sexta-feira, 27 de abril de 2012

O adeus do mister


A vida é eterno perde e ganha. Num dia você perde, no outro você apanha. Hoje de manhã, Guardiola acordou mais cedo do que de costume. Tomou banho, lavou bem seu rosto e partiu para uma decisão que entristeceu todo o barcelonismo: não continuar mais treinando o Barcelona a partir da próxima temporada. A coletiva mais emocionante de uma das eras mais bonitas do futebol mundial durou 1 hora. Nela, Guardiola explicou tudo. Além disso, Sandro Rosell aproveitou para dizer o nome novo treinador, surpreendendo a todos: trata-se de Tito Villanova, auxiliar técnico de Guardiola.

Rinus Michels na década de 70. Johan Cruyff no início dos anos 1990. Josep Guardiola de 2008 a 2012. Em comum entre eles, mais do que nomes com o mesmo número de letras. Pep, que chegou desconhecido e desacreditado ao Barcelona, era a continuação de uma sina. Veio, viu, venceu. Daqui a um mês, vai abandonar o Barcelona, mas continuará vivo nos corações de cada culé. Sai do clube pela porta da frente, num tapete vermelho estendido unicamente para ele. Durante 4 anos, montou um time que encantou, pulverizou recordes e deixou o mundo inteiro boquiaberto. Em 4 anos, foram 13 títulos. Agora, Guardiola encara um novo desafio: levar a proposta de futebol bonito ao seu próximo clube, que saberemos ao longo do tempo. Em suas mãos está a missão de garimpar novos Messis, Xavis e Iniesta.

Ironia do destino, Guardiola chegou ao clube A de maneira semelhante ao de Tito. Em 2007, assumiu o Barcelona Atlétic. Logo em seu primeiro ano, foi campeão da Terceira Divisão, chegando a Segunda División B um ano depois após conseguir o acesso passando pela fase de promoção. Quando a era Rijkaard chegou ao fim, as atenções voltaram-se a José Mourinho, cotado para treinar o Barcelona. A cúpula barcelonista teve que escolher entre o português e o jovem Guardiola. Com as exigências feitas por Mourinho, não tiveram dúvida: Guardiola seria o novo treinador. Na bagagem, Pep trouxe mais dúvidas do que esperanças. Quatro anos depois, contudo, a desconfiança foi para o ralo, e o careca entrou para a história. O ex-volante tem no currículo os títulos nacionais de 2009, 2010 e 2011. Por duas vezes, conquistou a Europa (em 2009 e 2011). O mundo já foi seu também por duas vezes: 2009 e 2011. As estatísticas de Guardiola são elucidativas: orientou 242 partidas do Barcelona, ganhou 72%, a equipe marcou 618 gols e teve uma média de 67% de posse de bola.

Guardiola, produto de La Masía, recuperou toda a honra do barcelonismo. Sua aposta em jogadores da base foram um dos principais pontos de sucesso durante esses 4 anos. Na última final da Champions League, 7 dos 11 iniciais foram formados nas canteras blaugranas. Apostou em jogadores que tornaram-se sucesso como Pedro e Busquets, recuperou um canterano enterrado em Manchester como Piqué, transformou Lionel Messi, craque mas derrotado sempre pelas lesões, em melhor do mundo, Puyol, eterno capitão mas sempre estabanado, em um dos melhores de sua posição, Víctor Valdés em goleiro confiável e Xavi, subestimado durante o período de Rijkaard, num dos melhores passadores de todos os tempos. Sem falar em Iniesta, um dos melhores meio-campistas do mundo. Com essas modificações e novidades, conseguiu trabalhar. Montou um Barcelona fadado ao sucesso. Pressão intensiva, busca pela posse de bola, coletivismo, trabalho em grupo, atacar e dominar sempre o jogo.

Antes de Guardiola, foram 2 anos regados por espera e sofrimento. Mais de 3 anos sem conquistar a tão cobiçada taça da Champions League. Em âmbito nacional, viu o Real Madrid quebrar a hegemonia e conquistar o bi-espanhol. O sabor de um título jazia no paladar do torcedor blaugrana como um gosto distante. Perdido no banquete das desilusões. Mas o martírio teve fim. E deixou cada culé de barriga cheia. Bastou só 1 ano. Nesse tempo, Guardiola entrou para a história. Liga Espanhola, Copa do Rei, Uefa Champions League, Supercopa da Espanha, Supercopa da Uefa e Mundial de Clubes. Momentos especiais pedem pessoas especiais. Guardiola, o volante inteligente, o treinador em campo, o desconhecido, saiu da filial para brilhar no time A. As cinco letras voltavam ao Camp Nou para cumprir a sina. Catalunha era do Barcelona. O Barcelona era de Guardiola. Nascia um ídolo. Se despede um mito.

4 comentários:

  1. Douglas Muniz da Silva27 de abril de 2012 22:21

    Sinti vontade de chorar, me lembro quando mais novo que gostava mais do Real do que do Barça, talvez pelo clube azulgrená me passar a impressão de empáfia ou porque esse time do Rijkaard 2003-08 não me agradar em alguns aspectos que se passavam despercebidos pela mídia (sobretudo a brasileira) que deliravam com qualquer jogada, por mais simples que fosse do Ronaldinho Gaúcho. Mas esse Barça de Pep tinha mais, muito mais do que sempre gostei do futebol (não apenas em campo) mas fora dele, com a seriedade dos seus jogadores, comprometimento com o que se propõe, solidariedade entre todos, sem querer demonstrar superioridade de um sobre o outro, algo que era sempre visto entre Eto'o e Ronaldinho. Essa equipe de Pep foi brilhante e elegante também por isso e também por refletir a personalidade do seu técnico.

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  2. Pep não quis botar fim nas discussões sobre qual foi o maior time da história! Mas valeu a pena. Muito obrigado, Pep!

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