espanhola caiu e o Real Madrid deixou escapar uma larga vantagem que tinha sobre o Barcelona, agora atrás somente 4 pontos e com um superclássico para ser feito no Camp Nou, no próximo sábado, 21. Os blancos, que costumam perseguir os azulgrenás na tabela, se veem pela primeira vez em muito tempo na situação oposta e prometem não deixar escapar essa enorme chance de quebrar a sequência de títulos do principal rival. A vitória no dérbi contra o Atlético de Madrid, na melhor partida de Cristiano Ronaldo na temporada, anima os merengues para a disputa de mais um objetivo: o título da LC. Não obstante a queda de rendimento em âmbito nacional, esta é a mais sólida temporada blanca nos últimos anos, já que a equipe de José Mourinho, que merece muita parte dos créditos por isso, está disputando os dois principais títulos no momento. Mesmo após ter caído para o Barcelona na Copa del Rey e não ter a chance da manuntenção do título, a postura e o futebol desempenhados no Camp Nou, na partida da volta, recuperaram o orgulho madridista perante os catalães.

Pontos fortes
Bayern de Munich: Jupp Heynckes, treinador do Bayern, conseguiu dar ao time um equilíbrio maior nesta temporada, fazendo com que defesa, meio campo e ataque estejam sempre em sintonia. O ponto forte com certeza está no ataque. Os bávaros passaram das oitavas com um 7x1 contra o Basel no placar agregado e nas quartas com um 4x0 contra o Olympique de Marseille. Já são 22 gols marcados na competição, com o artilheiro Mario Gomez sendo protagonista e artilheiro do time com 11 tento, sendo ajudado e muito pelos inspirados Robben e Ribéry, que fazem uma ótima temporada e reencontraram o futebol de alto nível, sem sofrer lesões. Outro ponto forte dos bávaros são as laterais. Lahm efetivou-se como lateral direito por ser destro, tem muita facilidade de atuar no setor e muitos dizem que é melhor na direita do que na esquerda. Na outra lateral, Heynckes tirou da cartola David Alaba. O meia assumiu a posição e se encaixou perfeitamente no esquema do treinador, sendo forte na marcação e bastante efetivo nas chegadas ao ataque.

Real Madrid: O meio-campo. Seja quem for o companheiro de Cristiano Ronaldo na linha de três, a ofensividade merengue é avassaladora. Atualmente, Kaká e Özil têm começado mais entre os titulares, mas a volta de Di María, que até então apto era o melhor jogador da equipe na temporada, pode abrir uma nova disputa. Sem falar no coringa Callejón, que sempre entra muito bem em campo. Acostumado a enfrentar o Bayern na época de Schalke 04 e Werder Bremen e companheiro de seleção alemã de alguns jogadores bávaros, Özil recuperou a boa forma do primeiro semestre de 2011 e já é um jogador imprescindível no esquema de Mourinho. Ao lado de Kaká, seu futebol fica menos sobrecarregado e, assim, o camisa 10 consegue ditar o ritmo da partida. Benzema e Xabi Alonso também merecem destaques. O volante espanhol vive uma fase de gala às vésperas da Eurocopa, enquanto o francês é dono de 30 gols. Mas, claro, o destaque maior é para o craque: Cristiano Ronaldo. Na temporada, são 53 gols, sendo 41 na Liga Espanhola, quebrando seu próprio recorde histórico de gols, alcançado em 2010/2011. Ele dribla, arranca, pede bola, chama a responsabilidade, dá assistência, ajuda na marcação pelo setor esquerdo e marca gols. Polivalente, ainda pode ser deslocado para a função de falso nove numa emblemática postura voltada à defesa de Mourinho. O trio Benzema + Cristiano Ronaldo + Higuaín são donos de 108 gols em 2011/2012.

Pontos fracos
Bayern de Munich: Difícil encontrar um ponto fraco em um time tão forte e semifinalista de uma Liga dos Campeões, mas o Bayern de Munique tem os seus. A falta de peças de reposição é grande, principalmente no ataque. Se Mario Gomez não joga, Olic vai pro jogo, ou senão o garoto Petersen. E só. Na defesa, só há três zagueiros à disposição no elenco: Badstuber e Boateng (que jogam com frequência) e Van Buyten, tendo que improvisar por vezes o volante Tymoshchuk. Nas laterais, falta qualidade aos suplentes Rafinha e Contento, que, quando jogam, não vão bem, e em algumas oportunidades o volante Luiz Gustavo atua na lateral esquerda. Outro ponto fraco é a dupla de zaga. Badstuber e Boateng dão muitos sustos no torcedor bávaro e passam insegurança ao goleiro Neuer, apesar da equipe só ter sofrido 7 gols até aqui na UCL.

Real Madrid: O Real Madrid chegou em um momento complicado e crucial na temporada: jogando duas competições diferentes e passando por altos níveis de stress, é muito complicado manter a concentração. Até agora, Mourinho e sua comissão técnica tem conseguido sucesso em focar o grupo para as partidas da LC, torneio ao qual os blancos parecem totalmente dedicado. Mas, é bom lembrar, o Bayern de Munich será o primeiro teste real na competição europeia: até agora, os adversários foram de níveis totalmente inferiores, do naipe de Dínamo Zagreb, Lyon, Ajax, CSKA e Apoel. Porém, o cansaço mental é forte e tem feito o time errar um pouco mais do que de costume, vide o empate contra o Valencia há duas semanas. O peso de atuar em mais de uma competição cansa também o corpo. Mourinho, nem um pouco afeito a rodízio de jogadores, contribui um pouco para este desgaste ao dar pouco descanso para os titulares em momentos importantes da temporada. Por outro lado, os jogadores também não deram tanta chance para o treinador ousar um turnover mais radical ao caírem de rendimento e permitirem a aproximação do Barcelona. Fato é que jogar cansado contra uma equipe veloz como o Bayern pode ser mortal caso os jogadores não ocupem bem os espaços em campo.

Expectativas
Bayern de Munich: Quase impossível de se apontar um favorito no duelo, mas o time alemão tem totais possibilidades de passar por esta difícil semifinal e chegar a tão sonhada final em seu estádio, Allianz Arena. "Queremos ganhar o que der e teremos grandes jogos pela frente", disse o treinador Jupp Heynckes. Uma frase que explica tudo sobre o time nesta reta final de temporada, onde só terá jogos decisivos pela frente. É esperar que a dupla "Robbery" mantenha o nível de atuações, Mario Gomez continue marcando e que a defesa esteja sólida e passe segurança ao time e aos torcedores. Assim o Bayern de Munique tem enormes condições de conquistar não só a Liga dos Campeões, como também qualquer competição que disputar, mesmo que, na Bundesliga, não dependa mais de si.

Real Madrid: Em momento crucial na temporada, a comunidade madridista deseja a conquista do doblete, que só pode ser conquistado pelo próprio Real Madrid ou pelo Bayern e o Barcelona, esses dois últimos na disputa pela tríplice coroa. Nos poucos jogos que restam na temporada, o Real Madrid pode ser campeão de tudo ou terminar sem nada. Zero tituli, uma expressão popularizada por José Mourinho em tempos de Inter e que não passa na cabeça de nenhum torcedor ou simpatizante merengue. Na Liga BBVA, a tabela não irá requer muito esforço, mas dois jogos podem colocar em xeque o título blanco: o superclássico contra o Barcelona e o Athletic Bilbao, que já vê seus torcedores cobrando por uma atuação histórica a fim de tirar a taça das mãos do Real Madrid. Os blancos devem apostar tudo nos confrontos contra o Bayern para chegarem à histórica final e à possibilidade de conquistar La Décima. Bayern de Munich e Real Madrid; Real Madrid e Bayern de Munich. Duas das equipes que, segundo muitos, são as únicas capazes de acabar com a hegemonia do Barcelona se enfrentam na briga pela vaga na tão sonhada final. Não há dúvidas que os dois jogos serão os mais esperados da temporada europeia.

Provável escalação
Bayern de Munich: Neuer; Lahm, Boateng, Badstuber, Alaba; Luiz Gustavo, Kroos; Ribéry, Muller (Schweinsteiger), Robben; Mario Gomez.
Real Madrid: Casillas; Arbeloa, Pepe, Sergio Ramos, Marcelo; Xabi Alonso, Khedira; Di María (Kaká), Özil, Cristiano Ronaldo; Benzema.

sábado, 14 de abril de 2012

Algo mais que a permanência

Por mais uma temporada consecutiva, Real Sociedad tem queda livre monstruosa no segundo turno e despenca na tabela (reuters)

Philippe Montanier, segundo ele próprio, está se divertindo na Liga Espanhola. A mentalidade ofensiva e corajosa que a Real Sociedad adota entretém não só ele e os torcedores do clube como os fãs do futebol espanhol. Porém, a verdade é que a diversão foi ficando cada vez mais sem graça à medida que a temporada passa. Após completar 2010 no meio da tabela e com aspirações à Liga Europa, os donostiarras vêm sofrendo uma queda de rendimento. Pesa a irregularidade demonstrada mais uma nessa altura da temporada. Assim como em 2010/2011, quando chegou a terminar o primeiro turno na 5ª colocação, a reta final reserva a parte baixa da tabela.

O empate na última quarta-feira ante o Bétis deixou um sabor amargo. Os bascos não irão cair, até porque faltam somar apenas dois pontos em 15 disputados para confirmar a classificação, mas o sentimento foi novamente de queda de produção. Montanier, apelidado de Guardiola francês pela imprensa francesa em sua época de Valencienes, tem plena convicção disso. Um exemplo notório foi a visita ao Santiago Bernabéu, quando abdicou de toda sua proposta de jogo para jogar com cinco zagueiros. O resultado foi decepcionante em dose dupla, porque os blanquiazules saíram do Bernabéu goleados por 5 a 0.

Em 2012, sobretudo, as deficiências da Real Sociedad ficaram bem evidentes. A equipe, por exemplo, é dependente demais de Xabi Prieto, que organiza o todo o jogo e é o cérebro do meio-campo. Mesmo que Vela faça temporada destacável e Agirretxe seja o principal homem-gol da equipe de San Sebastián desde os tempos de Nihat e Kovacevic, quando Xabi não consegue aparecer muito para o jogo, a produção dentro das quatro linhas cai escancaradamente. O estilo ofensivo, de certa forma, também ficou manjado. Depois de serem surpreendidos por verem um time trocar passes rápido e sempre em direção ao gol, a característica dos adversários a partir de agora é sempre avançar a marcação e congestionar o meio-campo a fim de quebrar a posse de bola txuri-urdin.

Um defeito da Real Sociedad que passou a ficar escancarado é a fragilidade defensiva. Os comandados de Montanier defendem muito mal. Ao descobrirem que era preciso um pouco mais de cautela para combater os euskaras, os rivais também perceberam que a defesa da equipe era muito fraca, desorganizada, insegura e, sobretudo, péssima no jogo aérea. Só de bolas oriundas de jogadas pelo alto foram 11 gols sofridos. Enquanto o rival de Bilbao é mestre em jogadas do tipo, os de San Sebastian costumam sofrer com bolas alçadas à área. Em momentos cruciais da temporada, os blanquiazules também sofreram com ausências. Seja por lesão ou suspensão, afetaram diretamente na produção da equipe. Além disso, a falta de um Griezmann mais ousado e divertido em relação ao da temporada passada também faz falta pelos flancos do campo, infernizando a vida do lateral adversário.

Gonzalo Arconada, jogador da Real Sociedad nos anos 90, definiu bem a temporada 2011/2012 do time. São futebolistas de talento, fato evidenciado em campo, que adquirem experiência a cada partida disputada. Além disso, o projeto atual é para ter relevância no futuro, assim como, há duas temporadas, por exemplo, falávamos dessa forma da atual geração do Athletic Bilbao, que começa a colher frutos só agora em 2012. A fórmula do sucesso sempre foi formar pratas da casa e os torcedores estão se deparando com uma geração promissora. Atualmente, como disse Daniel Estrada na última quarta-feira, o objetivo é selar a permanência. Mas quem sabe daqui a três temporadas as aspirações sejam mais relevantes e os donostiarras construam uma nova era de ouro no futebol do País Basco?

sexta-feira, 13 de abril de 2012

33ª rodada: Furacão português

Cristiano Ronaldo faz sua melhor partida na temporada, ultrapassa Messi na artilharia e fica a 1 de superar seu recorde histórico de gols na Liga Espanhola (getty images)

Atlético de Madrid 1x4 Real Madrid
13 anos sem ganhar o maior rival, e contando. Mais uma vez o Atlético de Madrid foi impotente diante de seu maior rival. Após um primeiro tempo pegado em que teve oportunidades de marcar, mas viu Falcão ser pouco acionado, sucumbiu de vez nos 90 minutos finais. Cristiano Ronaldo fez o que se espera dele: ser decisivo. Anotou o gol de abertura, tirou sua equipe do sufoco e sentenciou, além de ter completado sua noite mágica com uma assistência a Callejón. Agora, as posições se inverteram: enquanto o Real Madrid mantém a vantagem de 4 pontos e pega, além do Barcelona, o Athletic Bilbao de adversário complicado, os blaugranas tem Levante, Bétis e Rayo Vallecano, equipes enjoadas em seus domínios, para enfrentar na reta final de campeonato.

Barcelona 4x0 Getafe
Um dia antes, o Barcelona novamente cumpriu sua parte. Disposto a liquidar a faturo cedo, Guardiola lançou mão de mais um volante para, acreditem, colocar um ataque. No papel, um 3-3-4 pela utilização de Cuenca na linha super ofensiva, mas o que se viu dentro de campo foi muito mais que isso: até Puyol e Adriano, que fizeram o trio de zaga com Mascherano, apareciam no ataque. O Zonal Marking, site especializado em táticas, definiu como 1-5-4. Uma evidência notada em jogo foi o setor por onde utilizar Alexis. Limitado jogando aberto à direito, o chileno mais uma vez foi bem atuando no flanco esquerdo, onde ajeito para sua perna boa e sempre cria boas oportunidades. Foram dois gols, que valeram pelo 13º na temporada, sua melhor marca desde que chegou à Europa.

Valencia 4x1 Rayo Vallecano
Com a moral elevada pelo empate conquistado no Santiago Bernabéu, o Valencia conquistou três pontos importantes. Sem Soldado e Aduriz, Unai Emery optou por utilizar Jonas em sua posição de origem, na referência do ataque. O brasileiro não decepcionou e fez dois gols, tendo seu nome gritado pela torcida ché. Contudo, o nome mais falado da noite foi Canales. Após seis meses parado devido a um rompimento dos ligamentos do joelho, El Principito retornou e desfilou classe: foi o autor de uma assistência milimétrica para o gol de Pablo Hernández. A reta final de temporada será importante para o jovem, que ainda sonha em disputa as Olimpíadas. Com sequência e voltando a jogar o futebol visto no Racing Santander, é nome obrigatória no grupo que vai a Londres tentar o bi olímpico.

Villarreal 2x1 Málaga
Submarino Amarelo emergente. O cenário de filme foi visto no El Madrigal. Os torcedores estavam impacientes, mostravam rosto de indignação, a zona de rebaixamento começava a ficar próxima novamente. Mas eis que, aos 49 minutos do segundo, no último suspiro da partida, Hernán Pérez mudou todo o contexto da partida. Marcou o gol que decretou a virada amarilla e tirou Miguél Ángel Lotina do sufoco. No lado blanquiazul, Cazorla voltou a ficar frente a frente com a torcida castellonense, mas dessa vez pela primeira vez como jogador do Málaga. Marcou, não comemorou e foi aplaudido.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Rayo de orgulho

Os motivos para comemorar são muitos no Rayo Vallecano. Equipe superou adversidades por mais um ano e irá se manter na elite espanhola (getty images)

No complemento da 33ª rodada, o Rayo Vallecano foi derrotado pelo Valencia por 4x1. Um resultado que poderia até ter sido maior devido ao domínio amplo dos chés, impussionados pelo empate conquistado no Santiago Bernabéu. O assunto em questão é o derrotado da noite. Goleado e sem saber o que fazer perante a avalanche ché, os rayistas foram por água abaixo. Entretanto, a temporada feita pela equipe treinada por Ramón Sandoval é digna de orgulho. No último sábado, por exemplo, ao golear o Osasuna por 6x0 chegou a maior vitória de sua história. Apesar da sequência ruim, com apenas duas vitórias em seis jogos, é muito provável que o Rayo se mantenha na elite espanhola. Para isso, basta somar mais três pontos em 15 disputados.

É preciso voltar a meados da temporada passada, quando os vallecanos disputavam a Liga Adelante. A primeira demonstração de que esse time poderia além foi vencer as adversidades e conquistar uma vaga no grupo de acesso à Liga BBVA. Durante a disputa da Liga Adelante as dívidas chegaram a estar entre 40 e 80 milhões de euros, fora o quase um ano de salários atrasados — a ponto de torcedores terem organizado movimentos para arrecadar dinheiro e ajudar no pagamento de jogadores, garotos da base e funcionários do clube. Em matéria ao site da Trivela, Lincoln Chaves escreveu com palavras certas a situação dos franjiroys.

"Para complicar, em fevereiro do ano passado, a Nueva Rumasa, conglomerado de empresas (dentre as quais fazia parte o Rayo) presidido por José Maria Ruiz-Mateos, entrou na fase que antecede ao que os espanhois chamam de Ley Concursal — em linhas gerais, é quando a gestão fiscal da agremiação passa a ocorrer sob intervenção jurídica. Mas a situação ainda ficaria mais complicada. Em maio, Ruiz-Mateos se desfez de quase 99% das ações dos Franjirrojos e jogou a bomba para o empresário Raúl Martín Presa. Embora inicialmente receoso, o novo dono viu que o buraco era grande demais e solicitou a entrada do Rayo na etapa seguinte da Ley Concursal, confiando que isso deixaria a adminstração mais tranquila para tocar o dia-a-dia do clube, ainda que sem a completa autonomia de outrora.

Com um elenco limitado até para a disputa da segundona espanhola, viria a parte mais preocupante de todo o processo da volta à elite: o pouco dinheiro para reforçar o plantel. O clube iniciou a temporada diante de gravíssima crise financeira. Diversas tentativas de renegociação de salários e dívidas foram buscadas, com reduções de ordenados que chegavam a 80%. Havia o risco até mesmo de que vários jogadores e membros da comissão técnica — dentre eles o próprio técnico José Ramón Sandoval (que até chegou a pedir demissão, mas acabou permanecendo) — fossem liberados. Tudo isso semanas antes da estreia na Liga contra o Athletic Bilbao. Não a toa, pouquíssimos imaginavam que o Rayo tivesse alguma chance de escapar do rebaixamento. Aliás, havia dúvidas até mesmo das condições do clube sobreviver até o fim do campeonato.Assim como na temporada anterior, se administrativamente a crise persistia, em campo as coisas caminharam muito melhor que a encomenda".

Após 33 rodadas, o Rayo Vallecano não figurou uma única vez na zona de rebaixamento. A manuntenção de jogadores como Casado, Movilla e Michu tem sido um golpe na manga da diretoria. Michu, por exemplo, faz Liga incontestável: autor de 15 gols, é o artilheiro da equipe e tem um repertório maior de jogadas e de finalizações Dos reforços, quem mais chama atenção é Diego Costa. Contratado sob dúvidas após um ano e meio parado devido a uma lesão séria no joelho, o brasileiro tem estado acima das expectativas. Tornou-se peça chave do esquema de Sandoval e conquistou a torcida. O Marca já especula a contratação definitiva do atacante, que pertence ao Atlético de Madrid.

No segundo turno, o Rayo mostrou uma faceta mais impressionante: seguro, pressionando o adversário com e sem a bola e criando chances incotáveis de gols. A maior demonstração de poderio foi na, ironicamente, derrota para o Real Madrid. O dérbi levou os merengues a um cenário de desconforto pouco visto na temporada, mas um tento de calcanhar de Cristiano Ronaldo decidiu o jogo (sem esquecer dos possíveis pênaltis não marcados). Se a Europa, há algumas rodadas, chegou a ser um sonho possível, atualmente é improvável uma vaga na Liga Europa. Mas o importante é que os rayistas estão a um passo da salvação, o que pode ser comemorado como um título pela fanática torcida.

terça-feira, 10 de abril de 2012

32ª rodada: Tensão

Cristiano Ronaldo se desespera: Real Madrid vai conseguir entrega uma Liga praticamente sentenciada? (getty images)

Real Madrid 0x0 Valencia
Em Chamartín, o momento é tenso. O novo tropeço representa acima de tudo a proximidade do Barcelona. Com 4 de diferenças, Mourinho começa a se preocupar. Jogando com inteligência e paciência, o Valencia sai do Bernabéu com a moral elevada para a disputa pela Champions League. O Marca brincou: "os morcegos jogaram como vampíros". O Valencia não apenas se defendeu com competência, como foi constantemente perigoso nos contragolpes. A bola na trave de Cristiano Ronaldo foi respondida por uma de Ricardo Costa, em uma cabeçada que pegou toda a defesa batida, pedindo um impedimento que não existia. Restando sete rodadas, incluindo um confronto direto muito aguardado no Camp Nou dentro de duas semanas, a liga está muito aberta, e o lado psicológico terá muita influência no que vem pela frente.

Zaragoza 1x4 Barcelona
Enquanto isso, o Barcelona dá vida a perseguição. Em um bom jogo em Aragão, saiu na frente após o gol de Aranda, mas manteve a calma e chegou a virada ainda no primeiro tempo, com Puyol e Messi. Com o gol na segunda etapa, Messi chegou ao doblete a 38 no campeonato, superando o rival Cristiano Ronaldo e chegando aos 63 na temporada, igualando a marca histórica de Gerd Müller. Por sua vez, após uma sequência positiva de resultados, o Zaragoza voltou a ver derrotas pela frente e, mais uma vez, se vê ameaçado pelo rebaixamento: está a cinco pontos do Villarreal e enfrenta o Sevilla na Andaluzia na próxima rodada. Vida complicada dos maños.

Rayo Vallecano 6x0 Osasuna
Histórico: o Rayo Vallecano obteve a maior vitória de sua história no Teresa Rivero. A goleada sobre um Osasuna frágil, cada vez mais dando mostras de perda de força na reta final, é um golpe de rendenção dos franjiroyos: mesmo vivendo uma crise interna, sem muito dinheiro para contratar e no processo de mudança de donos, os comandados Ramón Sandoval jogam com raça, pela torcida e está a um passo de garantir a manuntenção na elite espanhola. Uma vitória da garra. Os principais destaques continuam sendo Michu e Diego Costa: enquanto o primeiro é o artilheiro da equipe na Liga com 9 gols, o brasileiro tornou-se essencial e peça-chave no ataque.

Málaga 3x0 Racing Santander
Quem segura o Málaga? Mesmo passando por um período delicado devido a lesões de alguns de seus jogadores principais, os blanquiazules estão ilusionados pela provável ida à próxima LC. Contra o fraco Racing Santander, muito próximo do rebaixamento, não tiveram piedade e atropelaram, podendo até feito mais gols. Na reta final de campeonato, um nome aparece como decisivo: trata-se, acreditem, de van Nistelrooy, que não deve renovar com o clube, mas tem feitos gols importantes nos últimos jogos. Isco e Cazorla continuam com a boa forma do início de temporada e seguem cruciais.

Seleção da rodada
Guaita (Valencia); Iraola (Athletic Bilbao), Tito (Rayo Vallecano), Puyol (Barcelona); Topal (Valencia), Dani Parejo (Valencia), Barkero (Levante), Vela (Real Sociedad); Susaeta (Athletic Bilbao), Diego Costa (Rayo Vallecano), Rúben Castro (Real Bétis). Treinador: Unai Emery (Valencia).

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Evolução

Fase do Valencia não é a melhor da temporada, mas empate conquistado em pleno Santiago Bernabéu ante o líder do campeonato Real Madrid evidencia que chés ainda são a terceira força do futebol espanhol (getty images)

Que o Valencia tem uma dificuldade crônica para se defender, todo mundo sabe. Víctor Ruíz não inspira confiança há tempos, o futebol de Rami caiu substancialmente e Jordi Alba, apesar de bom lateral, é uma espécie de Marcelo espanhol: ninguém duvida de sua capacidade quanto às jogadas ofensivas, a desconfiança vem na marcação. Mas, no confronto de contra o Real Madrid, a ineficiência do ataque merengue não foi exatamente o principal culpado pelo empate por 0x0 no Bernabéu. A passividade e tranquilidade dos chés chamaram mais atenção. Com Topal no lugar de Jonas para ganhar mais força na marcação no meio-campo e Guaita muito inspirado na defesa, Unai Emery, bastante contestado em Paterna, mandou uma mensagem às outras equipes com potencial: é preciso inteligência e, acima de qualquer coisa, obediência tática para sair do Bernabéu com 1 ponto pelo menos.

Antes do Valencia, 15 times haviam visitado o Bernabéu na liga. Só dois haviam conseguido tirar pontos: o Barcelona, que venceu, e o Málaga, que empatou. Onze deles levaram pelo menos quatro gols. O Valencia, por sua vez, tinha somado apenas um ponto nas últimas três rodadas, jogando fora a boa vantagem que havia construído na terceira colocação e até correndo riscos de cair para o quarto lugar: basta um empate do Málaga contra o Racing Santander em jogo que se inicia daqui a pouco para os chés perderem uma posição na tabela. No empate por 1 a 1 com o Levante, uma semana atrás, os torcedores protestaram contra o técnico Unai Emery e pediram sua demissão. A goleada sobre o AZ, pela Liga Europa, devolveu um pouco da confiança.

O Valencia se reconciliou com a torcida após uma partida séria e contundente ante os holandeses que garantiu o passaporte às semifinais da Liga Europa. Recuperou sua verdadeira imagem, pressionou os 90 minutos o adversário e chegou a quatro gols, jogando para longe a faceta das partidas anteriores. No Bernabéu, Emery optou por não forçar Soldado, com problemas físicos, e utilizou Aduriz na referência de seu 4-3-2-1. O Valencia, é bom lembrar, não só se defendeu durante os 90 minutos. Teve oportunidades de marcar e, em contra-ataques, levou perigo ao gol de Casillas, sobretudo nos 15 minutos finais, quando Mourinho lançou mão de qualquer tática para ir para cima e buscar os três pontos, deixando os merengues à mercê do contra-ataque.

Mas a satisfação dos blanquinegros com o empate podia ser captada em outros aspectos, bem além de uma escalação mais conservadora que a habitual. As linhas retraídas no início do jogo para segurar o ímpeto madridista, a quase completa dependência de Feghouli e Alba para agredir o adversário na ausência de seu principal centroavante e a demora nas reposições de bola foram indícios de que o 49º ponto na Liga BBVA valia muito mais do que o risco de perdê-lo e permitir o avanço de Levante e Málaga na tabela. Ainda que saíra de campo sabendo que o Málaga tem 85% de chances de ultrapassá-lo na tabela, o aspecto psicológico da equipe, sob riscos pelos tropeços das rodadas anteriores, é um trunfo na briga pela vaga direta na Champions (ou, como estão dizendo, pelo título da Liga dos Humanos). O Valencia deixou claro: mesmo passando por uma fase delicada, continua sendo a terceira força do futebol espanhol.

Você pode questionar os métodos e a ambição no Santiago Bernabéu, mas é difícil negar a evolução em relação as temporadas passadas. Mesmo sem nenhum destaque do peso de David Villa, David Silva ou Juan Mata, o time, programado para correr e atacar, com um futebol sempre ofensivo, mostrou ter coragem para se defender e permite a Unai Emery contrariar o DNA ofensivo quando ele achar necessário. A boa partida de Víctor Ruíz pode representar a volta da boa fase vista antes da fatídica partida no Stamford Bridge, em dezembro passado, que marcou a eliminação do Valencia na fase de grupos da LC. Dificilmente o treinador permanecerá para a próxima temporada, mas a reta final de 2011/2012 pode definir uma saída pelas portas da frente do Mestalla. E está mais do que claro: os chés são favoritos para o título da Liga Europa.

Em seu blog no site da ESPN, o jornalista Leonardo Bertozzi falou mais sobre Real Madrid x Valencia. A crônica de um 0 x 0 eletrizante. Clique
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