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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Cavando a própria cova

Mourinho e Casillas: amigos? (getty images)

É preciso ter a noção necessária para entender toda a algazarra feita após o término do duelo do final de semana entre Málaga e Real Madrid, vencido pelos blanquiazules por 3x2. A derrota merengue ficou em segundo plano pelo simples e único fato de José Mourinho ter barrado Casillas. Pela primeira vez em 10 anos, o goleiro e bandeira máxima do clube foi relegado ao banco de reservas por questões técnicas. Mourinho, logo após a partida, não fugiu das perguntas. "Deixar Casillas no banco foi decisão minha. Vejo que Adán está melhor no momento", desafiou o gajo. "Tenho a consciência tranquila", completou. É sabido por todos que o ambiente merengue não é lá muito tranquilo. Há deveras especulações sobre uma possível guerra entre os portugueses e os espanhóis do elenco. Há um mês, por exemplo, Xabi Alonso deu margem aos boatos ao dizer, publicamente, que não é amigo de Cristiano Ronaldo fora de campo.

Mas o ato de Mourinho pode ter sido o estopim. Florentino Pérez, que sempre ficou ao lado do treinador de Setubal, já não confia 100% nele. Ao saber da titularidade de Adán pela jornalista Mónica Marchante, do Canal +, mostrou uma expressão de assustado no rosto e encerrou a "sessão" de perguntas da periodista. A imprensa madrilenha mostrou-se a ao lado de Casillas. AS e Marca criticaram a postura de Mourinho, definindo como ridícula. "A culpa não é de Iker", disse o Marca. Enquanto isso, o País foi mais duro, descrevendo seus métodos como feudais.

Está claro que os prestígios de Mourinho em Chamartín já não são tão grandes como em outrora. Parte da torcida blanca vem pegando em seu pé na atual temporada. Em 2011/2012, em uma de suas polêmicas, havia afirmado que não liga para o que o madridismo fala. Foi um tiro em seu pé. Ontem, em uma enquete promovida pelo Marca, mais de 87% dos eleitores votaram a favor de sua demissão. Joaquin Löw, treinador da seleção da Alemanha, é o preferido para assumir caso o gajo seja, de fato, demitido. Há duas semanas, no empate no Bernabéu contra o Espanyol, até os ultrás madridistas o vaiaram ao fim do jogo e mais um vexame do Real Madrid na temporada, dessa vez contra o penúltimo colocado da Liga. Os graves problemas internos se refletem dentro de campo: a diferença para o Barcelona é de 16 pontos.

O Marca reuniu uma lista de "vítimas" de Mourinho, que vai de diretores técnicos até a cozinheiros. Jorge Valdano foi o primeiro nome a perder a guerra, logo na primeira temporada do português em Madrid, em 2010/2011. À época diretor esportivo do clube, o argentino não aguentou os atritos com o "rival" e acabou demitido por Florentino. Em janeiro de 2011, comentei isso aqui no blog. Logo após o caso, Mourinho tornou-se manager do Real Madrid, tornando-se o primeiro treinador da história do clube a ter carta branca na hora das contratações. O poder dele era imenso.

Nas quatro linhas, o Real Madrid 2012/2013 está bem longe da versão avassaladora apresentada na temporada passada. Os contra-ataques não são tão fatais, a ineficiência é grande e o meio-campo não tem funcionado. Até valores individuais como Cristiano Ronaldo tem atuado num nível baixo. Na última quinta-feira, o sorteio da UEFA colocou o Manchester United no caminho dos merengues nas oitavas-de-finais da Uefa Champions League. Encarar o líder da Premier League nesta atual situação é tarefa ingrata.

Contratado para, especialmente, dar a décima taça de LC ao Real Madrid, Mourinho caminha para mais um fracasso em âmbito europeu. Aliás, não é tão difícil de imaginar outro treinador no cargo nos confrontos contra os mancunianos. O que pode impedir isso é o fato da multa rescisória de Mou ser bastante alta, o que pode influenciar em contratações futuras. Mas o fato é que o português cava a própria cova ao decretar, indiretamente, sua guerra particular com Casillas.

Recomendo a leitura do 'Dossiê Real Madrid - a guerra de egos', produzido por José Eduardo Volpini, do site Doentes por Futebol. Matéria que explica todos os recentes atritos nos vestiários merengues.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Eu quero você, Brasil

 Nos bastidores, os amigos Casillas e Xavi não escondem o desejo de enfrentar a seleção brasileira. É o confronto que todo o povo espanhol quer ver (Reuters)

Pareceu uma declaração boba, despretensiosa. Em outubro de 2010, logo após o título mundial da Espanha, Fernando Hierro, ex-jogador e diretor esportivo da RFEF, disse que “todos” gostariam de ver um duelo entre Espanha e Brasil na reabertura do Maracanã, em 2013. A entidade negou que negocie essa partida, como fez a CBF. O que não significa que o assunto esteja morto. Nesta semana, o amistoso voltou a ficar em pauta. Segundo informações do AS, Xavi e Casillas teriam pedido ao presidente Justo Villar que negocie o confronto com a seleção brasileira. Curiosamento, o amistoso iria acontecer no final do ano passado, mas por "divergências" acabou cancelado.

A questão não é se a Espanha enfrentará o Brasil. A questão é que a Espanha quer enfrentar o Brasil. Não foi só a declaração de Hierro ou as de Xavi e Casillas. Iniesta, em entrevista à da Revista ESPN de dezembro de 2010, afirmou que o Brasil é uma “conta pendente” para os campeões do mundo e contou que Casillas fez o mesmo comentário na concentração espanhola, observando que faz tempo que as seleções não se encontram. David Villa afirmou que seu sonho quando criança era enfrentar o Brasil numa final de Copa do Mundo. Está claro que enfrentar os brasileiros é um desejo espanhol. Mas por quê?

É perfeitamente defensável que a Espanha tem, hoje, a melhor seleção do mundo. É a atual campeã da Eurocopa e da Copa do Mundo. Conquistou os três títulos consecutivos mostrando superioridade técnica, eliminando equipes fortes e tradicionais como Alemanha (duas vezes), Holanda, França, Itália e Portugal. Mas, para a nova realidade espanhola, não basta ser reconhecida como a melhor. É preciso ser reconhecida como uma das grandes seleções do mundo, aquele clube em que só estavam brasileiros, alemães, argentinos, italianos e, dependendo da referência, ingleses e franceses.

A última vez que as duas seleções se confrontaram foi em Vigo, em 13 de novembro de 1999. O Brasil de Candinho (acredite se quiser) entrou em campo com Marcos; Cafu, Antônio Carlos, Aldair e Roberto Carlos; Marcos Assunção, Émerson, Zé Roberto (Giovanni) e Rivaldo (Zé Elias); Sonny Anderson (Jardel) e Élber. A Espanha da época, treinada por José Antonio Camacho, foi ao Balaídos com Molina; Míchel Salgado, Paco, Abelardo e Sergi; Guardiola, Etxeberria (Urzaiz), Valerón (Engonga) e Luís Enrique (Mendieta); Raúl (Alfonso) e Morientes (Munitis). Atualmente, Guardiola é lembrado mais como técnico do Barcelona e Alfonso por dar nome do estádio do Getafe. Reparem que, das duas seleções, nem passam próximos dos times de Mano Menezes e Vicente Del Bosque

O jogo foi bem fraco e terminou em 0x0. Foi um amistoso como tantos outros, sem nenhum peso especial para os dois lados. Tanto que o Brasil foi comandado por seu auxiliar técnico, deixando Luxemburgo na Austrália, onde esteve com a seleção olímpica para dois amistosos. Desde então, o mais perto que o Brasil esteve de enfrentar a Espanha foram dois amistosos contra a Catalunha em Barcelona: vitórias brasileiras por 3x1, em 18 de maio de 2002, e 5x2, em 25 de maio de 2004, com direito a golaço de bicicleta de Júlio Baptista, que viria a brilhar no estádio novamente três anos depois, marcando o gol da vitória do Real Madrid ante o Barcelona por 1x0.

Um reencontro hoje entre esses dois países seria diferente. Seria a melhor seleção do mundo na atualidade contra a maior seleção da história do futebol, ainda que passe por um momento ruim dois anos antes da Copa de 2014. Torcedores de todo o planeta reconheceriam a importância simbólica do duelo. Grandes times se mostram em grandes eventos, realizam grandes duelos e se desafiam com o respeito que se tem pelo igual. A Espanha vê no Brasil o adversário que a legitimaria como novo membro do grupo de “grandes”. Por isso a Espanha quer jogar com o Brasil. Mesmo sabendo que isso pode não acontecer tão cedo. Ou, quem sabe, na Copa das Confederações. Ou, indo mais além, num hipotético confronto de mata-mata na Copa.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O dilema de Ander Herrera

Confirmado como titular da final da Liga Europa mais tarde, Ander Herrera vive sob dúvidas nos últimos dias. O meio-campista faz uma temporada que sonhava quando resolveu sair do Zaragoza e assinar com o Athletic Bilbao. Além de estar na final da competição europeia e da Copa do Rei, ganhou o aspecto de peça-chave do esquema de Marcelo Bielsa, participando de 46 jogos na temporada. Mas essa marca tem ganhado uma sombra negativa que leva a comissão técnica e o departamento médico do Athletic Bilbao à preocupação.

Em 23 oportunidades, o treinador argentino o substituiu. E não foi por casualidade. O jovem sofre com problemas crônicos no púbis desde o início da temporada que o obrigam a jogar com dores na maioria das partidas. A temporada bilbaína o desgastou mais que o habitual. Fora as 38 rodadas da Liga BBVA, os Leones disputaram mais 8 da Copa do Rei (9 contando a final) e 17 da Liga Europa. Mesmo que o fato de chegar às finais das Copas seja gratificante e de ter um elenco bom, certamente quando preparou a pré-temporada, Bielsa não esperava que sua equipe só não disputaria mais jogos na temporada que o Barcelona (três jogos a mais que o Real Madrid). Isso trás consequência ao grupo, que é limitado e curto, e os resultados são os maus resultados em âmbito nacional. Na Liga Espanhola, por exemplo, o Athletic não teve forças para disputar vaga na Champions League. Além disso, El Loco Bielsa é pouco afeito a rodízios.

Llorente sofreu bastante, mas sem dúvidas o maior prejudicado da história é Ander Herrera. Por isso, passa por um dilema. A ideia inicial era aguentar até o limite da temporada para tomar uma decisão. Ander foi um dos principais responsáveis dos méritos dos rojiblancos na temporada e desejou muito estar na parte mais decisiva da campanha bilbaína. Na hora da verdade, ele quer estar presente. Na cabeça de Bielsa, nem se passa não utilizar seu xodó. Contudo, há situações que obrigam o jogador e o serviço médico do clube a repensar a situação. Um exemplo notório é quando Susaeta não está em campo. O ex-jogador do Zaragoza, em momentos como esse, é o encarregado a cobrar faltas e escanteios. Em três oportunidades na temporada, pediu substituição ao sentir dores justamente na hora da execução dessas jogadas. "Força muito os músculos", disse Laura Martínez, médica do clube.

A última solução seria operar agora, após a final da Copa contra o Barcelona. O que leva a seguinte conclusão: provavelmente, Ander ficaria de fora das Olimpíadas. Também peça-chave do esquema de Luis Millá, o jovem faria falta em Londres. Entretanto, ao contrário do Athletic Bilbao, a seleção sub-23 espanhola tem substituto em caso de ausência de seu armador. Thiago poderia ser deslocado à função de armador e Muniain jogar aberto à esquerda; Adrián pode ser adiantado e jogar como no Atlético de Madrid (não necessariamente como referência do 4-2-3-1, onde, porém, foi o artilheiro da seleção na Euro Sub-21), abrindo espaços para Álvaro Vázquez no ataque; ou Milla pode mudar o esquema para o 4-3-3, jogando com Mata, Adrián e Muniain na frente e Javi Martínez, Busquets e Thiago na meiuca, o que poderia deixar o meio-campo pesado com dois primeiros volantes.

Operar no início da próxima temporada não passa pela cabeça de Ander. Independente do resultado da seleção principal na Eurocopa, as chances de Vicente Del Bosque começar a renovar o grupo em busca do bi-mundial são grandes e o nome de La Perla já é pedido por muitos. À medida que a temporada passa, ficava evidenciado que Ander Herrera já não era mais capacitado de oferecer seu melhor rendimento graças as dores. Na semana passada, não treinou com os companheiros, apesar de estar confirmado contra o Atlético de Madrid. No momento, tudo que passa por Ander é uma incógnita.

domingo, 6 de maio de 2012

Tragédia anunciada

 O vilão. Ahsan Ali Syed, empresário indiano que comprou o Racing Santander, nada fez para ajudar o clube a sair da crise e o estopim é o rebaixamento à Liga Adelante (Daily Email)

A primeira sentença que a temporada espanhola conheceu foi o rebaixamento do Racing Santander à Liga Adelante. Na última semana, os cantabrianos foram derrotados pela Real Sociedad no País Basco por 3x0, sentenciando o descenso à segundona. Tímida ações no mercado, grande crise interna e manuntenção de uma base que já havia assustado em temporadas anteriores foram os ingredientes que resultaram na queda verdiblanca. O Racing Santander, por ironia do destino, disputará a Liga Adelante justamente no ano de seu centenário. O enterro dos cantabrianos aconteceu no Anoeta, diante de uma Real Sociedad que garantiu sua permanência na elite espanhola. 

A situação econômica do Racing Santander preocupa mais até do que o rebaixamento. Cair para a segunda divisão era uma tragédia anunciada, querendo ou não. A ausência de responsabilidade por parte dos acionistas majoritários soam como várzea. Quando o Ministério dos Esportes da Espanha aprovou a venda do clube ao milionário emprésario indiano Ahsan Ali Syed em janeiro de 2011, as expectativas eram grandes. Puro engano. "Começa uma grande e ativa relação com este clube", afirmou Ahsan Ali Syed no dia da confirmação. "Vou colocar todos meus conhecimentos e meu poder financeiro a serviço do Racing Santander para levar o clube ao maior nível de êxito na Espanha e na Europa". A promessa era investir pesado no mercado, cerca de 90 milhões de euros nos próximos cinco anos. Hoje, um ano e quatro meses depois, a instituição está em um processo concursal e o futuro é nada promissor.

Em dezembro passado, o indiano, nada onipresente no dia-a-dia do clube, resolveu vender as ações menos de 12 meses depois de comprá-las de Fernando Pernía. Contudo, o Juizado de Primeira Instância Número 55 de Santander adotou medidas cautelares para que evitasse a venda do Racing Santander por parte de Ali Syed. Porém, o máximo que o governo cantabriano conseguiu foi adiar e prolongar a data da sentença. Antes, em novembro, todo os conselheiros de administração pediram demissão, o que deixou Syed em uma saia-justa. Na Espanha, os aficionados montañeses consideram o time para o qual torcem sem dono. Ou seja: uma várzea total. Os sócios do clube, no entanto, estão pendentes do que a assembleia irá decidir no próximo dia 20 maio, naquilo que qualificam como o "futuro imediato do Racing Santander". A expectativa de progressão criada no dia da venda ao empresário acabou regredindo. Em nenhum momento Ali Syed organizou o clube, ajustou os problemas da gestão anterior e tomou decisões corretas.

A incógnita quanto ao futuro do clube implica com os dos jogadores. A maior parte do plantel não renovou o contrato enquanto não sabe da decisão final. Especulações quanto a novos jogadores? Nenhuma. Manuel Arana, que se recupera de lesão e fez falta na reta final, foi o principal jogador do time na temporada. O andaluz, em declarações dadas na semana passada, reconheceu estar pendente do que possa acontecer no clube para saber o que irá fazer. O Levante estaria interessando em sua contratação, que, no caso, seria a custo-zero. Outro que também pode estar de saída é Stuani, também para o clube azulgrená.

Durante a temporada, os problemas institucionais influenciaram diretamente no esportivo. Em algumas partidas, os verdiblancos jogaram com dignidade, até de igual para igual, mas as carências falaram mais alta. Os ânimos e psicológicos dos jogadores também foram abalados. De repente, encontraram-se perante a zona de rebaixamento e com o salário totalmente atrasado. "A sensação é de que estamos sendo usados, enganados", disse o capitão Toño em março. Indignação é a palavra que define a temporada do Racing Santander. Literalmente, o clube, maior representante da região da Cantábria, região mais rica do mundo em lugares de interesses arqueológicos do Paleolítico Superior, foi maltratado.

Ainda que esteja em segundo plano no momento, a disputa na Liga Adelante deve ser tratada como fundamental. Em péssima situação financeira, a diretoria cortou gastos e investimentos em todas as áreas. Cair para a segunda divisão resulta em perdas de outros aspectos importantes: o faturamento com a  TV, patrocínio e, eventualmente, bilheteria. Se os cantabrianos conseguirem estancar a sangria financeira (e tudo irá depender do próximo dia 20) e a torcida seguir unida, há uma possibilidade de retornar à elite em pouco tempo. Mas, pelo tamanho do conserto necessário, o provável é que fica perambulando e vagando na Adelante durante algumas temporada, como o Celta Vigo.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Rayo de orgulho

Os motivos para comemorar são muitos no Rayo Vallecano. Equipe superou adversidades por mais um ano e irá se manter na elite espanhola (getty images)

No complemento da 33ª rodada, o Rayo Vallecano foi derrotado pelo Valencia por 4x1. Um resultado que poderia até ter sido maior devido ao domínio amplo dos chés, impussionados pelo empate conquistado no Santiago Bernabéu. O assunto em questão é o derrotado da noite. Goleado e sem saber o que fazer perante a avalanche ché, os rayistas foram por água abaixo. Entretanto, a temporada feita pela equipe treinada por Ramón Sandoval é digna de orgulho. No último sábado, por exemplo, ao golear o Osasuna por 6x0 chegou a maior vitória de sua história. Apesar da sequência ruim, com apenas duas vitórias em seis jogos, é muito provável que o Rayo se mantenha na elite espanhola. Para isso, basta somar mais três pontos em 15 disputados.

É preciso voltar a meados da temporada passada, quando os vallecanos disputavam a Liga Adelante. A primeira demonstração de que esse time poderia além foi vencer as adversidades e conquistar uma vaga no grupo de acesso à Liga BBVA. Durante a disputa da Liga Adelante as dívidas chegaram a estar entre 40 e 80 milhões de euros, fora o quase um ano de salários atrasados — a ponto de torcedores terem organizado movimentos para arrecadar dinheiro e ajudar no pagamento de jogadores, garotos da base e funcionários do clube. Em matéria ao site da Trivela, Lincoln Chaves escreveu com palavras certas a situação dos franjiroys.

"Para complicar, em fevereiro do ano passado, a Nueva Rumasa, conglomerado de empresas (dentre as quais fazia parte o Rayo) presidido por José Maria Ruiz-Mateos, entrou na fase que antecede ao que os espanhois chamam de Ley Concursal — em linhas gerais, é quando a gestão fiscal da agremiação passa a ocorrer sob intervenção jurídica. Mas a situação ainda ficaria mais complicada. Em maio, Ruiz-Mateos se desfez de quase 99% das ações dos Franjirrojos e jogou a bomba para o empresário Raúl Martín Presa. Embora inicialmente receoso, o novo dono viu que o buraco era grande demais e solicitou a entrada do Rayo na etapa seguinte da Ley Concursal, confiando que isso deixaria a adminstração mais tranquila para tocar o dia-a-dia do clube, ainda que sem a completa autonomia de outrora.

Com um elenco limitado até para a disputa da segundona espanhola, viria a parte mais preocupante de todo o processo da volta à elite: o pouco dinheiro para reforçar o plantel. O clube iniciou a temporada diante de gravíssima crise financeira. Diversas tentativas de renegociação de salários e dívidas foram buscadas, com reduções de ordenados que chegavam a 80%. Havia o risco até mesmo de que vários jogadores e membros da comissão técnica — dentre eles o próprio técnico José Ramón Sandoval (que até chegou a pedir demissão, mas acabou permanecendo) — fossem liberados. Tudo isso semanas antes da estreia na Liga contra o Athletic Bilbao. Não a toa, pouquíssimos imaginavam que o Rayo tivesse alguma chance de escapar do rebaixamento. Aliás, havia dúvidas até mesmo das condições do clube sobreviver até o fim do campeonato.Assim como na temporada anterior, se administrativamente a crise persistia, em campo as coisas caminharam muito melhor que a encomenda".

Após 33 rodadas, o Rayo Vallecano não figurou uma única vez na zona de rebaixamento. A manuntenção de jogadores como Casado, Movilla e Michu tem sido um golpe na manga da diretoria. Michu, por exemplo, faz Liga incontestável: autor de 15 gols, é o artilheiro da equipe e tem um repertório maior de jogadas e de finalizações Dos reforços, quem mais chama atenção é Diego Costa. Contratado sob dúvidas após um ano e meio parado devido a uma lesão séria no joelho, o brasileiro tem estado acima das expectativas. Tornou-se peça chave do esquema de Sandoval e conquistou a torcida. O Marca já especula a contratação definitiva do atacante, que pertence ao Atlético de Madrid.

No segundo turno, o Rayo mostrou uma faceta mais impressionante: seguro, pressionando o adversário com e sem a bola e criando chances incotáveis de gols. A maior demonstração de poderio foi na, ironicamente, derrota para o Real Madrid. O dérbi levou os merengues a um cenário de desconforto pouco visto na temporada, mas um tento de calcanhar de Cristiano Ronaldo decidiu o jogo (sem esquecer dos possíveis pênaltis não marcados). Se a Europa, há algumas rodadas, chegou a ser um sonho possível, atualmente é improvável uma vaga na Liga Europa. Mas o importante é que os rayistas estão a um passo da salvação, o que pode ser comemorado como um título pela fanática torcida.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Muito mais que dois times

Antes de mais nada: a classificação do Athletic Bilbao, sobretudo, levou-me a escrever esse texto. A Liga Espanhola nunca esteve tão desvalorizada como atualmente. A antes Liga das Estrelas, de grandes craques e grandes time, hoje é ridicularizada por muitos. "É feio você ver um clube jogar fora de casa e ganhar de sete, oito. Várzea", dizem muitos. Historicamente, Barcelona e Real Madrid são os maiores vencedores do país. Dois clubes que sempre dominaram o futebol do país, mas nunca de maneira tão clara e simultânea.

Minha posição é claríssima. Não são os outros que são ruins, mas Barcelona e Real Madrid, os dois clubes de futebol mais famosos do mundo, que são bons demais. O Barça é possivelmente o melhor time da história. O Real Madrid tem o time mais milionário da sua (rica) história, o melhor treinador da década, o segundo melhor jogador do mundo, é tão bom, mas tão bom, que vai ganhar todo um campeonato do… melhor da história. O domínio dos gigantes leva um monte de gente a dizer que o Campeonato Espanhol é ridículo, é um campeonato de apenas dois times, como citado. Insinua-se que Real Madrid e Barcelona só ganham tantos jogos, só marcam tantos gols, porque os rivais são fracos. Todos fracos.


É óbvio que o futebol espanhol precisa olhar para dentro, fazer uma autocrítica e mudar regras. É lógico que não é saudável ter dois times tão superiores. Está claro que a divisão de dinheiro precisa ser mais bem feita para evitar o abismo. Ninguém aqui está falando que o modelo é perfeito. Mas é simplesmente um erro dos grandes, dos grandes mesmo, menosprezar os times e o futebol da Espanha. Seria oportunista me apegar somente aos resultados. Merengues e azulgrenás só não farão a final da Champions League se caírem do mesmo lado da chave no sorteio de amanhã cedo. Os especialistas do mundo todo consideram Real e Barcelona proporcionalmente tão favoritos na Champions como o são no Campeonato Espanhol. O domínio exacerbado deles não é apenas doméstico, é continental. Na outra Copa, a Europa League, Valencia, Atlético de Madrid e Athletic Bilbao estão garantidos nas quartas de final. Três espanhóis entre os oito. Cinco entre os 16 das duas competições continentais.

A Liga Espanhola tem que repensar várias coisas e é difícil repensar quando o país está afundado em crise e só o esporte salva a autoestima. Logicamente há times fracos, como em todas as ligas do mundo. Mas não há só dois times bons, não. Há dois que são os melhores do mundo, há vários taticamente arrumados e alguns muito bons. O Athletic, com o gênio, genioso e genial Bielsa, é um deles. Esse time acaba de mudar de patamar. O Valencia com a proposta de jogo voltada ao ataque é outro exemplo. E o Atlético de Madrid de Simeone, bem sólido na defesa, jogando no contra-ataque e contando com um atacante nato como Falcão García na frente, é mais um exemplo. É evidente que a questão dos direitos de TV deve ser resolvida, e que isto facilitaria que esses times médios conseguissem competir melhor com os grandes na Espanha. Mas se isso acontecer, não quero nem imaginar quantas equipes espanholas trunfariam na Europa

sexta-feira, 9 de março de 2012

Inimigos

Javier Clemente e o tão falado aperto de mão (El Mundo Deportivo)

Quando Sporting Gijón e Sevilla entrarem em campo amanhã, as câmeras se voltarão ao dois treinadores. Uma pergunta não quer calar: irão se falar antes da bola rolar? Javier Clemente e Míchel não vão com a cara um do outro. A rodada 27 da Liga BBVA irá marcar o tão esperado reencontro. Há dois anos, o basco renunciou um aperto de mão por parte do Míchel, quando até então treinava o Valladolid e o madrilenho, o Getafe. Suas diferenças são velhas, dos tempos de seleção. A inimizade atual entre os dois começou quando Clemente treinava a Fúria.

No início da década de 90, o atual treinador do Sporting Gijón resolveu não contar mais com Míchel e seus companheiros de Real Madrid, a famosa Quinta Del Buitre, sexteto de sucesso na década anterior. O basco pôs um fim à era do grupo na Roja. Desde novembro de 1992, Clemente não voltou a convocar Míchel para a seleção. Contudo, o ato que mais intensificou a relação da dupla aconteceu quando Míchel foi convidado pelo Marca a escrever uma coluna às vésperas da Copa do Mundo de 2002. O madrilenho aproveitou para atacar Clemente, à época treinador do Tenerife, e a guerra começou.

O ocorrido aconteceu em abril de 2002. Quase dez anos depois, fontes pessoais de Clemente afirmam que o basco não perdoou aquilo que intepretou como um insulto. A ferida, pelo visto, segue sem se cicatrizar. Hoje, os dois treinadores falaram na coletiva pós-jogo. Clemente manteve uma postura diferente da habitual. Explicou que, obviamente, sentiu-se ofendido e afirmou que Míchel deve estar arrependido. Ainda deixou claro: "falando ou não falando com ele, isso não importa. Em minha mente, no momento, estão apenas os três pontos. Eu me preocupo com meu time e ele, com o dele", sentenciou. Por sua vez, o treinador sevillista esquivou-se do assunto. "A partida de amanhã é tão importante que fatos extracampos não merecem serem citados", disse.

Abaixo, segue a tradução do trecho da fatídica coluna de Míchel ao Marca.
"Clemente segue subindo na Gabarra há 20 anos. Suas palavras sincronizam com seus feitos, ou seja: são vazias. É incapaz de analisar e manifestar sua impotência como técnico. É mercenário. Alguns clubes já sofreram com isso. Mas Clemente prefere abafar tudo. É triste olhar para o Tenerife e ver a situação pela qual passa. O descenso é muito provável. Clemente, entretanto, falará apenas em melhorar seu handcap no único campo que interessa: o de golfe. É um fato que não tocará no assunto fracasso. Isso, na realidade, não interessa nem ao próprio Clemente. Uma pena".

O AS também explicou o início da briga entre os dois. Para quem entende de espanhol, fica a dica.

27ª rodada
Sábado, 10/mar
Real Sociedad x Zaragoza
Málaga x Levante
Sporting x Sevilla
Betis x Real Madrid

Domingo, 11/mar
Atlético de Madrid x Granada
Espanyol x Rayo Vallecano
Valencia x Mallorca
Racing x Barcelona
Osasuna x Athletic Bilbao

Segunda-feira, 12/mar
Villarreal x Getafe

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Sob risco

Fernando Amorebieta brinca. O Athletic Bilbao tem treinado sob neve há dois dias (El País)

Num jogo de filiais, Villarreal B e Barcelona B abriram o "final de semana" de futebol espanhol. No Ciudad Deportiva de Villarreal, cerca de 800 espectadores assistiram ao empate de 0 x 0 entre as duas equipes, o que mantém o Submarino Amarelo com riscos de rebaixamento e os blaugranas, ainda que continuem sem triunfar fora do Mini Estádi, no meio da tabela. Pelo menos em Castilla e Leão o frio não impediu que o jogo fosse disputado, mas os jogos de sábado e domingo pela Liga BBVA, Liga Adelante e Segunda División B estão pendentes do termômetro.

O temporal previsto para as próximas horas abre a possibilidade de que algumas partidas sejam canceladas. À primeira vista, a intenção e previsão da LFP é que todos os encontros sejam realizados com normalidades, mas os diretores da federação estão esperando uma evolução (improvável, vale o adendo) das condições climáticas. Na Itália e Inglaterra, o problema já é antigo. No país da Bota, quatro jogos foram adiados devido ao forte frio que assola o norte e leva muita neve à região. Na Alemanha, por exemplo, para evitar esse tipo de "constragimento" há uma pausa no campeonato entre janeiro e fevereiro.

Apesar da neve que tem caído nos últimos dias, sobretudo no norte espanhol, não há previsão de fechamento de aeroportos ou cancelamentos de voos. Sendo assim, não há a menor preocupação dos clubes da primeira divisão de adiar seus compromissos. O único obstáculo será a neve. Nesse caso, a partida que mais preocupa é no San Mamés, entre Athletic Bilbao x Espanyol. Justamente um dos principais jogos da rodada. Os bascos, como mostrado na foto que inicia o texto, vêm treinado há dois dias sob neve, que deve continuar na hora do duelo (18h, horário de Madrid; 15 h, horário de brasília). Fontes do clube adiantaram que, se as condições climáticas não piorarem, o gramado estará em condições de disputa, devido ao magnífico trabalho de drenagem feito na Catedral.

Zaragoza e Madrid também são estados em alerta. Não pela neve, nesse caso, mas pelo frio. No La Romareda, no jogo entre Zaragoza x Rayo Vallecano, espera-se uma sensação términa de -25ºC, com fortes rajadas de ventos. No Coliseum, no mini dérbi entre Getafe x Real Madrid, a ameação é o gelo, já que o estádio azulón encontra-se "abandonado" em relação aos outros estádios da cidade. No Vicente Calderón, local de Atlético de Madrid x Valencia, preocupa o fato do gramado não estar em melhores condições. O árbitro, entretanto, é quem decidirá se haverá confronto ou não.

As situações mais críticas estão na Liga Adelante. Como a maioria das equipes viajam a outros estados pelas estradas espanholas, pode atrapalhar o fato de ter alguns acessos bloqueados ou o engarrafamento atrasar suas respectivas chegadas a tempo. Os três jogos em situação de perigo podem afetar duas equipes catalães: o Sabadell, que joga em Huesca, e o Gimnàstic de Tarragona, que viaja a Valladolid. O outro jogo sob risco de adiamento é Numancia x Alcoyano. Em 2010, um jogo entre Real Unión x Albacete foi cancelado devido aos -8ºC que fazia em Soria.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Messias da bola

O dia 9 de janeiro de 2012 está eternizado na história do futebol. Foi a data que consagrou, definitivamente, um dos maiores craques pós-Pelé. A premiação de melhor jogador do mundo, que juntou pela segunda vez a Fifa e a Bola de Ouro da France Football, entregou a Messi o troféu de melhor pela terceira vez consecutiva, igualando nomes como Platini, Cruyff, Van Basten, Zidane e Ronaldo. A distancia da Pulga de Rosário para seus rivais é tão grande que Cristiano Ronaldo, talvez o único que possa tirar o prêmio das mãos do argentino nos próximos anos, parece apenas um jogador normal comparado ao blaugrana. Os feitos do português, que conseguiu fazer 41 gols em uma única edição de Liga Espanhola, parecem algo comum quando relacionados com os do blaugrana.

Hoje, o futebol comemora. A relação de Messi com a bola sempre foi de amor. A carreira tem felicidades, lágrimas, como, até o momento, as decepções por ter falhado em duas Copas disputadas, mas nunca faltou sentimento. Messi só existe um. Virão anos, décadas, séculos, gols, sincronias e sinais. Mensagens do além, dos céus, dos gramados. Um camisa 10 de 1,69 de altura que exala genialidade a cada partida. Seu namoro com a bola é precoce. Há mais de 20 anos, numa tarde em família, seu pai, ao lado de tios, primos e amigos, preparava-se para disputar uma tradicional pelada. Faltava um. Quis o destino que a criança Messi, com apenas cinco anos, completasse uma das equipes. "Dizem que, assim que eu toquei na bola, todos ficaram surpresos, como se já soubesse do que se tratava isso", disse em uma entrevista ao Mundo Deportivo em 2006.

Na família, ninguém suspeitava de que ali brotava um craque. À exceção de sua falecida avó, Celia, mãe de sua mãe. Foi ela quem o presenteou com a primeira bola e convenceu o genro, Jorge Messi, do talento do moleque franzino. O pai não teve escolha: levou La Pulga para treinar no Grandoli, pequeno clube de seu bairro. Durou apenas um ano a aventura do craque no clube. O próximo passo foi a ida para o Newell's Old Boys, paixão desde sempre e onde Messi sempre ratifica que atuará profissionalmente um dia. O amor do clube com o jogador, no entanto, não foi recíproco. Os Leprosos viraram as costas a Messi justamente quando este mais precisava. Lionel descobrira que possuia um problema de crescimento. O destino, novamente e, dessa vez, ironicamente, acertou. Foi justamente no maior drama da vida da Pulga que o levou ao clube onde, atualmente, desfila classe e é idolatrado.

A profecia que nasceu na Argentina se alastrou à Catalunha. No Barcelona, chegou aos 13 anos. Baixo demais, franzino demais, moleque demais. Acima de tudo, craque demais. Bastou isso para Messi cruzar o Atlântico e fazer história. Viajou com seu pai, deixando em Rosário sua mãe e seus irmãos. Em seu primeiro teste, o gigante da Catalunha não deu chance ao azar. Carlos Rexach o contratou vendo-o jogar por instantes. O catalão fica impressionado até hoje: "Eu o contratei em 30 segundos! Ele me chamou muita atenção. Em meus 40 anos de futebol, jamais havia visto coisa semelhante. De cinco situações de gol, converteu quatro. E tem uma habilidade excepcional. Me lembrou o melhor Maradona. Seu primeiro contrato eu assinei, simbolicamente, em um guardanapo. Queria contratá-lo o quanto antes. Não podia deixá-lo escapar", afirma.

Senhor do próprio destino, fez do calvário a estrada para a redenção. O destino desafiou, ele respondeu. Messi tem a eterna sede dos imortais. Não lhe satisfaz a arrancada, o drible ou o gol. Tem que estar tudo completo. Não lhe satisfaz se, com apenas 24 anos, possui um currículo invejável. São 3 Champions League, 5 Ligas Espanholas, 2 Mundial de Clubes, além de Supercopas da Uefa e da Espanha e Copa do Rei. Tem que vir tudo junto. Não lhe satisfaz se, com apenas seis temporadas na carreira, já possui 217 gols e 87 assistências. Já é o segundo maior artilheiro da história do Barcelona, ficando 18 gols atrás de César Rodríguez, o maior. La Pulga faz jus ao "quanto mais, melhor". O céu é o limite de Messi.

Todo mundo já sabe o final, mas não cansa de assistir. Messi não seria o mesmo sem as peças que o destino lhe pregou. Foram as voltas por cima que fizeram dele o que ele é, vitórias e derrotas, baques e recomeços, gols, títulos, arrancadas e dribles, o mundo estupefato com suas jogadas, furacão em campo. Um jornalista pernambucano, Wagner Sarmento, o definiu bem, uma vez. Messi é o pesadelo dos superlativos e o sonho dos neologismos. É preciso inventar novas palavras em que caibam seu brilho. No futuro, talvez Messi se torne um adjetivo. Sinônimo de maior.

Parabéns, Messi!

domingo, 8 de janeiro de 2012

A implicância chata com Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo marcou seu 21º gol na Liga BBVA contra o Granada e não comemorou. Foi notícia, claro (getty images)

Marrento. Polêmico. Craque. Estes são alguns dos adjetivos que são atribuidos diariamente a Cristiano Ronaldo. Filho ilustre da Ilha da Madeira, teve o nome dado por sua mãe Dolores em homenagem ao então presidente dos EUA, Ronald Reagan. Com pouca idade, perdeu seu pai, Dinis Aveiro, e cresceu muito ligado aos seus irmãos Hugo, Cátia e Elma. Uma infância de muitas dificuldades, mas repleta de sonhos. Hoje, o que Cristiano Ronaldo faz em sua vida pessoal vira notícia. Mas, muita das vezes, negativas. A implicância da mídia para com o português começa a extrapolar.

Se ele, a pedido de Mourinho, resolve não viajar a uma premiação onde não será o ganhador em prol de uma preparação especial para um duelo decisivo, foi o egocentrismo que falou mais alto. Se sua equipe não joga bem contra o Barcelona, apenas ele é taxado de pipoqueiro. Se ele marca três gols e resolve, dessa vez, criticar quem o critica, é taxado de chato. Se ele marca seu 21º gol numa competição onde é o artilheiro disparado, a ponto de deixar o melhor jogador do mundo quatro gols atrás, e não comemora, justamente por ter sido o quinto gol de uma partida que foi 5 a 1, também é criticado. O fato é: o que Cristiano Ronaldo toca vira ouro. São picuinhas desnecessárias para criarem certo tipos de notícias. Querem de Ronaldo uma pessoa semelhante a Messi. Esqueçam. Sua personalidade é forte e isso é problema dele. Seu brilho ninguém tira. Cristiano Ronaldo é a fantasia objetiva.

O talento já brotava nos campinhos do Funchal e no Andorinha, clube em que deu seus primeiros chutes. Dali, despertou os olheiros do Nacional, que descobriam grande talento. Aos 11 anos, o desafio de ir para as divisões de base do Sporting, um dos maiores clubes de Portugal. Foi ali que ele cresceu e amadureceu, deixando de ser promessa e se tornando realidade. Foram seis anos encarando os sacrifícios de sua ousada escolha. Mas ele seria recompensado. No jogo de estréia do Estádio Alvalade Século XXI, entre Sporting e Manchester United, o abusado meia-atacante simplesmente levou os ingleses à loucura, com dribles desconcertantes. Foi o suficiente para que os próprios jogadores do time britânico pedissem sua contratação ao técnico Alex Ferguson. A negociação foi 12 milhões de libras (cerca de R$ 41 milhões).

A partir de 2003, Ronaldo surgiu para o estrelato com a camisa dos Diabos Vermelhos. Desde então, coleciona casos polêmicos, como envolvimento com prostitutas e o acidente com sua Ferrari novinha. Em campo, porém, não há como negar seu sucesso. No clube britânico, foram sete títulos e atuações memoráveis, que levaram José Mourinho, à época, a chamá-lo de "o filho de Van Basten", em alusão ao grande atacante holandês do fim da década de 80. Atuações de galas e com um prêmio de melhor do mundo na bagagem levaram o português da camisa sete ao sonho de infância: atuar pelo Real Madrid, "maior clube da história", segundo o próprio.

Na capital espanhola, Ronaldo se consolidou de vez. Chegou, em apenas 2 anos e meio, a 112 gols em sensacionais 112 jogos. Uma marca absurda: média de um por jogo. Conseguiu, a efeito de comparação, ultrapassar Ronaldo Fenômeno mesmo não jogando com Figo, Beckham e Zidane. Detalhe: o brasileiro conseguiu 101 gols em cinco anos. Os 94 milhões de euros pagos por Florentino Pérez em junho de 2009, que tornou a transferência mais cara da história do futebol, são recompensados a cada jogo. Na primeira temporada como merengue, um gostinho de quero mais. Uma lesão no tornozelo o tirou de dois meses da temporada e dois cartões vermelhos mancharam sua temporada.

Em 2010/2011, o gajo foi extraterrestre. Pulverizou recordes. Foram 40 gols na Liga, tornando-se recordista de gols em uma única edição de Liga BBVA. Na temporada, foram 53 gols, tornando-se recordista de gols em uma única temporada pelo Real Madrid. De esquerda, de direita, de falta, de cabeça, de pênalti. Teve gols de tudo que é forma. Para trás, nada mais nada menos que Púskas, Zarra. A história foi escrita. Cristiano Ronaldo tem uma história rica no futebol. Podem chamá-lo de tudo: prepotente, marrento, arrogante, chato, pipoqueiro. Porém, o garoto da Madeira driblou, literalmente, todas as batalhas da vida e já escreveu seu nome na galeria dos grandes craques da história do futebol. Queiram ou não.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

José Mourinho e os casos de nacionalismo exacerbados

José Mourinho provoca. Dessa vez ele não teve culpa (reuters)

Com as festas de final de ano se aproximando, a Liga BBVA dá uma pausa e entra num recesso de duas semanas. A próxima rodada a ser disputada é apenas no dia 8 de janeiro - nos dias 4 a 5 serão disputados os jogos da Copa do Rei. Para que as atividades do Quatro Tiempos não pare, nada mais justo do que relembrar uma das polêmicas da temporada 2011/2012. E, obviamente, ela não poderia vir de outra pessoa a não ser José Mourinho.

Após a vitória do Real Madrid ante o Espanyol, na 6ª rodada, um repórter que cobria o clube périco fez uma pergunta em catalão para José Mourinho. O técnico pediu para responder em espanhol. Até aí, tudo tranquilo. Até um jornalista estrangeiro fazer uma pergunta em inglês e ter uma resposta em inglês. Pronto: indignação entre os catalães. Por que os ingleses recebem resposta em seu idioma e os catalães não?

José Mourinho adora criar picuinha, adora transformar coisas minúsculas em acidentes diplomáticos irreversíveis. Mas, nesse caso, fica a sensação de que a imprensa quis criar um problema que não existia. Com a solidificação de alguns líderes políticos catalães e a crescente rivalidade entre Barcelona e Real Madrid, a Catalunha começa a viver um clima em que abraçar o catalanismo se torna obrigação. Durante décadas, manter a língua catalã era uma maneira de resistir à dominação castelhana e manter a identidade regional. A cada vitória blaugrana em um superclássico, o povo se enche de orgulho e se sente superior à capital. É como se, exagerando, o Futbol Club Barcelona fosse o motor e o coração de toda uma região. É com ele que, a cada título, os catalães se sentem independentes e o centro do mundo passa a ser a Catalunha, pacificamente a praça de Sant Jordi.

Jovens pró-independência: os "caras-pintadas" da Catalunha (reprodução)

Um processo valioso. Mas, agora, há momentos em que se extrapola. Passa a haver uma exigência de expor isso a todo momento, como se fosse mostrar a força catalã diante do resto do país. Os catalões, que até hoje brigam por uma independência, se consideram uma nação dentro de outra. Possuem uma cultura diferenciada, língua própria e soberania política. O idioma catalão é uma mescla do castelhano com o francês. Mas eles também falam espanhol com o turista. O barcelonense típico não gosta de ser chamado de espanhol. É catalão e ponto final. A própria Polícia Nacional espanhola, em processo gradual, se retirou do território catalão, cedendo lugar aos Mossos d’Escuadra, peculiaríssima designação da polícia local, fundada no nome de uma milícia catalã de dois séculos atrás. Para muitos catalães, porém, esse grau de autonomia parece muito pouco. Em tudo e por tudo, quando se trata da Catalunha se fala em “nação” ou de algo “nacional”. Há em Barcelona um Museu Nacional da Arte Catalã, e um Museu Nacional da História da Catalunha

Esse tema, complicado, já chegou à seleção espanhola. Em uma coletiva, há pouco mais de um ano, a imprensa catalã pediu para Piqué dar uma resposta em catalão. O zagueiro concordou, mas diplomaticamente perguntou se ele próprio se encarregaria de fazer a tradução para o espanhol. Sergio Ramos, que também participava da entrevista, se irritou com a atitude do jornalista e sugeriu ao colega de defesa a traduzir para o andaluz. Nenhum jornalista basco, andaluz, valenciano ou galego fez pergunta na língua de sua região.

Até quem não é catalão já sofreu com isso. Em 2006, quando defendia o Barcelona, Eto’o não entendeu uma pergunta feita em catalão. Foi repreendido pela direção do clube, que disse que providenciaria aulas para o atacante (que aprendeu espanhol quando defendeu o Real Madrid, ainda adolescente). Durante os Jogos Olímpicos de 2008, Rafael Nadal também não compreendeu uma pergunta feita em catalão. Um líder político nacionalista o acusou de não ter consideração com a Catalunha e os jornalistas catalães. Detalhe: o tenista nasceu nas Ilhas Baleares, onde o catalão também é idioma oficial, mas menos difundido que na Catalunha, e só se mudou para Barcelona aos 14 anos. Se Eto’o e Nadal foram morar na Catalunha quando já eram fluentes em espanhol, é cabível que não tenham precisado aprender a língua regional.

A relação dos catalães com a seleção espanhola é dúbia. A maior parte da região torceu pela Fúria na Copa de 2010, mas demonstrar isso poderia levar à discriminação. Por isso, muitos ficaram quietos, ou comemoraram o título com comedimento. Os jogadores catalães da seleção têm de lidar com essas pressões a todo momento. Afirmam e reafirmam o comprometimento com a Espanha, ao mesmo tempo em que afirmam e reafirmam o apego ao catalanismo. Josep Guardiola é o maior exemplo disso. Entusiasta da região espanhola, defendia a criação de uma seleção nacional de futebol catalã, além de fazer questão de comemorar diversos títulos enrolado em uma bandeira da Catalunha.

No geral, o grupo de Vicente Del Bosque mostra um grande desprendimento e compreensão de como é preciso agir com inteligência para aproveitar o momento. Os catalães Xavi, Busquets, Fàbregas, Valdés, Piqué e Puyol formam a melhor seleção nacional dos últimos anos quando se juntam a Xabi Alonso (basco), Javi Martínez (navarro), Casillas (castelhano), Iniesta (manchego), Sergio Ramos (andaluz), David Silva (canário) e David Villa (asturiano). E só passando por cima dos atritos Barça x Madrid criados por Mourinho ou do nacionalismo incitado por parte da imprensa catalã para isso.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O cartão da discórdia


O Barcelona venceu o Rayo Vallecano por 4 a 0 em jogo antecipado da décima-sétima rodada devido à disputa do Mundial de Clubes. Alexis Sánchez fez sua melhor partida desde que chegou à Catalunha; Villa voltou a se reencontrar com as redes; Messi retornou à artilharia. Tudo isso poderia ser destaque a não ser uma polêmica envolvendo Gerard Piqué. O jogador teria forçado o cartão amarelo para chegar "limpo" no superclássico de duas semanas e, assim, quebrado uma regra da RFEF. O defensor atrasou a reposição de bola e foi advertido pelo árbitro Mateu Lahoz.

Piqué cumprirá a suspensão automática no próximo final de semana, quando os catalães enfrentam o Levante. No entanto, segundo o novo código disciplinar da federação espanhola, todo jogador que demonstrar intenção deliberada em receber o cartão será punido com mais um jogo de gancho, o que impediria a escalação do zagueiro contra os merengues. Segundo o artigo 112 do código disciplinar, “todo jogador, que durante o curso de um jogo, provocar o quinto cartão poderá ser sancionado com um jogo extra de suspensão e ser multado em 600 euros. Na determinação da intenção do jogador, as circunstâncias serão tomadas em conta, bem como a natureza do jogo e a atitude do atleta durante a partida”.

Entre as evidências que podem levar a punição do jogador está a súmula da partida, relatada pelo árbitro Perez Lasa: “No 83º minuto, o jogador (3) Gerard Piqué foi punido por atrasar o recomeço do jogo por seu time na intenção de gastar o tempo”. Questionado pela polêmica logo após a partida, Guardiola foi claro: "Três minutos depois, Valdés, que, ao menos que se lesione, jogará de qualquer forma no Bernabéu, repetiu a mesma jogada e foi amarelado", comparou o treinador, querendo deixar claro que mesmo aqueles que não estavam pendurados poderiam repetir a jogada de Piqué, como aconteceu com Valdés.

Em Madrid, como não poderia deixar de ser, já há quem queria de qualquer maneira a suspensão de Piqué. Há uma temporada, vale lembrar, Xabi Alonso e Sergio Ramos forçaram a expulsão numa partida contra o Ajax, pela Champions, para poder chegar limpo nas oitavas-de-finais e foram julgados e tidos como "culpados". Desde que entrou em vigor, a nova regra só foi aplicada uma vez, em uma partida correpondeste à terceira divisão do campeonato regional do País Basco.

Atualização: sexta-feira (02/12), às 20:09.
Piqué poderá jogar o superclássico. A RFEF não considerou que Piqué queria ganhar tempo, já que restava quatro minutos para o fim do jogo e o placar era considerável para o Barcelona (4 a 0). Guardiola declarou que Piqué não sabia sobre a regra e que, a partir de hoje, para evitar polêmicas, "já sabe e não fará mais algo semelhante a esse".

sábado, 26 de novembro de 2011

O dérbi de Mendes

Jorge Mendes e Cristiano Ronaldo. O dérbi de Madrid é o dérbi de Jorge Mendes, empresário que terá 10 de 22 jogadores seus em campo (UEFA)

Mais tarde, às 17h (brasília), Real Madrid e Atlético de Madrid entrarão no Santiago Bernabéu para fazer um dos dérbis da capital mais quentes dos últimos anos. Durante a semana, José Mourinho e Gregório Manzano, desafetos convictos, trocaram farpas e só colocaram mais panos quentes no jogo de hoje à tarde.

Entretanto, alheio às notícias referentes ao jogo, uma curiosidade marca a partida: o dérbi marca uma vitória de Jorge Mendes, empresário português que verá 10 de 22 jogadores seus em campo mais tarde. Além disso, Mendes ainda é o gerente de José Mourinho. Desde seu espaço privado no Santiago Bernabéu, Jorge Mendes certamente viverá o dérbi como Alejandro Sanz: com o coração partido.

No lado merengue, Mendes representa Pepe, Fabio Coentrão, Ricardo Carvalho, Di María e Cristiano Ronaldo, além de Mourinho. Pelo lado rojiblanco, Tiago, Pizzi, Falcão García, Sílvio Miranda. Sob as luzes do Bernabéu, Jorge Mendes irá compartilhar alguns de seus mais ilustres representados. Para começar, no banco de reservas, José Mourinho, o homem que se tornou sob a sua tutela o treinador de mais sucesso e mídia do mundo. O Special One.

Todavia, o melhor vem no gramado. Oito futebolistas empresariados pela empresa Gestifute sobre o terreno de jogo. Dos seus pupilos, três irão perder o jogo por lesão: os rojiblancos Sílvio e Falcão García não se recuperaram de lesão muscular e estão fora do jogo, assim como o madridista Ricardo Carvalho. No mais, todos os outros, ainda que alguns, como Di María e Pizzi, sintam desconfortos, estão à disposição de seus treinadores.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Mais problemas

A família Nadal, representada por Miguel Ángel Nadal, se desligou do Mallorca: os problemas não param (Marca)

As diversas desavenças entre Michael Laudrup, ex-treinador do Mallorca, e Serra Ferrer, vice-presidente do clube, valeu o cargo do dinamarquês, que foi oficialmente demitido do clube de Palma de Mallorca no início da semana passada. Em sua despedida, o ex-jogador afirmou, entre inúmeros motivos de sua decisão de deixar o cargo de treinador, que não concordava com a política de contratações do clube, que, segundo ele, não cumpriu com as palavras ditas antes do início da temporada.

A decisão de Laudrup de deixar o clube aconteceu um dia depois do seu assistente Erik Larsen ser demitido por dizer que Serra Ferrer é uma "pessoa ruim". O ex-jogador dinamarquês tinha criticado a decisão do clube de vender vários jogadores, incluindo o atacante Pierre Webó e o meio-campista Jonathan De Guzman durante a última janela de transferências. O clube de Palma de Mallorca é um dos vários da Espanha que teve de buscar proteção contra a falência nos últimos anos (lembrem-se da perda da vaga na Liga Europa passada, por dívidas enormes com a Uefa e o governo espanhol). Sua nova diretoria, portanto, adotou uma política de austeridade. "Eu não vim aqui pelo dinheiro. Eu vim porque era um bom projeto", disse Laudrup, em suas palavras finais.

Os problemas internos, que quase minaram as duas últimas temporadas do Mallorca, continuam imperando no clube mallorquino. Logo após a demissão de Laudrup, membros da Federação de Peñas Mallorquistas se reuniram nos arredores do Iberostar Estadio para discutir sobre os problemas do club. Em um dos assuntos em pauta, os sócios-torcedores chegaram a um consenso unanime e pediram, diretamente ao clube, a demissão de um dos conselheiros da chapa de Ferrer, Gabriel Cerdàs, que, segundo eles, não tem respeito a imagem do clube e aos outros membros da comissão técnica. Apesar do clima de tensão pairando sobre o ambiente do Mallorca, em uma reunião entre os dirigentes do clube nenhum membro da comissão-técnica foi demitido, apesar do pedido das peñas e da especulação da imprensa espanhola de que Ferrer iria demitir Pedro Terrasa, diretor geral do clube que foi acusado publicamente pelo vice-presidente pelo principal responsável pela crise interna com a qual vive o clube.

Para completar uma crise sem fim, a família Nadal, representada pelo ex-jogador Miguel Ángel Nadal, se desligou oficialmente do clube, em anúncio feito hoje à tarde, como o Marca havia especulado há uma semana. "Lamentamos a imagem que está sendo projetada nestes últimos dias", afirmou o presidente do Mallorca, Jaume Cladera, que garantiu que, apesar das divergências, a família do tenista Rafael Nadal seguirá tendo 10% das ações do clube. Os problemas extracampo, contudo, não vêm afetando muito o desempenho dos baleares dentro de campo: os bermellones ocupam a décima-colocação, com duas vitórias, um empate e três derrotas.

Injeção de ânimo?

Em 2004, Ferrer era presidente do Bétis e Caparrós treinador do Sevilla. Hoje, os dois estarão do mesmo lado no clube balear (LFP)

Para o lugar de Michael Laudrup, Serra Ferrer anunciou na última quinta-feira um velho conhecido dele e do futebol espanhol: o andaluz Joaquín Caparrós, ex-Deportivo, Sevilla e Athletic Bilbao. Coincidentemente, o vice-presidente do Mallorca é sócio do Bétis, enquanto o novo treinador é sócio do Sevilla. Durante a temporada 2004/2005, os dois se "encontraram" no outro lado da moeda: enquanto Ferrer caminhava para sua segunda temporada à frente da presidência verdiblanca, Caparrós acumulava êxitos com os nervionenses. Os dois nunca foram amigos, é verdade, mas sempre manteram a educação em público. Agora, "jogarão" juntos no mesmo lado por um único motivo: ajudar o Mallorca.

Em campo, Caparrós, que costuma utilizar o 4-4-2 com dois volantes e dois meias no suporte aos atacantes, deverá apostar no 4-2-3-1 variando para o 4-1-4-1 de Laudrup. A defesa deverá seguir a mesma com o canterano Pedro Bigas na esquerda, enquanto Cáceres e Kevin não voltarem de suas respectivas lesões. O meio-campo, aliás, deverá ter algumas alterações: Michel Pereira deverá aparecer no lugar de Nsue, que iniciou muito mal a temporada, e Alfaro deve ser deslocado para a linha de três, abrindo espaço para Victor no ataque. Os primeiros jogos de Caparrós sob o comando rojo irá requer uma série de atenção e concentração: Valencia, Atlético de Madrid, Sporting Gijón e Barcelona. Uma prova de fogo para o treinador.

sábado, 27 de agosto de 2011

Pagando o preço

Texto de Pierre Andrade, do Futebol Espanhol.

Era começo de tarde, e o radialista Juan Prieto se dirigia ao Los Carménes para, 35 anos depois, voltar a narrar um jogo do Granada na primeira divisão espanhola. Ao chegar aos portões do estádio com sua equipe de transmissão foi prontamente barrado pelos seguranças e impedido de entrar.

Isso porque, tentando arrumar formas de pagar suas enormes dívidas, os clubes, juntamente com a LFP e Mediapro, canal de Tv que detêm os direitos de transmissão, decidiram começar a cobrar das rádios uma taxa para a difusão dos jogos. Estipularam valores que vão de 1,5 milhões de euros até 4 milhões de euros por rádio, a depender da sua audiência.

Ou seja, a emissora que não pagar a taxa não poderá transmitir os jogos de dentro do estádio. É a primeira vez em oitenta anos que isso acontece. Para burlar esse tipo de censura, as empresas radiofônicas farão as transmissões através das imagens da Tv. E os repórteres irão ao estádio munidos de telefone celular para passar as informações da tribuna de honra.

Sem as rádios para transmitir os jogos, mais pessoas irão procurando os canais a pago da Mediapro para assinar o pay-per-view e ver seu time de coração em campo. Não à toa, essa atitude coincide com a diminuição do número de partidas televisionadas nos canais abertos do país. É a tentativa dos clubes de jogar a conta final das suas dívidas em cima dos torcedores e das rádios.

Porém, essa batalha tem motivos para não se estender por muito tempo. E ela deve pender a favor das emissoras. Isso porque o artigo 20 da Constituição Espanhola estabelece o direito fundamental à informação, direito de obter e disseminá-las livremente, sem restrições. Além disso, Sevilla e Zaragoza, duas equipes que lutam por uma repartição mais justas dos direitos de Tv entre os clubes, se recusaram a aderir ao movimento. Assim, quando essas equipes jogarem em casa, qualquer rádio poderá transmitir suas partidas, como irá acontecer no duelo entre Zaragoza-Real Madrid e Sevilla-Málaga nesta rodada.

Pelo menos por enquanto, Juan Prieto terá uma espera mais agônica para narrar os jogos do estádio, que a de ver o Granada definhar pelas divisões inferiores da Espanha.

domingo, 21 de agosto de 2011

Amigos e rivais

Pablo Sarabia foi o último jogador das canteras do Real Madrid a chegar no Getafe (getafecf.es)

A rivalidade existente entre Real Madrid e Getafe não é das mais intensas. A começar pelas relações extracampo. O Getafe, vale lembrar, foi fundado por parte de sócios do Real Madrid que estavam insatisfeito com a gestão do clube merengue à época. Algo que vem se tornando comum na política de contratação azulona é a compra (ou empréstimo em alguns casos) de jogadores das divisões de base do Real Madrid. Em uma lista levantada pelo Marca, nada mais nada menos que 11 jogadores saíram de Valdebebas rumo a Getafe nas últimas seis temporadas.

Ángel Torres, presidente do Getafe, e Toni Muñoz, diretor esportivo, são os principais responsáveis por isso: desde que chegaram aos respectivos cargos que o clube tem investido nesse tipo de contratação. A mais recente é uma das maiores promessas do futebol espanhol: Pablo Sarabia. Um dos principais nomes da campanha da Espanha no título do europeu sub-19, o jovem de 19 anos assinou um contrato pelas próximas cinco temporadas com o Getafe. O Real Madrid, no entanto, colocou na cláusula do meio-campista uma opção que tem se tornado comum em negociações como esta: a recompra. Se pagar seis milhões de euros, os blancos poderão ter Sarabia de volta já na próxima temporada.

O meio-campista canhoto não deverá ser, a princípio, titular em seu novo time. As saídas de Manu Del Moral e Dani Parejo a Sevilla e Valencia, respectivamente, tiraram uma das principais espinhas-dorsais do Getafe nos últimos anos, mas a diretoria acertou com Lacen (Racing Santander) e Rodríguez (Deportivo), além de Sarabia, para suprir a ausência dos dois jogadores. Na prática, Sarabia irá brigar por uma vaga de titular com três jogadores mais experientes e que custaram alguns euros a mais.

A primeira aposta de sucesso veio com Riki (hoje no Deportivo), em 2004/2005. O atacante chegou a custo-zero após boa campanha com o Real Madrid Castilla na Segunda División B. Em duas temporadas, e apenas uma como títular incontestável, foram 25 gols, bom número àquele que chegou sem pressão alguma e de graça. Em 2006/2007, Augusto César Lendoiro, presidente do Deportivo, desembolsou 3 milhões de euros para levá-lo à Galícia. Nesta mesma temporada, o Getafe pagou 1,5 milhões de euros ao Real Madrid pelo lateral do Castilla, Javier Paredes. Ficou apenas uma temporada e, pelo mesmo preço, rumou ao Zaragoza.

Dos que vingaram
Ángel Torres voltou a evidenciar seu olfato pelas canteras blanca em 2007/2008. Naquela temporada, após boa campanha na temporada 2006/2007 (confirmada após a virada espetacular na Copa do Rei para cima do Barcelona), chegaram ao Coliseum Álfonso Pérez Esteban Granero e Rúben De La Red. Por ambos, a diretoria pagou 3 milhões de euros. A aposta deu certo: os dois viraram os principais nomes do Getafe na temporada, sendo os principais responsáveis pela excelente campanha na Copa da Uefa e pelo vice-campeonato da Copa do Rei. A De La Red, rendeu até uma convocação à Fúria, onde fez parte do plantel campeão da Eurocopa, e a volta ao Real Madrid, por 5 milhões de euros.

Porém, como todos sabem, a volta de De La Red ao principal clube da capital não foi as das mais sonhadas: após alguns jogos como titular, Rúben desmaiou em campo em um jogo pela Copa do Rei contra o Real Unión devido a um problema cardíaco e nunca mais voltou a disputar uma partida oficial, aposentando-se do futebol. Hoje, o ex-jogador faz parte da equipe técnica do Real Madrid. “Este é o clube que me viu crescer e hoje anuncio minha retirada dos gramados. Um problema me obriga a parar, mas meu coração continua batendo pelo Real Madrid”, afirmou De La Red, entre lágrimas, no dia que anunciou sua aposentadoria.

Um ano depois da volta e do problema de De La Red, Florentino Pérez voltou a presidência do Real Madrid e pagou 4 milhões de euros para repatriar Granero. Inicialmente, El Pirata surpreendeu ao deixar, em meados da temporada, Kaká, que havia custado 57 milhões de euros a mais, no banco. Porém, após a chegada de Özil, Granero viu o banco de reservas por muitas vezes na temporada. No entanto, o meio-campista afirmou em entrevista ao Marca que Mourinho confia em seu futebol e que não pensa em sair do clube. Dani Parejo chegou a ser especulado com força para voltar, mas o Valencia ofereceu uma proposta melhor e El Niño de Ouro acabou acertando com os Chés.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Sem pressão

Guardiola, Bartomeu e Zubizarreta trabalham para reforçar o Barcelona sem gastar muito (getty images)

Reforçar o plantel, sim. À qualquer preço, não. Desde que chegou ao Barcelona, a mensagem de Guardiola a cada mercado é exatamente esta. Após a experiência negativa com o Ibrahimovic, contratação mais cara da história do Barcelona (45 milhões de euros + Eto'o), o trauma por jogadores caros aumentou. Pep, segundo a imprensa catalã, já recusou nomes como Benzema, Robinho, Özil, Mascherano - este teve que voltar atrás - e, recentemente, Neymar. Entretanto, Luis Alvaro, presidente do Santos, confirmou ontem que o Barcelona ofereceu sim uma proposta oficial pelo ídolo da Vila Belmiro.

Para a nova temporada, a ideia de Guardiola é reforçar a equipe com, no máximo, quatro jogadores. Estes, como vêm sendo especulado com força, seriam Cesc Fàbregas, Alexis Sánchez, Giuseppi Rossi e Javier Pastore/Kiko Femenia. No caso do chileno da Udinese e do jovem do Hércules, os respectivos presidentes de seus atuais clubes já confirmaram a transferência ao clube azulgrená, restando, apenas, a confirmação oficial do clube. Rossi parecia muito próximo do Barça, mas a pressão do empresário do jogador e o preço estabelecido pelo Villarreal teria feito com que a diretoria blaugrana, com o aval do treinador catalão, tivesse ficado insatisfeita em levá-lo à Catalunha. A experiência com um empresário chato (Mino Raiola, gerente de Ibrahimovic e Maxwell), que fica criticando frequentemente as atitudes do treinador, também foi um dos motivos para que, temporariamente, o Barcelona desistisse de Rossi para focar em outras contratações.

Contudo, mesmo Guardiola sendo bastante temerário quanto a economia do clube, isso não significa que o Barcelona irá desistir fácil de seus planos de contratações. O treinador já ratificou que está em sintonia absoluta com as decisões de Josep Maria Bartomeu e Andoni Zubizarreta, diretor esportivo do clube, encaminhados a pagar um preço definido pelos jogadores e não protagonizar um leilão. O caso Fàbregas é o mais comentado a cada mercado. Futebolista tido como essencial para uma equipe para Guardiola, os problemas são os mesmos dos verões passados: o capitão do Arsenal deseja regressar ao Barcelona (já reiterou seu desejo em entrevista ao site da Uefa) e o Arsène Wenger já até teria disposto a liberá-lo. Entretanto, a diretoria do clube londrino reclama que os 40 milhões de euros propostos pelo Barcelona não é o suficiente para levar a bandeira de seu clube de volta à sua terra natal.

Zubizarreta e Bartomeu estão cientes de todos os problemas econômicos do clube, que, através de seu presidente, confirmou que tem apenas 50 milhões de euros para gastar no mercado de verão. Além disso, seguir uma política de transferência semelhante à do rival da capital, que torra dinheiro em estrelas, nunca foi do estilo do Barcelona e de Guardiola. Portanto, mesmo que a torcida exerça uma pequena pressão para que a diretoria reforçe o plantel, subir alguns jogadores da base será, novamente, um "tapa-buraco" para o clube, que não promete fazer chover no mercado.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A oportunidade de Bojan

Bojan foi do mais a menos no Barcelona e a transferência para a Roma de Luis Enrique pode ser sua grande oportunidade (reuters)

O ida de Bojan Krkic à Roma merece uma maior reflexão sobre o papel que exerce a cantera barcelonista. Está claro que o primeiro objetivo é formar jogadores capazes de triunfar no Camp Nou, mas a de reconhecer que isso não cabe a todos, pois o desafio é tão abundante que, sem oportunidades, muitos jovens acabam escolhendo por buscar seu futuro longe da Catalunha. A estrutura do futebol base de La Masia é uma fábrica de produzir talentos, mas em circustâncias normais o plantel A incorpora apenas um ou dois jogadores a cada temporada, sendo que, raramente, esse jogador se fixa na equipe titular, como Pedro na temporada 2009/2010.

Como consequência, as transferências dos jovens promissores para outros clubes é algo que a diretoria blaugrana já está acostumada. Buscando progressão, muitos canteranos ficam insatisfeitos no clube e o aval do presidente do Barcelona é sempre compreendido nesse tipo de situação. Porém, desde a saída de Cesc Fàbregas ao Arsenal, e a consequente briga do clube com o Arsenal para trazê-lo de volta a cada mercado, há o caso da opção de recompra. E é esse o caso de Bojan. Na última terça-feira, Walter Sabatini, diretor esportivo da Roma, confirmou a transferência do Principito ao principal clube da capital italiana, por 10 milhões de euros e a opção de recompra após duas temporadas. A também ida de Luis Enrique ao clube, onde será o novo treinador, acabou influenciando muito o jovem, pois o técnico preza pelo estilo semelhante ao de Guardiola. Portanto, é de se esperar que Bojan adapte-se com facilidade ao esquema de Luis Enrique. Em Roma, no entanto, o obstáculo será grande: Totti, Borriello, Vucinic e Menéz são alguns dos atacantes que El Principito irá "rivalizar" para ganhar uma vaga na equipe titular.

De olho em Aléxis Sanchez, da Udinese, a quem o Sport já diz que será jogador do Barcelona nesta noite, o dinheiro pela venda de Bojan caiu como uma luva. No início da semana, Sandro Rosell havia dito que o clube só teria 45 milhões de euros para gastar no mercado, preço que a Udinese está pedindo pela transferência do chileno. Os 10 milhões de euros conseguidos por Bojan, no caso, já é suficiente para que se concretize a ida de Sanchez ao clube azulgrená sem a necessidade de envolver Jeffren no negócio. Embora ainda não tenha nada confirmado, Marco Branca, diretor esportivo da Inter de Milão, que estava atrás do chileno, disse que houve uma negativa por parte do jogador devido à vontade de jogar no Barcelona.

No final das contas, acabou pesando para Bojan sua precocidade: aos 17 anos, promovido por Frank Rijkaard, já fazia parte do elenco A e, ao término da temporada 2007/2008, foi um dos responsáveis pela saída de Ronaldinho, que acabou promovido ao banco de reservas em dentrimento do garoto-prodígio. As comparações frequentes com grandes estrelas do futebol espanhol e a ascensão de Pedro na equipe titular também foram problemas. Desde que Josep Guardiola assumiu o comando da equipe, procurou, sempre que possível, promover Pedro à equipe A. No início, os aficionados culés chegaram a "protestar" contra o técnico por preferir Pedro à Bojan, que havia terminado a temporada anterior com saldo extremamente positivo com a torcida. Entretanto, não houve mais jeito: Pedro se fixou na equipe titular decidindo jogos importantes e decisivos, tornando-se o novo xodó da torcida culé.

Fato é que a estadia de Bojan no Barcelona acabou progredindo inversamente. Na temporada de estreia, surgiu como um meteoro, e marcou 11 vezes em 40 partidas, sendo que tornou-se o jogador mais jovem a marcar na Liga Espanhola trajando azulgrená e o segundo mais jovem a marcar na LC (17 anos e 22 dias). Em 2008/2009, anotou 7 vezes em 36 e foi o artilheiro da Copa do Rei ao lado de Lionel Messi conquistada pelo Barcelona. Na temporada seguinte, 12 vezes em 35. No total, e contando com a temporada passada, El Principito marcou 37 vezes em 148 encontros. Sem confiança e necessitando de mais minutos e gols, Bojan parte para a Roma com um "até breve". Tem apenas 20 anos e um mundo pela frente.

domingo, 29 de maio de 2011

Getafe Dubai Team

Sheikh Butti bin Suhail al Maktoum prometeu uma série de medidas para montar um Getafe mais forte. Terá sucesso? (guardian)

"Aumentar o orçamento anual de € 40 milhões para até € 65 milhões para permitir ao clube concorrer todas as temporadas por vagas em competições europeias". É esse o discurso básico da Royal Emirates, grupo de investimentos com sede em Dubai e presidido pelo xeique Butti bin Suhail al Maktoum, ao anunciar a compra do Getafe. Parece bonito, soa mais como ação profissional que como excentricidade de algum trilionário mimado do Oriente Médio cansado de brincar com sua coleção de Ferraris. Pode até ser, mas difícil imaginar como essa conta vai fechar.

No anúncio do negócio, Ángel Torres, presidente do Getafe (continuará no cargo), afirmou que serão investidos cerca de € 90 milhões nos primeiros três anos (valor extra, além do que o clube normalmente já dispõe de suas fontes tradicionais de renda). Normalmente, o Azulón se vira bem com menos que isso, mas, se quiser se equiparar ao grupo de clubes que costumam povoar essa parte da tabela, o valor prometido pode ser insuficiente. Não há dúvidas que Real Madrid e Barcelona são as duas potências destacadas do país e, salvo alguma temporada catastrófica, quase sempre terão duas vagas na Liga dos Campeões. Desse modo, o segundo grupo briga por duas vagas na LC (economicamente, as duas da Liga Europa só servem de consolo). Nesse pelotão está o Atlético de Madrid, 17º no relatório das finanças do futebol preparado pela consultoria Deloitte, com receitas de € 124,5 milhões na última temporada. O Sevilla foi o 24º, com € 99,6, seguido pelo Valencia, que faturou € 99,3. O Villarreal, outro concorrente desse grupo, não entrou no top 25 do ranking.

Em uma temporada ou outra, até é admissível que o Getafe consiga disputar em campo com esse quarteto, mas a tendência é que fique para trás. Ou seja, os tais € 65 milhões anuais não colocariam o clube madrileno no grupo dos que brigariam sempre pela LC. Ou os árabes colocam mais dinheiro, ou o clube viverá de um ou outro ano em que as peças se encaixam. Aos poucos, a conta fica mais difícil de fechar. Sem participações constantes em copas continentais, o faturamento é limitado ao Campeonato Espanhol e à Copa do Rei. Na temporada 2009/10, o Getafe ganhou € 18 milhões da TV. É menos que qualquer um dos quatro integrantes do segundo grupo (que estão entre € 42 e 24 milhões), mas dificilmente o clube conseguirá melhorar muito esse valor. O Athletic Bilbao, com muito mais torcida e tradição, leva apenas € 17 milhões. Os azulones estão à frente por representarem o mercado de Madri, mas mesmo nesse quesito podem perder força, devido à provável promoção do Rayo Vallecano.

Outro caminho seria aumentar o faturamento em bilheteria. A ideia, porém, soa surreal. Até o início de maio, a média de público do Getafe era de 10.916 pagantes, a pior do Campeonato Espanhol. Não é fácil imaginar uma melhoria significativa disso. Primeiro, porque o clube tem de conviver com a forte concorrência de Real Madrid e Atlético na cidade e sua torcida é realmente pequena. Segundo, porque o Coliseum Alfonso Pérez tem capacidade para apenas 17 mil pessoas. A prefeitura de Getafe, dona do estádio, já disse que os investidores poderiam bancar uma nova arena, mas seria mais custo para esse projeto árabe. A venda de jogadores também não traz otimismo, ainda que os investidores árabes tenham chegado para reduzir esse problema. O Getafe sempre fez boas campanhas com elencos baratos, mas não é um grande vendedor em comparação com Sevilla e Valencia. Apenas duas transações estiveram acima de € 10 milhões (e passaram raspando) e nenhum dos jogadores envolvidos é prata-da-casa ou teve o clube como primeira parada dentro do futebol espanhol, sinal da ineficiência das categorias de base getafistas.

Com essas dificuldades, os azulones ainda têm esperança, olhando para o exemplo do Villarreal. De fato, ambos são clubes de orçamentos pequenos. Mas as semelhanças não vão muito além disso. O Submarino Amarillo já tem larga experiência em trabalhar nesse mercado, é gerido por um empresário que conhece as nuances do futebol espanhol, conta com categorias de base organizadas há vários anos e tem uma torcida razoável por ser o único representante forte de sua região (a média de público é de quase 19 mil, maior que o estádio getafista). Desse modo, o investimento dos árabes no Getafe – um pensamento que vale também para Málaga, pertencente a um xeique do Catar, e Racing de Santander, comprado por um empresário indiano – não tem perspectiva de retorno direto. A estrutura do futebol espanhol simplesmente não dá espaço para um pequeno virar um novo-grande, como é até possível na Inglaterra, na Alemanha e na Rússia. Ou o objetivo é fazer barulho e ter retorno pela repercussão, ou é realmente um luxo de algum trilionário cansado de suas Ferraris. Pode ser bom para a torcida do Getafe em curto prazo, mas não tornará o Campeonato Espanhol mais ou menos competitivo como um todo.

sábado, 28 de maio de 2011

Kunfusão

Em semana de Barcelona na final de UCL, o destino de Agüero foi um dos assuntos mais falados na imprensa espanhola (reuters)

Na segunda-feira, 21 de maio, Agüero escreveu em seu twitter: "meu ciclo no Atléti está chegando ao fim. Quero partir". Logo após as palavras escritas por Kun, as especulações sobre o futuro do atacante aumentaram. Manchester City, Chelsea, Real Madrid, Juventus e Inter de Milão correm atrás para contratar o argentino, dono de uma temporada brilhante. Thomas Ujfalusi, (ex) companheiro de Agüero no Atlético de Madrid, deixou vazar que o atacante queria continuar em Madrid, mas no Real Madrid. Gil Marín, conselheiro do Atlético de Madrid, logo tratou de acalmar os ânimos da torcida, enfurecida pela provável venda de seu melhor jogador: "a Juventus foi a única equipe que oficializou a proposta. Mas só liberaremos o jogador se pagarem a multa recisória, de €45 milhões", afirmou.

Enquanto o atacante está de férias na Argentina, aguardando a confirmação da lista de Sérgio Batista, técnico da seleção argentina, que disputará a Copa América, o assunto em Manzanares não é outro senão o futuro do argentino. Nas próximas horas, quando o treinador da albiceleste anunciará os jogadores que farão parte do elenco que disputará a competição, o já ex-Atléti dará uma coletiva de imprensa para esclarecer seu futuro no futebol. O Real Madrid segue sendo o maior objetivo do jogador, de acordo com o AS, que até especula que já chegou a um acordo com Florentino Pérez para as próximas cinco temporadas. O presidente merengue, porém, não quer iniciar uma espécia de hostilidade com a diretoria colchonera em torno da contratação do bonaerense. Florentino, todavia, já chegou a afirmar que Kun não está nos planos do clube merengue, que já anunciou as contratações de Sahin, Altintop e Callejón.

Gil Marín já chegou a afirmar que "seria impossível que Agüero se transferisse para o Real Madrid", mas a possibilidade é, sim, remota, como próprio disse o atacante. A diretoria rojiblanca tem em mente evitar o máximo possível uma transferência de Agüero para seu maior rival, algo que, muito provavelmente, os torcedores não perdoariam. Uma possível ida de Agüero a Chamartín poderia ser o ápice de uma relação sempre conflituosa (torcida x diretoria). Apesar da suposta existência de um pacto "de não agressão" entre os dois clubes, contemplado por Florentino Pérez, a existência da "cláusula" antimadridista poderia quebrar qualquer acordo entre os clubes. O preço de mercado de Agüero é de 45 milhões de euros, como anunciado anteriormente.

Há também outros clubes em que Kun está na órbita. Uma possível transferência a outra liga é o máximo interesse do Independiente, clube de origem do atacante, que receberia 2,5 milhões de euros do que 500 mil se Kun acabar assinando com alguma outro clube espanhol. Fato é que já não há mais nenhuma chance de Agüero permanecer em Manzanares, pois muito possivelmente uma das equipes pagarão a multa rescisória. Para isso, o Atlético de Madrid começa a se mexer.

O ataque é o setor onde muito provavelmente será mais reformulado para a próxima temporada. Osvaldo, do Espanyol, Hulk e Falcão, do Porto, são os mais especulado para o setor ofensivo colchonero, que também não terá Forlán. O promissor Adrian González, do Deportivo, já fora contratado em janeiro e tem futebol suficiente para suprir a ausência de Kun: para isso, basta ter seu futebol lapidado na capital.
Outro que está de saída do Atléti é o jovem De Gea, que será anunciado nesta segunda como novo jogador do Manchester United. Com tantas saídas, fica claro que o segundo maior clube da capital espanhola passará por um processo de redimensionamento (ou seria apequenamente, de fato?).