segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Messias da bola

O dia 9 de janeiro de 2012 está eternizado na história do futebol. Foi a data que consagrou, definitivamente, um dos maiores craques pós-Pelé. A premiação de melhor jogador do mundo, que juntou pela segunda vez a Fifa e a Bola de Ouro da France Football, entregou a Messi o troféu de melhor pela terceira vez consecutiva, igualando nomes como Platini, Cruyff, Van Basten, Zidane e Ronaldo. A distancia da Pulga de Rosário para seus rivais é tão grande que Cristiano Ronaldo, talvez o único que possa tirar o prêmio das mãos do argentino nos próximos anos, parece apenas um jogador normal comparado ao blaugrana. Os feitos do português, que conseguiu fazer 41 gols em uma única edição de Liga Espanhola, parecem algo comum quando relacionados com os do blaugrana.

Hoje, o futebol comemora. A relação de Messi com a bola sempre foi de amor. A carreira tem felicidades, lágrimas, como, até o momento, as decepções por ter falhado em duas Copas disputadas, mas nunca faltou sentimento. Messi só existe um. Virão anos, décadas, séculos, gols, sincronias e sinais. Mensagens do além, dos céus, dos gramados. Um camisa 10 de 1,69 de altura que exala genialidade a cada partida. Seu namoro com a bola é precoce. Há mais de 20 anos, numa tarde em família, seu pai, ao lado de tios, primos e amigos, preparava-se para disputar uma tradicional pelada. Faltava um. Quis o destino que a criança Messi, com apenas cinco anos, completasse uma das equipes. "Dizem que, assim que eu toquei na bola, todos ficaram surpresos, como se já soubesse do que se tratava isso", disse em uma entrevista ao Mundo Deportivo em 2006.

Na família, ninguém suspeitava de que ali brotava um craque. À exceção de sua falecida avó, Celia, mãe de sua mãe. Foi ela quem o presenteou com a primeira bola e convenceu o genro, Jorge Messi, do talento do moleque franzino. O pai não teve escolha: levou La Pulga para treinar no Grandoli, pequeno clube de seu bairro. Durou apenas um ano a aventura do craque no clube. O próximo passo foi a ida para o Newell's Old Boys, paixão desde sempre e onde Messi sempre ratifica que atuará profissionalmente um dia. O amor do clube com o jogador, no entanto, não foi recíproco. Os Leprosos viraram as costas a Messi justamente quando este mais precisava. Lionel descobrira que possuia um problema de crescimento. O destino, novamente e, dessa vez, ironicamente, acertou. Foi justamente no maior drama da vida da Pulga que o levou ao clube onde, atualmente, desfila classe e é idolatrado.

A profecia que nasceu na Argentina se alastrou à Catalunha. No Barcelona, chegou aos 13 anos. Baixo demais, franzino demais, moleque demais. Acima de tudo, craque demais. Bastou isso para Messi cruzar o Atlântico e fazer história. Viajou com seu pai, deixando em Rosário sua mãe e seus irmãos. Em seu primeiro teste, o gigante da Catalunha não deu chance ao azar. Carlos Rexach o contratou vendo-o jogar por instantes. O catalão fica impressionado até hoje: "Eu o contratei em 30 segundos! Ele me chamou muita atenção. Em meus 40 anos de futebol, jamais havia visto coisa semelhante. De cinco situações de gol, converteu quatro. E tem uma habilidade excepcional. Me lembrou o melhor Maradona. Seu primeiro contrato eu assinei, simbolicamente, em um guardanapo. Queria contratá-lo o quanto antes. Não podia deixá-lo escapar", afirma.

Senhor do próprio destino, fez do calvário a estrada para a redenção. O destino desafiou, ele respondeu. Messi tem a eterna sede dos imortais. Não lhe satisfaz a arrancada, o drible ou o gol. Tem que estar tudo completo. Não lhe satisfaz se, com apenas 24 anos, possui um currículo invejável. São 3 Champions League, 5 Ligas Espanholas, 2 Mundial de Clubes, além de Supercopas da Uefa e da Espanha e Copa do Rei. Tem que vir tudo junto. Não lhe satisfaz se, com apenas seis temporadas na carreira, já possui 217 gols e 87 assistências. Já é o segundo maior artilheiro da história do Barcelona, ficando 18 gols atrás de César Rodríguez, o maior. La Pulga faz jus ao "quanto mais, melhor". O céu é o limite de Messi.

Todo mundo já sabe o final, mas não cansa de assistir. Messi não seria o mesmo sem as peças que o destino lhe pregou. Foram as voltas por cima que fizeram dele o que ele é, vitórias e derrotas, baques e recomeços, gols, títulos, arrancadas e dribles, o mundo estupefato com suas jogadas, furacão em campo. Um jornalista pernambucano, Wagner Sarmento, o definiu bem, uma vez. Messi é o pesadelo dos superlativos e o sonho dos neologismos. É preciso inventar novas palavras em que caibam seu brilho. No futuro, talvez Messi se torne um adjetivo. Sinônimo de maior.

Parabéns, Messi!

domingo, 8 de janeiro de 2012

A implicância chata com Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo marcou seu 21º gol na Liga BBVA contra o Granada e não comemorou. Foi notícia, claro (getty images)

Marrento. Polêmico. Craque. Estes são alguns dos adjetivos que são atribuidos diariamente a Cristiano Ronaldo. Filho ilustre da Ilha da Madeira, teve o nome dado por sua mãe Dolores em homenagem ao então presidente dos EUA, Ronald Reagan. Com pouca idade, perdeu seu pai, Dinis Aveiro, e cresceu muito ligado aos seus irmãos Hugo, Cátia e Elma. Uma infância de muitas dificuldades, mas repleta de sonhos. Hoje, o que Cristiano Ronaldo faz em sua vida pessoal vira notícia. Mas, muita das vezes, negativas. A implicância da mídia para com o português começa a extrapolar.

Se ele, a pedido de Mourinho, resolve não viajar a uma premiação onde não será o ganhador em prol de uma preparação especial para um duelo decisivo, foi o egocentrismo que falou mais alto. Se sua equipe não joga bem contra o Barcelona, apenas ele é taxado de pipoqueiro. Se ele marca três gols e resolve, dessa vez, criticar quem o critica, é taxado de chato. Se ele marca seu 21º gol numa competição onde é o artilheiro disparado, a ponto de deixar o melhor jogador do mundo quatro gols atrás, e não comemora, justamente por ter sido o quinto gol de uma partida que foi 5 a 1, também é criticado. O fato é: o que Cristiano Ronaldo toca vira ouro. São picuinhas desnecessárias para criarem certo tipos de notícias. Querem de Ronaldo uma pessoa semelhante a Messi. Esqueçam. Sua personalidade é forte e isso é problema dele. Seu brilho ninguém tira. Cristiano Ronaldo é a fantasia objetiva.

O talento já brotava nos campinhos do Funchal e no Andorinha, clube em que deu seus primeiros chutes. Dali, despertou os olheiros do Nacional, que descobriam grande talento. Aos 11 anos, o desafio de ir para as divisões de base do Sporting, um dos maiores clubes de Portugal. Foi ali que ele cresceu e amadureceu, deixando de ser promessa e se tornando realidade. Foram seis anos encarando os sacrifícios de sua ousada escolha. Mas ele seria recompensado. No jogo de estréia do Estádio Alvalade Século XXI, entre Sporting e Manchester United, o abusado meia-atacante simplesmente levou os ingleses à loucura, com dribles desconcertantes. Foi o suficiente para que os próprios jogadores do time britânico pedissem sua contratação ao técnico Alex Ferguson. A negociação foi 12 milhões de libras (cerca de R$ 41 milhões).

A partir de 2003, Ronaldo surgiu para o estrelato com a camisa dos Diabos Vermelhos. Desde então, coleciona casos polêmicos, como envolvimento com prostitutas e o acidente com sua Ferrari novinha. Em campo, porém, não há como negar seu sucesso. No clube britânico, foram sete títulos e atuações memoráveis, que levaram José Mourinho, à época, a chamá-lo de "o filho de Van Basten", em alusão ao grande atacante holandês do fim da década de 80. Atuações de galas e com um prêmio de melhor do mundo na bagagem levaram o português da camisa sete ao sonho de infância: atuar pelo Real Madrid, "maior clube da história", segundo o próprio.

Na capital espanhola, Ronaldo se consolidou de vez. Chegou, em apenas 2 anos e meio, a 112 gols em sensacionais 112 jogos. Uma marca absurda: média de um por jogo. Conseguiu, a efeito de comparação, ultrapassar Ronaldo Fenômeno mesmo não jogando com Figo, Beckham e Zidane. Detalhe: o brasileiro conseguiu 101 gols em cinco anos. Os 94 milhões de euros pagos por Florentino Pérez em junho de 2009, que tornou a transferência mais cara da história do futebol, são recompensados a cada jogo. Na primeira temporada como merengue, um gostinho de quero mais. Uma lesão no tornozelo o tirou de dois meses da temporada e dois cartões vermelhos mancharam sua temporada.

Em 2010/2011, o gajo foi extraterrestre. Pulverizou recordes. Foram 40 gols na Liga, tornando-se recordista de gols em uma única edição de Liga BBVA. Na temporada, foram 53 gols, tornando-se recordista de gols em uma única temporada pelo Real Madrid. De esquerda, de direita, de falta, de cabeça, de pênalti. Teve gols de tudo que é forma. Para trás, nada mais nada menos que Púskas, Zarra. A história foi escrita. Cristiano Ronaldo tem uma história rica no futebol. Podem chamá-lo de tudo: prepotente, marrento, arrogante, chato, pipoqueiro. Porém, o garoto da Madeira driblou, literalmente, todas as batalhas da vida e já escreveu seu nome na galeria dos grandes craques da história do futebol. Queiram ou não.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A última chance


José Antonio Reyes chega a um novo clube como esperança de dar novo gás ao meio-campo com sua velocidade, habilidade e, principalmente, potencial de ser decisivo. Essa frase já foi escrita inúmeras de vezes, tantas que não seria estranho se, em algumas décadas, ela aparecesse no epitáfio do jogador. Bem, ela foi muito constante nesse 6 de janeiro, Dia de Reis, quando se (re)apresentou ao Sevilla, clube que o formou.

O meio-campista é um fenômeno. Surgiu como talento precoce até para os padrões sevillistas. Tornou-se o jogador mais jovem do Sevilla a defender o clube na primeira divisão, ao estrear em 2000, com apenas 16 anos. Teve grandes temporadas em um time que ainda tentava reencontrar seu espaço entre os grandes da Espanha depois de um traumático rebaixamento. Acabou vendido ao Arsenal por 24,5 milhões de euros em 2004, em mais uma das apostas de Arsène Wenger em garotos.

Não vingou em Highbury (também não vingou no Emirates) e foi emprestado ao Real Madrid, em troca de Júlio Baptista. Fez dois gols no jogo que deu um título espanhol aos merengues, mas não convenceu. Foi devolvido, mas nem saiu direito da capital espanhola, pois o Atlético de Madrid pagou 12 milhões de euros para tê-lo ao lado de Simão Sabrosa na armação do jogo. Não se firmou e foi emprestado ao Benfica, que queria estrelas para fazer frente ao Porto. Não fez o suficiente para ficar e retornou ao Atlético de Madrid. Nesse vaivém, Reyes nunca foi mal o suficiente para ganhar o rótulo de fracasso, mas jamais esteve perto de se tornar o ícone de sua geração no futebol espanhol (é apenas um ano mais velho que Iniesta). É um jogador de (alguns) altos e (muitos) baixos, que fica alheio ao jogo em diversos momentos, e que parece aceitar que não vai explodir.

O histórico não é dos mais otimistas, mas o Sevilla até tem seus motivos para acreditar no já desgastado “agora vai”. O time tem necessidade de um jogador com as características do ex-colchonero. O meio-campo sevillista joga com Medel e Trochowski na marcação, Jesús Navas armando pela direita, Rakitic pelo meio e Perrotti pela esquerda. Manu Del Moral, vez ou outra, aparece na equipe titular. No entanto, não convenceu ainda, o que obrigou Marcelino a experimentar sistema de jogo com dois atacantes (e quatro no meio-campo). Tudo leva a crer que deve sobrar para Rakitic, em fase péssima. O croata, que se destacou na temporada passada, ainda não apareceu em 2011/2012. Reyes também pode entrar no espaço que deveria ser de Manu ou Perrotti. Ele joga entre o centro do campo e a esquerda, com tendência a buscar a ponta. Se voltar a praticar o futebol de seu início de carreira (e é essa a esperança dos sevillistas), seria uma versão canhota de Navas, deixando o time menos torto para um lado do campo.

Mas a questão tática é um detalhe. O que os sevillistas contam é com um novo ânimo do jogador. Reyes pediu para ser liberado pelo Atlético de Madrid, pois havia brigado com o técnico colchonero Gregório Manzano (que deixou o cargo na mesma época) e queria retornar a seu clube de origem. Espera voltar às origens, a um lugar em que é querido e seus baixos são tão desculpados quanto seus altos serão saudados. Reyes sempre teve dificuldade de lidar com a pressão de sempre justificar os altos investimentos feitos nele. Talvez agora, sem essa cobrança, possa se soltar. Não significa que será um craque. Significa que pode, ao menos, se divertir com sua profissão.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Futebol de primeira

Todos em cima de Agirretxe. O jovem é a grata surpresa da Real Sociedad na temporada (AS)

Nos dois jogos de ontem da Copa do Rei, Real Sociedad e Barcelona bateram com autoridade seus adversários, Mallorca e Osasuna, respectivamente, e se aproximaram das quartas-de-finais da competição. A vitória azulgrená já era esperada, e ainda saiu com dois gols de Messi, que começou no banco, por suspeita de gripe, deixando o treinador rojillo, Mendillibar, indignado. No caso do jogo do Anoeta, a melhor notícia que Phillipe Montanier, treinador da Real Sociedad, poderia receber foi a forma com a qual a sua equipe construiu o resultado.

Fulminante é a palavra que descreve os dois a zero no País Basco. Com um futebol atraente e avassalador, os txuri-urdins engoliram o Mallorca e, em certa forma, o resultado até foi mentiroso. O dois gols "apenas" não condiz com o que foi o jogo, já que os visitantes poderiam sair de San Sebastian com uma goleada na bagagem. Os aficionados viram uma Real Sociedad avassaladora. Um prêmio justo para a equipe que entrou em campo disposta a decidir. No início da temporada, a expectativa era de um futebol praticado desta forma. A contratação de Montanier ilusionou os torcedores. Enquanto treinador do Valenciennes, fora apelidade pelo L'Equipe como Guardiola francês. Não por acaso.

A proposta de jogo do treinador chama atenção. Mesmo com um elenco limitado, o francês põe sua equipe para frente. Jogou assim nas partidas contra Barcelona e Real Madrid e foi elogiado: conseguiu empatar contra os blaugranas (2 a 2) e jogou melhor ante os blancos, apesar da derrota por 1 a 0, graças a um tento precoce de Higuaín no primeiro tempo. Basicamente, a base da atual temporada é a mesma da passada. A única mudança substancial é a que tem dado certo. Enquanto Tamudo era a referência no ataque em 2010/2011, hoje quem ocupa esse cargo é Agirretxe. E com louvor. É o artilheiro da equipe na temporada com 6 gols (tem 9 totalizando todas as competições), o que já valeu uma renovação no contrato. Um dia anterior ao confronto contra os baleares, a diretoria blanquiazul renovou até 30 de junho de 2015 com seu centroavante.

Outro que aparece positivamente é o meio-campista Zurutuza. Uma das armas de Montanier, o francês dá uma sustentação necessário ao meio-campo. Um dos trunfos do "Guardiola francês" é justamente a linha de três de seu 4-2-3-1. As posições dos meio-campistas não são bem demarcadas. Um exeplo claro é Xabi Prieto. Acostumado a atuar centralizado, no suporte ao atacante, durante o período de Luis García Plaza como treinador da equipe, o camisa dez, melhor jogador na temporada passada, teve de se habituar aos princípios do novo treinador, que lhe oferece o lado direito em vários momentos de uma partida. Em certos jogos, Xabi chega a aparecer até na esquerda, onde brilha o craque da Real Sociedad.

Griezmann vai a cada dia se consolidando. O assédio de Arsenal e Atlético de Madrid no verão passado foi uma prévia do que viria. O jovem surgiu durante a campanha de promoção à elite, em 2009/10, e confirmou as expectativas na primeira divisão. Hoje, já é essencial à equipe. Os vários rodízios com Vela no início da competição criaram dúvidas quanto a importância do extremo no elenco. Mas, a cada partida, as dúvidas de Montanier foram dissipando-se. Já não há mais objeção de quem é o titular, embora Vela, em algumas ocasiões, aparece no onze inicial. A manutenção desse desempenho é, por sinal, imprescindível a uma equipe que está próxima do retorno às quartas-de-finais da Copa após a 14 anos e tem um futebol de primeira divisão.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Málaga pode mais

O Málaga teve a vitória contra o Real Madrid nas mãos, mas deixou escapar. Apesar disso, tem o que comemorar (reuters)

A Copa do Rei chega às oitavas-de-finais com contornos peculiares. As precoces eliminações de Atlético de Madrid e Villarreal para Albacete e Mirandés parece não ter sido obra do acaso. Os dois pequenos aprontaram para cima de Athletic Bilbao e Racing Santander, respectivamente. Apesar de não vencer, a equipe de Castilla La-Mancha impôs um cenário de desconforto ao Athletic Bilbao, mas, por culpa da jornada inspirada de Iraizoz, não conseguiu tirar o zero do marcador. O Mirandés, que eliminou o Villarreal e teve participação direta na demissão de Garrido, foi além e fez uma nova vítima: venceu o Racing Santander por 2 a 0.

A chance de haver surpresas e desequilíbrio nas próximas fases é, conforme ensina a história, considerável. O Alcorcón, que eliminou o Real Madrid há duas temporadas, já despachou o Zaragoza na fase 16 avos e, ontem, saiu na frente no duelo contra o Levante ao fazer 2 a 1 no quarto colocado da primeira divisão. A tarefa passou a ser difícil após o gol de Pallardó, que obriga os azulgrenás a vencerem pelo placar mínimo para avançar de fase. Mas não podemos subestimar o "poder de decisão" (está entre aspas, hein) dessas equipes: as possibilidades de zebras são enormes e plausíveis.

Os favoritos para levar a competição são, comos sempre, Barcelona e Real Madrid, com Valencia e Sevilla, que se enfrentam nesta fase, aparecendo em segundo plano. Os andaluzes não vivem um momento bom, mas sabem, como ninguém, como disputar uma Copa. Nas últimas temporadas, foram dois títulos, além de quatro participações em semifinais. O sorteio favoreceu os dois gigantes nas oitavas, ao colocar a dupla frente a frente com Málaga e Osasuna. Apesar disso, caso as duas equipes avançem, se matam na fase seguinte: o novo emparelhamento reservou a possibilidade de um superclássico nas quartas-de-finais.

Porém, de 100%, a porcentagem de haver dois novos duelos entre as melhores equipes do mundo diminuiu, sem exagerar, para 30%. O Málaga que perdeu para o Real Madrid por 3 a 2 vive um paradoxo. Assim como tem o que o lamentar, tem o que comemorar. Não pelo fato de ter sofrido uma remontada com o plavar favorável por dois gols de diferença. E sim porque soube se comportar positivamente na maior parte do duelo frente ao líder do campeonato nacional e fez uma de suas melhores partidas na temporada. O gol que culminou no empate merengue saiu no único erro individual da equipe blanquiazul: Sergio Sánchez, que havia marcado o tento inicial, recuou displicentemente uma bola para Caballero que Higuaín, esperto, aproveitou para levar o Bernabéu à loucura e colocar o Real Madrid a um passo da virada, que veio em seguida com Benzema.

Os dois gols e a momentânea vitória ante o Real Madrid no Bernabéu por dois a zero pode aumentar a auto-estima dos jogadores, que farão, na semana que vem, um dos jogos mais decisivos da história do clube andaluz nas últimas temporadas. A torcida acredita: mais de 10 mil ingressos foram vendidos para o jogo da volta em menos de três horas. Seria cômico se não fosse "trágico". Manuel Pellegrini armou sua equipe com bastante segurança e chegou a dar um nó tático em José Mourinho. Jogando com inteligência e, sobretudo, obediência tática, os blanquiazules engoliram os merengues na etapa inicial. Monreal, em dia feliz, anulou Callejón, enquanto Sánchez teve dificuldades, mas soube se sair bem contra Cristiano Ronaldo durante os noventa minutos. A dupla de zaga formada por Mathijsen e Demichelis, por sua vez, anulou Higuaín e os ataques blancos foram nulos.

Talvez faltasse mais participação de Cazorla. O ex-Villarreal fez uma partida opaca, preguiçosa, perdendo na maioria dos embates contra Marcelo. van Nistelrooy, em sua volta ao Bernabéu, também passou em branco. Após o jogo, Pellegrini não lamentou os três gols sofridos na etapa complementar, e sim as chances desperdiçadas que poderiam sentenciar sua ex-equipe. Um pouco antes do gol de Khedira, que deu início à remontada, Seba Fernández e van Nistelrooy desperdiçaram gols que, contra uma equipe como o Real Madrid, no Santiago Bernabéu, não podem desperdiçar. As consequências, no fim, foram negativas.

A atual 7ª posição na Liga é consequência de uma fase negra que atravessou a equipe na metade do primeiro turno, quando engataram uma sequência de quatro jogos sem vitórias, sendo três derrotas (uma delas, inclusive, para o Real Madrid, quando Cristiano Ronaldo marcou três e dançou "Ai Se Eu Te Pego). A cinco pontos da zona de Champions League, sonhar com sua primeira participação na principal competição europeia é possível. Tem mais elenco que Osasuna, que aparece na quinta colocação mas não deve ter tanto força para brigar até o final, e Levante e uma maior regularidade que o Sevilla. Difícil, o tabela do segundo turno exigirá concentração e menos desperdício de pontos. Além disso, jogará contra todos seus adversários diretos, inclusive o Valencia, no La Rosaleda.

Aos vencedores, as batatas
Mourinho teve méritos na virada ao apostar numa troca tripla e, até mesmo, arriscada na volta do intervalo. Özil, Benzema e Khedira deram um upgrade nas jogadas ofensivas merengues, lentas com Kaká na armação e com Callejón sumido na esquerda. Khedira, quem diria, participou de quase todas as jogadas de perigo no segundo tempo e saiu como o melhor em campo. Özil ainda não recuperou seu belo futebol de outrora, mas os lampejos de ontem pode servir para levantar sua auto-estima. Deve ser titular nos próximos jogos, já que Di María só volta a duas semanas e Kaká novamente fez uma má partida.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Hora de recuperar os créditos perdidos

José Mourinho confia em Özil, que precisa recuperar seu bom futebol de 2010/2011 (reuters)

Ano novo, Özil novo. Ao menos é o que deseja Mourinho. Para o português, o camisa dez tem que voltar a jogar em alto nível caso queira recuperar um espaço entre os onze titulares. Hoje, não há dúvidas de que Callejón é o companheiro de Cristiano Ronaldo e Di María na linha de três. Em 2010/2011, era notável o perrengue que o Real Madrid passava quando Özil não jogava. Importante na fluência de jogo, o nível do futebol decaia. Atualmente, contudo, isso já não é mais sentido. Em Sevilla, no último jogo pela Liga em 2011, Di María foi deslocado para a posição de enganche e fez uma excelente partida, sendo responsável por duas milimétricas assistências.

O argentino é o principal nome do Real Madrid na temporada; porém, começará o ano no estaleiro. No último treinamento do ano passado, os merengues receberam uma péssima notícia: Di María sofreu uma lesão de grau 1 no músculo direito e ficará de baixa por três semanas. É aí que entra Özil. José Mourinho, hoje, prefere confiar e tentar recuperar o futebol do turco-alemão do que de Kaká, o que leva a crer que o camisa dez voltará à equipe titular no período de ausência de Di Magía. El Mago de Oz, como ficou carinhosamente conhecido pelos aficionados merengues, terá mais uma chance para recuperar seu futebol. Talento é o que não falta. Özil é a antítese da alegria apregoada no futebol. É o meia sem meia expressão. É poucos sorrisos. O craque dos olhos esbugalhados.

Uma oportunidade de ouro caiu nas mãos de Özil. É o maior presente que poderia receber nas vésperas do Dia de Reyes. A torcida confia em Özil, que está disposto a dar a volta por cima. O vestiário também tem plena convicção de que o turco-alemão possa render tão bem quanto na temporada passada. Há duas semanas, declarou que Mourinho é como um pai e que, profissionalmente, evoluiu na presença do técnico de Setúbal. Por sua vez, o treinador até brincou com as declarações. "Acho que nunca tive um filho tão feio", disse rindo. As brincadeiras são sadias e refletem o bom clima que há no clube. "Essas palavras são carinhosas e demonstram que temos uma relação muito boa, que vai além da relação treinador-jogador", justificou.

Com Di María fora de combate, Mourinho sabe que necessita de Özil. E vice-versa. O meio-campista precisa ser o homem desequilibrante do meio-campo como fora para a Alemanha na Copa do Mundo e para o Real Madrid na maioria dos jogos de 2010 e 2011. Ao todo, Özil teve 26 assistências, sendo 17 no Campeonato Espanhol, sete na Liga dos Campeões da Uefa e duas na Copa do Rei. Essa marca foi de uma assistência a mais que de Lionel Messi, craque no quesito. Contra o Málaga, pelo jogo de ida das oitavas-de-finais da Copa do Rei, é a hora de provar. Mourinho quer uma resposta. E espera que seja positiva.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Um bom filho à casa torna

Fadado ao sucesso, Simeone está de volta ao Atlético de Madrid. A torcida está ao seu lado e as expectativas são grandes (getty images)

Em 1995/1996, o Atlético de Madrid conquistou, pela última vez em sua história, a Liga Espanhola. Foi um título que colocou fim definitivo à época de ouro do Barcelona, que havia formado o primeiro dream team de sua história. Os blaugranas, que viam de quatro títulos espanhóis consecutivos e uma Liga dos Campeões, foram sentenciados pelos colchoneros, que aplicaram, naquela campanha, um doblete no rival, com direito a 6 a 2 na soma dos dois jogos (3 a 1 para o Atléti nas duas partidas). Além disso, à época, o Atlético de Madrid também pôde comemorar a Copa do Rei, derrotando na final justamente os catalães. Não havia mais dúvidas de que, na Espanha, havia um novo dono, e ele trajava vermelho e branco.

Um anos antes da temporada histórica, chegou a Manzanarez um argentino que chamava a atenção do mundo futebolístico. Proveniente do Sevilla, Simeone assinou com o time do Vicente Calderón e não demorou muito a cair nas graças da torcida. Ganhando ou perdendo, a feição nunca mudou. Frio, centrado sempre e, sobretudo, raçudo, Simeone encantou os torcedores. Não por sua habilidade. E sim por sua disposição a cada jogo, não importava o adversário. De nível inferior ou superior, El Cholo levava sempre a sério. Foi assim que o argentino seduziu o mundo. Peça-chave do Atlético de Madrid de 96, formou um excelente quarteto de meio-campo ao lado do sérvio Pantic e dos espanhóis Caminero e Viscaíno. Em 1997, transferiu-se para o futebol italiano, deixando uma lacuna no coração de cada torcedor colchonero. A camisa 14 nunca mais fora a mesma.

O natal na Espanha não é tão comemorada como aqui no Brasil, mas os aficionados atleticanos receberam um presentão. Após mais um vexame, ao ser eliminado da Copa do Rei para o modesto Albacete, a paciência da cúpula rojiblanca com Gregório Manzano esgotou-se e o técnico acabou demitido. Um dia depois, o presente do Dia de Reyes foi antecipado. O novo nome foi anunciado: Simeone estaria de volta à capital, dessa vez como treinador. O desafio não é simples: recolocar os Índios entre os grandes espanhóis novamente. "A responsabilidade é enorme, mas isso, em vez de me aterrorizar, serve para me motivar a ajudar a equipe, pouco a pouco, a recuperar o que já teve há tempos", afirmou em sua apresentação. Na 10ª colocação atualmente, copar uma vaga na Champions League parece uma missão ingrata. As atenções, portanto, voltam-se a conquistar uma vaga na Liga Europa e, por que não, tentar o bi da competição, onde os colchoneros enfrentam a Lazio, onde o argentino fez bastante sucesso, na fase 16 avos.

Em sua primeira coletiva, El Cholo deixou claro como irá querer o seu Atlético. Avisou que pretende montar um time agressivo, forte, aguerridos, que tenha como principal característica o contra-ataque. Seria um dèja vú de 95/96? Com Manzano, a última característica inexistiu. O módulo tático ainda é uma incógnita, embora Simeone goste de usar o 4-4-2 em suas equipes. A efetividade do sistema está na pressão constante sobre o adversário e na ocupação dos espaços do campo. Para isso, o bom condicionamento físico do time é essencial. Na zaga, não deve haver nenhuma mudança. Recuperar o bom futebol de Antonio López, entretanto, é o principal desafio. O ex-capitão não começou bem a temporada e vem armagurando o banco de reservas há tempos. O mesmo vale para Filipe Luís, que ainda não justificou sua ida à capital. Titular da lateral esquerda, o brasileiro ainda não se destacou como no Deportivo.

Está no meio-campo as dores-de-cabeças. Como Manzano alternava esquemas, a volância foi o principal problema durante sua pequena passagem. Com Simeone, a lógica leva a crer que Gabi e Paulo Assunção formarão a dupla com o objetivo de transbordar a segurança no meio. À frente, Diego e Arda Turan deverão jogar no suporte a Adrián e Falcão García. Nesse caso, Sálvio, que era constantemente titular com o ex-treinador, deve aparecer no banco com frequência. A não ser que o módulo tático seja um 4-1-3-2, que foi o que mais teve bons resultados na atual temporada. Diego centralizado, na armação à dupla de ataque, e Arda Turan e o argentino abertos pelos flancos é uma opção que, se bem trabalhada, pode levar perigo no contra-ataque.

Pouco mais de cinco mil pessoas acompanharam o primeiro treino comandado por El Cholo no estádio. Os torcedores ocuparam parte da arquibancada inferior e receberam Simeone com muita festa. O argentino ainda dedicou cerca de 25min após o treino para distribuir autógrafos. Não há garantia de que a escolha de Simeone para o comando do time é a certa, mas que é uma boa aposta poucos negam. O ex-jogador sabe o tamanho do Atléti e carrega consigo uma mentalidade que falta ao clube há alguns anos. É esperar para ver. A estreia é no próximo dia 8, contra o Málaga, na Andaluzia. Um bom teste para um dos melhores e mais queridos aluno rojiblancos nos últimos anos.