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domingo, 11 de dezembro de 2011

A vítima da vez

Arriba. Variações táticas de Guardiola durante o jogo deram um nó tático em Mourinho (reuters)

Após Juande Ramos e Manuel Pellegrini, um novo treinador do Real Madrid caiu nas mãos de Guardiola: em um de seus raros momentos de "derrotas individuais", Mourinho recebeu um nó tático do catalão na derrota de ontem. Vitor Sergio, blogueiro e comentarista do Esporte Interativo, definiu muito bem o superclássico: o craque do jogo foi Josep Guardiola. Do banco, mudou a história do clássico alterando o posicionamento tático de seu time no meio do primeiro tempo.

Inicialmente, não inventou. Mandou a campo o 4-3-3 usual, com Puyol e Piqué na zaga. Ao longo da semana, muitas dúvidas foram aparecendo quanto à escalação de Villa, Sánchez, Pedro ou Fàbregas para fazer companhia a Messi. E, na frente, o treinador optou pela fase, mostrando que foi o melhor a fazer: Alexis Sánchez e Fàbregas começaram entre os titulares e marcaram uma vez cada. Cuenca, que também aparecia como opção, acabou cortado, e nem no banco de reservas ficou. Guardiola afirmou após a partida que preferiu deixar à sua disposição apenas os jogadores da equipe A.

O plano de Guardiola caiu por água abaixo em questão de segundos, com o gol de Benzema aos 25. Puyol marcava Cristiano Ronaldo, Busquets colava em Özil, Piqué cercava Benzema e Abidal vigiava Di María. A pressão provocada pelo Real Madrid nos primeiros quinze minutos não deu a Pep a chance de pensar duas vezes: para sair da armadilha de Mourinho, só mudando o módulo tático. Após o Real Madrid dar uma desafogada na marcação pressão, Pep repaginou o Barcelona: recuou Busquets para jogar com zagueiro, deslocou Puyol para marcar no mano a mano Cristiano Ronaldo e deixou Daniel Alves mais à vontade.

Os dois Barcelona do primeiro tempo. O primeiro (4-3-3), antes dos 30 minutos, e o segundo (4-4-2), após os 30 minutos (clique na imagem para ampliar)

Fábregas e Iniesta passaram a alternar na esquerda, enquanto mais à frente Messi voltava e flutuava às costas dos volantes adversários, com Alexis Sánchez alternando pelos flancos e o centro. O gol de Sánchez nasceu após Messi arrancar na zona morta, como quis Guardiola. Deixou Özil, Xabi Alonso e Lass para trás e tocou para o chileno, com calma, esperar a hora certa para finalizar e empatar.

No segundo tempo, a mudança que marcou a primeira vitória definitiva de Guardiola sobre Mourinho: um 3-4-3 com Puyol, Piqué e Abidal fixos na linha de três, não avançando em nenhum momento. Daniel Alves, como ala direita, pôde ter mais facilidade para avançar devido a Puyol sempre estar na cobertura de seu setor. O brasileiro era o principal revés do esquema, porque avançava muito e ninguém ficava em sua cobertura. O gol de Fàbregas ratificou bem o poderio do esquema. Messi avançou novamente e tocou para Daniel Alves cruzar como um ponta na medida para Cesc sentenciar o superclássico.

football formations
O 3-4-3 da segunda etapa que engoliu os merengues. Daniel Alves, sem preocupação com a marcação, fez ótima partida, cruzando para Fàbregas marcar

Se a primeira etapa foi marcada pelo equilíbrio das ações, com o Real Madrid levando um pouco de vantagem, o segundo tempo deixou bem claro quem -continua sendo - é a melhor equipe do mundo. O Barcelona simplesmente engoliu o time de Mourinho nos 45 minutos finais. Técnica, tática, psicologica e fisicamente. O primeiro nítido triunfo estratégico de Guardiola sobre Mourinho.

Os blaugranas soubera se adequarem às circunstâncias da disputa. Apesar da fase inconstante, ainda sobra em grandes jogos e reforça o favoritismo absoluto no Japão para fechar 2011 com mais um título e nas demais competições. Mourinho ainda terá muito tempo para trabalhar, mas pelo visto tanto em âmbito espanhol, quanto em solo europeu, o dono do futebol no momento continuará copando as taças.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Mandamentos mal cumpridos

Mandamentos de Mourinho não foram cumpridos à risca. Faltou o principal: orar (getty images)

O cenário não era dos mais animadores para o Barcelona. A fase do Real Madrid, realmente, é (ou era?) melhor que a dos blaugranas e, com 25 segundos de jogo, já perdiam a partida por um a zero. Mas a equipe se ajustou e foi buscar o resultado, virando para 3 a 1. Uma vitória que coloca, provisoriamente, a equipe de Josep Guardiola na liderança da Liga BBVA (vale lembrar que o Real Madrid tem um jogo a menos). A visão barcelonista do confronto ficará para amanhã. Hoje, a análise do Real Madrid.

Mourinho fez um planejamento especial para o confronto. Ao longo da semana, o Marca revelou que o técnico nascido em Setúbal preparou dez mandamentos para os seus jogadores. Os mandamentos foram levados a sério, até o primeiro gol barcelonista, que desanimou o Real Madrid e fez com que o plano de jogo de Mourinho caísse por água abaixo. Abaixo, uma análise de cada mandamento durante o jogo

1) Não levar gol ou, pelo menos, o primeiro
Tudo certo, em parte. Benzema, após bobeira de Valdés, marcou o primeiro gol da partida aos 25 segundos. O Real Madrid não levou o primeiro gol, mas sofreu depois a virada. No primeiro gol, Messi veio carregando a bola desde um pouco atrás do campo defensivo, fez o carnaval e deixou Alexis Sánchez em condições para empatar a partida. No segundo, Iniesta, até então sumido, fez boa jogada e, num bate e rebate, Xavi chutou e a bola desviou em Marcelo, enganando Casillas. No terceiro, Messi novamente veio carregando a bola pelo meio, ninguém deu o bote e La Pulga abriu na direita para Daniel Alves livre. O baiano, muito bem hoje, cruzou na medida para Fàbregas ganhar de Coentrão no alto facilmente e sacramentar o jogo.

2) Que o público faça de todo o Bernabéu um inferno
E fez. Mas, como nos outros jogos, desanimou ao longo do jogo. Até o gol de Sánchez, fazia um barulho ensurdecedor. O Barcelona empatou e a festa continuou, ainda que em outro nível. Despencou após o gol de Xavi. O Barcelona começou a tocar a bola, não deixou o Real Madrid jogar e a torcida desapareceu. Ao fundo, a festa era dos 435 culés que viajaram à capital para assistir à partida. Ah, sim: o único gesto de barulho da torcida merengue após o terceiro gol foram as vaias, ainda que pequena, a Cristiano Ronaldo, novamente terrível em um superclássico.

3) Esqueçam o árbitro, olho nos cartões
Ok. Nada a comentar. Só uma observação: os blancos abriram a caixa de ferramentas nos minutos finais, principalmente Sergio Ramos.

4) Aproveitar a força do jogo aéreo merengue
O pior deles. Todas as bolas que Di María, Marcelo ou Özil tentaram levantar à área azulgrená foram erradas ou desviaram e saíram. Nos escanteios, Piqué e Busquets ganharam todas, quando Valdés não saia e defendia. Apenas uma bola pelo alto levou perigo: no final da partida, Cristiano Ronaldo errou incrivelmente uma cabeçada cara-a-cara com Víctor Valdés. Este ponto poderia ser aproveitado muito mais, já que o Barcelona, volta e meia, falha pelo alto.

5) Não se pode perder a bola de vista nem sequer por um minuto

6) Fechar bem os espaços
7) Esforço extremo e mobilidade para acuar o Barça
8) Intensidade, pressão, verticalidade e muito ritmo
Esses quatro serão analisados juntos. Até os primeiros 30 minutos do clássico, o Real Madrid jogou com o sangue nos olhos. Fechou bem os espaços, não deixou Iniesta jogar, Messi tinha a vida dificultada e Piqué e Valdés eram obrigados a darem chutões para frente. Mas, volto a bater na tecla: tudo isso desabou após o gol de Sánchez. No segundo tempo, após o terceiro gol, o Barcelona ficou mais solto e o Real Madrid tentou buscar a virada mais na base da vontade.

Verticalidade também deveria ser mais usada. Di María tentou e, ainda que não estivesse em seu melhor dia, deu trabalho a Abidal. Correu o campo inteiro e cansou, sendo substituído por Higuaín. Cristiano Ronaldo é um capítulo à parte: mais uma vez, sai de um superclássico com uma nota negativa. Omisso, parecia estar com a cabeça distante do Bernabéu. O gol perdido no primeiro tempo não foi digno do segundo melhor jogador do mundo.

Özil é armador. Ou seja, sua função é armar. Só deixou Benzema em condições de gol apenas uma vez, no segundo tempo. Viveu de lampejos, como vem na temporada. Se "destacou" mais pela vontade e na entrega. Disposição não faltou. Faltou futebol, que todos sabem que o turco-alemão tem.

9) Concentração e coordenação de movimentos

Aqui, ok também. Os jogadores manteram-se concentrados o jogo inteiro, até mesmo após o baque que foi o gol de Xavi. Não houve falha nos gols barcelonistas (Fàbregas ganhou de Coentrão no terceiro gol por ser mais alto que o gajo).

10) Autoestima. Não se pode jogar com ansiedade
A autoestima merengue foi para longe depois da virada. Antes disso, os jogadores acreditavam sim que poderiam vencer o Barcelona. Mas não com muita ansiedade. Concentrados e buscando o segundo gol, foram para cima do Barcelona no primeiro tempo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Casa de maternidade

No histórico Real Madrid 2-6 Barcelona, Guardiola usou pela primeira vez como Messi de falso nove. E deu muito certo (getty images)

2 de maio de 2009. Josep Guardiola chegava pela primeira vez ao Bernabéu como técnico. Em jogo, uma Liga: a diferença entre Barcelona e Real Madrid, faltando quatro rodadas para o término, era de um ponto. Quem vencesse levaria o título para casa, praticamente. Uma competição que adquiriu maior valor após o empate de 0 a 0 entre os blaugranas e o Chelsea, quatro dias antes, no Camp Nou, pela semifinal da Champions League (o Real Madrid havia sido eliminado nas oitavas-de-finais para o Liverpool). Messi, contra os blues, foi anulado por Bosingwa e não apareceu no jogo. Assim, Guardiola teve três dias para preparar sua equipe para o grande duelo. E, com uma carta na manga, preparou uma surpresa para o até então treinador do Real Madrid Juande Ramos.

Admirador confesso de Johan Cruyff, com quem havia sido campeão europeu como jogador, Guardiola novamente se inspirou no holandês, que sempre buscava alguma mudança tática em suas visitas à capital. Entretanto, a diferença era clara. Cruyff, por um lado, fazia mudanças defensivas, com o objetivo de neutralizar o ataque blanco, enquanto que Guardiola introduziu uma variação ofensiva a fim de favorecer e dar mais otimismo ao jogo de sua estrela máxima, Lionel Messi, que, segunda havia especulado a imprensa à época, havia saído de campo contra o Chelsea bastante triste pelo mau jogo.

Guardiola, então, mudou a definição de seus jogadores de ataque do 4-3-3. Puxou Eto'o para fazer a ponta direita, tarefa que não deve ter sido fácil, e situou Messi numa linha à frente de Xavi e Iniesta e atrás de Eto'o e Henry, mais ou menos como um enganche, que ora criava jogadas para os dois atacantes e ora ficava entre os zagueiros merengues para receber passes da dupla de meio-campista. Após o jogo, Messi foi sintático na definição de sua posição naquela tarde: "joguei como um nove mentiroso", disse La Pulga, rindo. Messi teve liberdades de movimentos para buscar entradas em uma zona ou outra. O nó tático de Guardiola em Juande Ramos foi tão grande que, vez ou outra, Marcelo e Heinze, que invertiam posições e, inicialmente, marcariam diretamente Messi, chegaram a seguir o argentino no meio deixando espaços suficientes para Eto'o marcar. Um sinal claro de desespero.

Em Roma 2009, na decisão de Champions League, Messi marcou um gol digno de centroavante, decidindo o título azulgrená (zimbio)

O resultado foi um inesquecível 6 a 2, que deu uma injeção de ânimo monstruosa para os azulgrenás irem a Londres buscar a vaga na final. Na capital inglesa, Iniesta achou o gol da classificação aos 49 minutos do segundo tempo, numa partida marcada pela controversa arbitragem de Tom Ovrebo. Na final, Guardiola voltou a repetir a fórmula do sucesso em Madrid. Eto’o e Messi foram invertidos novamente e, dessa vez, foram deles os gols da vitória em Roma. Se na última decisão da Champions League Ferguson tomava café da manhã pensando em como parar o argentino pelo meio, naquela época ele esperava um embate com Evra, que chegou, assim como Heinze e Marcelo, a persegui-lo fora de seu setor em claro sinal de que o United não sabia o que fazer defensivamente. La Pulga sentenciou o tri-campeonato europeu aos blaugranas após cruzamento de Xavi e uma cabeçada digno de um centroavante.

Um mês depois da conquista da tríplice coroa, o Barcelona estaria de centroavante novo: em uma negociação com a Inter de Milão, pagou 45 milhões de euros aos nerazzuris mais Eto'o por Ibrahimovic, em excelente fase. Na ocasião, Guardiola escalou durante o primeiro semestre inteiro Ibrahimovic de centroavante e Messi aberto à direita, como em outrora. Não importa onde você coloca Messi, pois ele sempre vai brilhar. O problema foi quando Ibrahimovic, que após sair do Barcelona declarou não gostar de jogar como referência, esqueceu seu futebol, a partir do segundo turno. Muito parado, estragando as jogadas ofensivas rápidas barcelonistas e desperdiçando gols importante, o sueco perdeu a confiança que Guardiola havia depositado nele, a ponto de deixar Eto'o, um centroavante de origem, ir embora como se fosse nada.

Pep se deu conta que o melhor a fazer era deixar Messi como falso nove. E tornou-se definitivo. O camisa 10 fez uma sequência de três partidas geniais na posição e Guardiola não teve mais dúvidas que ali era seu lugar. Contra Valencia, Stuttgart e Zaragoza foram seis gols do argentino. Um mês depois, quatro contra o Arsenal. Messi, então, passou a pulverizar qualquer tipo de recordes. Marcou 32 gols na Liga Espanhola dessa temporada, sendo o artilheiro da competição; 53 gols na temporada passada; tornou-se o segundo maior artilheiro da história do Barcelona; e vem, há três temporadas consecutivas, firmando a artilharia da Champions League (8 gols em 2008/2009 e 2009/2010 e 12 gols em 2010/2011).

O segundo nó tático

Pellegrini, com um sorriso amarelo. Ele também sofreu nas mãos de Guardiola (AP Photos)

Após Juande Ramos 2009, Guardiola fez mais um treinador merengue de vítima. Em 2009/2010, Real Madrid e Barcelona voltaram a fazer mais um jogo decisivo pela Liga. Aos merengues, só restavam a conquista do título nacional, já que havia sido eliminado da Champions (Lyon) e da Copa do Rei (Alcorcón) novamente. O fracasso de uma temporada bastante promissora, com as contratações de Kaká, Cristiano Ronaldo e Benzema, havia sido retumbante. No lado barcelonista, sem Ibrahimovic e com Henry em péssima fase, Guardiola armou novas variações táticas: um 3-5-2 que deixou todos surpresos. Mandou a campo três zagueiros (Milito, Piqué e Puyol) e dois alas bastante ofensivos (Maxwell e Daniel Alves, um pouco mais temerário pelas aparições de Cristiano Ronaldo em seu setor), apostando em Messi e Pedro na frente. Xavi, Keita e Busquets completaram a linha de cinco, que só teve Iniesta na segunda etapa.

O Barcelona venceu por 2 a 0 e sacramentou o bi-campeonato espanhol, com gols de Messi e Pedro, que, vale lembrar, foi mais um acerto do treinador. Pelegrinni, durante o jogo, não soube o que fazer para sair da armadilha de Guardiola e, de fato, passou vergonha perante o catalão. 20 meses depois, as dúvidas voltam a rondar o ambiente blaugrana antes de um superclássico. Não se sabe se Pep entrará em campo no contestado 3-4-3 ou no usual 4-3-3. Fato é que jogar na primeira tática é um risco elevado contra o Real Madrid, que sabe jogar muito bem pelos flancos.

Aliás, isso seria cair num dos erros de Cruyff, que fazia suas trocas na parte defensiva, como citado, mas, vez ou outra, dava errado. Um erro notável do treinador do Dream Team tem a ver diretamente com Guardiola. Em um superclássico de 95, o comandante inexplicavelmente recuou Pep para a linha de três defensiva para fazer a marcação no então veterano Butragueño. Na defesa, Guardiola nunca se destacou e tomou um baile de El Buitre, na manita blanca no Bernabéu (5 a 0).

Apesar de destacarem apenas as dúvidas quanto ao módulo tático, as mudanças de Guardiola para a partida de sábado deve estar novamente na parte ofensiva. Villa, Alexis Sánchez, Pedro e Fàbregas disputam duas vagas no ataque. O chileno e o catalão têm se saído bem nos últimos duelos e podem começar no onze inicial. Guardiola pode mudar o esquema tático por mais uma vez e, quem sabe, aparecer num 4-4-2, com Fàbregas, Busquets, Xavi e Iniesta no meio-campo e Messi e Sánchez à frente, apesar de parecer bem improvável.

Lembram da Operação Blindagem de Mourinho?
A torcida merengue não ficou muito satisfeita com a provável escalação. Em uma enquete promovida pelo Marca, 62.08% dos votantes foram contra Mourinho, querendo que o português saia mais para o jogo e ataque o Barcelona. Lembrando que, na temporada passada, quando Mourinho "atacou" o Barcelona o resultado foi um 5 a 0 histórico para os catalães.


Vídeo-resumo da atuação excelente de Messi contra o Real Madrid em 2009, nos 6 a 2. Reparem como os zagueiros merengues ficam perplexos com a mudança de posicionamento do argentino com Eto'o, dando muito espaços aos dois

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Operação blindagem

Como parar Messi? Mourinho quebrou a cabeça e achou uma fórmula. Dará certo? (marca)

Na maratona de superclássicos no fim da temporada passada, o mundo achou que Mourinho havia, novamente, achado um antídoto para parar o Barcelona. No primeiro jogo, o português surpreendeu ao abdicar de Özil para colocar Pepe na volância e jogar num 4-3-2-1. Os merengues paravam o Barcelona, mas um erro de Raúl Albiol, que cometeu pênalti em Villa, jogou por água abaixo o plano do treinador. Messi converteu e, a partir disso, o Barcelona, com um jogador a mais, se soltou e começou a fazer a famosa roda de bobo. Na Copa do Rei, o Real Madrid novamente foi organizada no combate, mas deu o passo que faltava: ousadia e objetividade com a posse de bola, especialmente no primeiro tempo e na prorrogação. O resultado foi a vitória na prorrogação com gol de Cristiano Ronaldo.

Eis que, enfim, chegara o grande dia: a semifinal da Uefa Champions League. Com a moral elevada após o título, a equipe da capital chegara ao confronto levemente favorita. Apesar do mando de campo, ficou bem claro desde o início que o plano dos blancos em Madrid era primeiro não sofrer o “gol qualificado” e depois tentar a vitória. Além do 4-3-2-1, que dessa vez teve Özil como titular e Cristiano Ronaldo atuando como falso nove, os merengues mantiveram a estratégia com e sem a bola: na defesa, muita pressão e imposição física na ocupação das intermediárias, onde flui o jogo catalão; ofensivamente, bolas esticadas para os lados do campo, especialmente pela esquerda com Marcelo e Di María. À direita, Arbeloa ficou mais preso e Cristiano Ronaldo alternou com Özil pelo flanco e no centro.

O plano de Mourinho novamente estava dando certo, não tivesse mais um erro individual. Dessa vez de Pepe, que estava fazendo uma notável partida. Um marcador com fama de violento e compleição física avantajada não pode ser tão imprudente numa disputa de bola. Talvez Daniel Alves tenha exagerado na reclamação e o árbitro alemão Wolfgang Stark na interpretação, mas o luso-brasileiro foi, no mínimo, truculento e pouco inteligente. A expulsão de Pepe deu ao Barcelona e a Messi os espaços que foram negados por Mourinho e seus comandados nas duas partidas anteriores. Aí, brilhou a estrela do gênio argentino, que marcou um doblete e despachou os blancos.

Ainda havia espaço para um quarto e último jogo. Sem alternativas, restou a Mourinho sair para o jogo e atacar. O técnico de Setubal voltou ao Real ao 4-2-3-1, como nos traumáticos 5 a 0, com Lass Diarra e Xabi Alonso permitindo que Messi trabalhasse às suas costas, quase sempre partindo da direita para o centro. Mas desta vez a experiência dos confrontos anteriores ajudou a equipe do gajo. A última linha defensiva soube bloquear as diagonais de Pedro e Villa na maior parte do tempo e o meio-campo trancou a intermediária com organização e pressão sobre a bola. A postura dos jogadores ofensivos era diferente das partidas anteriores: dessa vez, marcaram sob pressão, pressionando Piqué, Puyol e Mascherano. O resultado foi um 1 a 1, que, apesar de ter classificado o Barcelona à final, deixou Mourinho "satisfeito".

É com essa proposta de jogo que o Real Madrid 2011/2012 tem atuado: marcando sob pressão desde o campo de adversário, adiantado as linhas defensivas e jogando com paciência. Nos dois jogos da Supercopa da Espanha, o Real Madrid foi infinitamente superior (até pela pré-temporada mais concentrada do que a bagunçada do Barcelona). Entretanto, a estrela de Messi brilhou mais uma vez e o Barcelona acabou campeão. Mourinho deve coçar a cabeça todo o dia para tentar achar uma fórmula de parar Messi. Só resta uma escolha: repetir Milão 2010 e congestionar o meio-campo blaugrana, asfixiando Iniesta e, principalmente Xavi, evintando que a bola chegue em condições ao argentino.

Dessa maneira, especula o Marca, o Real Madrid irá jogar no sábado. Enquanto Guardiola tem dúvidas no lado barcelonista, Mourinho já está ciente do que fazer. O técnico de Setubal está convencido que vencerá a partida aquele que dominar o meio-campo. Para isso, trocará de módulo novamente. O 4-2-3-1 dará vez o 4-3-3, visto no confronto contra o Valencia no Mestalla. Xabi Alonso, Khedira e Lass formarão o triângulo de pressão alta. Reforçar a zona de atuação onde os blaugranas mais gostam de jogar é a ideia de Mourinho. Jogando nesse esquema e com o trio o Real Madrid ganhou os seis jogos que fez desde que Mourinho chegou ao clube.

Na frente a aposta é nos contra-ataques e no poderio de Cristiano Ronaldo e Di María. O português e o argentino, entretanto, deverão construir suas jogadas. Özil, em má fase, e Kaká, voltando de lesão, deverão ser banco. Sem o turco-alemão, principalmente, a fluência de jogo não haverá, já que Xabi Alonso estará mais preocupado com Xavi. Será um jogo psicológico. Apesar das últimas derrotas, os jogadores merengues estão convencidos de que podem sim vencerem. Lembram da declaração de Mourinho logo após o seu primeiro jogo como treinador do Real Madrid? "Minhas equipes são melhores na segunda temporada", afirmou. Por enquanto, a declaração é plausível. Mas fará fundamento após o jogo de sábado. Em caso de vitória, o Real Madrid estará, enfim, preparado para ganhar tudo que disputar nesta temporada.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Dúvidas

Guardiola pensativo: Barcelona voltou a jogar bem, mas a uma semana do superclássico o treinador ainda tem dúvidas, principalmente na parte tática (getty images)

O Barcelona que venceu o Levante convenceu. Ao fazer 5 a 0 na sensação da temporada, os blaugranas devolveram a confiança de outrora aos aficionados, que já começavam a aparentar olhares de desconfiança devido as últimas apresentações, muito abaixo da média. A equipe de Guardiola passou por cima do rival de Valencia, justamente aquele que, na temporada passada, o sufocou nas duas partidas do campeonato. Em Barcelona, venceu porque Pedro foi feliz em dois arremates; em Valencia, empate com sabor de vitória para o catalães, que conquistaram oficialmente o título, e para o granotes, que se livraram do rebaixamento.

Em campo, o Barcelona não deu espaço para a perda de pontos. Pressionando o adversário desde o início, a goleada foi construída cedo, com Fàbregas, aproveitando passe genial de Iniesta. Cesc chega ao superclássico em ótima fase e coloca Guardiola em um dilema. No 4-3-3, Fàbregas é banco, diferentemente no 3-4-3. Entretanto, a segunda opção não caiu nas graças da torcida até o momento, muito por causa das falhas corriqueiras mostradas nos principais jogos da temporada. Contra o Milan, tanto no Camp Nou quanto no San Siro, os azulgrenás passaram por apuros. A tática tem deixado o Barcelona mais avassalador ofensivamente, pelo fato de deixar o meio-campo mais cheio e, assim, aproveitar mais a posse de bola. Entretanto, na parte defensiva, tem deixado a desejar.

Sobretudo no setor direito, onde Daniel Alves tem liberdade para subir ao ataque, os espaços são grandes. E, vale lembrar, é ali o setor de atuação de Cristiano Ronaldo. Contra o Valencia, no Mestalla, Mathieu passeou e uma goleada ché só não saiu pelo péssimo dia de Soldado. Outro fator contra a tática que é defendida a cada coletiva pelo treinador é o fato da defesa jogar em linha e deixar margem para o contra-ataque da equipe adversária. Aí, tocamos em um novo ponto: no mundo, não há equipe que saiba usar melhor esse atributo do que o Real Madrid - fato reconhecido até por Guardiola. Contra o Milan, na estreia da Champions League, um gol de Pato aos 24 segundos escancarou esse problema. Lembrando que o Real Madrid tem três pontos a mais que o Barcelona e um jogo a menos. Valeria a pena arriscar uma tática que, pelo visto, ainda não foi totalmente adaptada? Perder em Madrid e, consequentemente, ficar a nove pontos da liderança é dar adeus às chances do tetracampeonato, principalmente num campeonato onde os gigantes não costuma tropeçar muito.

Individualmente, Pep pôde comemorar as excelentes partidas de Alexis Sánchez e Iniesta, além de Fàbregas. El Niño Maravilha marcou 3 vezes em uma semana e chega com a moral alta para o confronto no Santiago Bernabéu. No jogo de ida da Supercopa, Sánchez foi titular e fez uma partida notável, principalmente para quem estreara justamente num superclássico. Pedro, principal "adversário" pela posição, não voltou bem desde que se lesionou e, especula a imprensa catalã, estaria brigado com o treinador. Curiosamente, o canário não voltou mais à equipe titular após ter criticado publicamente o 3-4-3, ao se referir como "uma tática arriscada em que não está adaptado".

Iniesta, por sua vez, chega tinindo. Após perder o jogo contra o Milan, há duas semanas, por lesão, El Albino já está totalmente 100% fisicamente e, em campo, desfila seu talento. Ontem, fora duas assistências magníficas, para os tentos de Fàbregas e Cuenca, respectivamente. Mesmo sofrendo com a maior diferença de pontos para o Real Madrid desde que Guardiola assumiu o comando técnico do clube, os jogadores barcelonistas não desanimaram. Pelo contrário. Para eles, é um desafio a mais a tentativa de tirar a diferença merengue. Cesc, após a partida, declarou que o Barcelona vai ao Bernabéu sem medo.

Amanhã, resumo completo da rodada e texto sobre a estratégia de Mourinho para o jogão de sábado