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sábado, 14 de janeiro de 2012

A sensação da temporada

No Levante, todos são unidos. Disposto a fazer história, o clube de Valencia é a sensação da temporada e quer uma vaga na próxima Liga dos Campeões (reuters)

Se, antes da temporada começar, alguém pedisse para um amigo adivinhar um time que estaria, com quase um turno de Liga BBVA já disputada, em quarto lugar, com trinta pontos e a quatro do terceiro colocado, essa pessoa citaria, certamente (excluindo Real Madrid, Barcelona e Valencia), Sevilla, Athletic Bilbao, Atlético de Madrid, Villarreal e até mesmo o Málaga. Mas, quebrando todos os tipos de prognósticos possíveis, atualmente quem ocupa este lugar da tabela é o Levante, pequeno clube da cidade de Valencia. Fundado em 1909, em homenagem a uma praia da cidade que possuia o nome Levante, o clube é pioneiro na introdução do futebol profissional na região da Comunidade Valenciana. O único título relevante em 101 anos do clube foi uma Liga Adelante na temporada 2003/2004.

Por todos esses fatores, surpreende o fato do Levante ocupar a zona de Liga dos Campeões, competição no qual nunca disputou. Com seis pontos à frente do quinto colocado Osasuna, outro que também surpreende, os granotes, momentaneamente, têm chances reais de se classificarem pela primeira vez em sua história a uma competição europeia. Na verdade, a campanha tinha tudo para dar errado, por dois fatores em especial. O ex-treinador Luis García Plaza, responsável pela boa temporada em 2010/2011, havia se transferido para o Getafe e o artilheiro Caicedo, principal jogador da equipe nas duas últimas temporadas, se transferiu para o futebol russo para fazer caixa ao clube.

Porém, seis meses depois, o Levante é, até aqui, a sensação da temporada. E desde a primeira rodada, quando estreou batendo o Rayo Vallecano por 2 a 1 em Madrid. Depois, engatou uma sequência de cinco vitórias consecutivas, incluindo uma ante o Real Madrid, o que valeu a liderança da Liga Espanhola, algo inédito na história do clube. E se desde a primeira rodada dizem que a equipe possui prazo de validade, a verdade é que até agora esse prazo não se esgotou. O sucesso inicial desse Levante mostra uma grande adaptação às limitações da equipe. A base é formada por jogadores veteranos que não tinham muito espaço em equipes maiores. O orçamento do clube é pouco superior a 20 milhões de euros, menos do que se gastou nas transferências de jogadores como Alexis Sánchez, Cesc Fàbregas e Fábio Coentrão. Só o salário de um Messi ou Cristiano Ronaldo paga a folha salarial dos 25 jogadores do Levante.

A chave do sucesso da equipé é o técnico Juan Ignácio Martínez. Elogiado publicamente por treinadores do naipe de José Mourinho e Josep Guardiola, o espanhol vem se destacando por tirar leite de pedra de um elenco limitado. Enquanto a maioria dos treinadores de clubes pequenos limitam-se a impor um estilo de jogo defensivo, Martínez faz justamente ao contrário. Na frente, o time faz o básico: contra-ataques e bola parada. Apesar do estilo de jogo voltado ao ataque, a defesa é a quarta menos vazada da competição, com 19 gols. A exemplo de comparação, a defesa merengue, segunda melhor da competição, sofreu 16 gols. O ataque, terceiro melhor da Liga, também cumpre bem seu papel: são 27 gols. Nesse ponto, é difícil comparar com os de Real Madrid (61) e Barcelona (51).

Esses números fazem com que a campanha atual do Levante seja muito parecida com a de um pequeno clube que conseguiu terminar entre os quatro primeiros colocados e , consequentemente, copou uma vaga na Champions League: o Osasuna. Na temporada 2005/2006, os rojillos fizeram um primeiro turno sensacional. Em 19 jogos, foram incríveis 13 vitórias, o que valeu o vice-campeonato de inverno. No segundo turno, à época, aconteceu o esperado e a equipe caiu de produção. Porém, graças ao primeiro semestre, a equipe de Navarra conseguiu a sonhada e histórica classificação à principal competição do velho continente. Foram 68 pontos, um a menos que o terceiro colocado Valencia e dois a menos que o segundo colocado Real Madrid. A equipe também se destacou por quebrar uma sequência de 14 vitórias consecutivas do campeão Barcelona, derrotando-o no Reyno de Navarra por 2 a 1.

Otimismo e confiança são as palavra que soam no Ciutat de Valencia. Times como Málaga, Sevilla, Athletic Bilbao e até mesmo Atlético de Madrid possuem elencos mais homegêneos e qualificados para suportarem mais um turno de Liga BBVA e eliminar o Levante da zona de LC. Martínez tem total consciência disso, ao mesmo tempo em que sabe das qualidades de sua equipe e tenta aprimorá-las. É certamente uma tarefa difícil, mas não impossível para quem vem superando todas as expectativas até o momento.

Enquanto isso, na Copa do Rei...
... o Levante segue vivo. Após perder o jogo de ida contra o Alcorcón por 2 a 1, os azulgrenás do leste espanhol avançaram com facilidades: 4 a 0 no Ciutat de Valencia. Barkero, um dos destaques da equipe na temporada, foi o nome do duelo. Marcou o primeiro gol e originou o segundo, marcado por Roger, canterano que começa a se destacar. Principal nome da filial, Levante B, na terceira divisão, o meio-campista, que atua pela esquerda, começou pela primeira vez como titular na equipe A e ganhou moral com Martínez e a torcida. Iborra e Suárez completaram a goleada. O próximo desafio será complicado: o temido e rival Valencia, que já o derrotou na temporada. Ignácio Martínez já afirmou que a prioridade do Levante no momento é a Liga, mas quando se tem um dérbi na Copa a aura de competição fala mais alto.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

8ª rodada: Azul e grená são as cores

Para o alto, e avante: após vencer o Real Madrid, o Levante deu mais uma prova de força ao bater o Málaga. Quem para a sensação espanhola? (reuters)

Com uma postura cada vez mais convincente, o Levante fez mais uma vítima no campeonato. Em mais um grande teste, os azulgrenás foram aprovados após vencerem com contundência o Málaga por 3 a 0 no Ciutat de Valencia. Os andaluzes não suportaram o voo de um time muito bem armado, que tem uma base sólida na defesa e joga sem sofrer riscos. Enquanto o azul e grená de Valencia vai bem, o branco e negro do principal clube da cidade decepcionou: numa partida na qual dominou por completo o Mallorca, mas prendeu muito o jogo, o Valencia sofreu o castigo no último suspiro do duelo, permitindo o empate dos baleares na estreia de Caparrós. A rodada também marcou as novas decepções de Getafe e Villarreal, a recuperação de Zaragoza e, principalmente, Athletic Bilbao, que convenceu contra o Osasuna, e a continuação da invencibilidade de um inconstante Sevilla, que derrotou o Sporting Gijón e continua sem perder no campeonato. Confira, abaixo, o resumo da oitava rodada da Liga BBVA.

Levante 3x0 Málaga
Os granotes atravessaram sem maiores traumas um dos desafios mais complicados deste início de temporada: o Málaga de Pellegrini, que vem em boa fase. Se ainda havia alguém que desconfiasse dos valencianos mesmo após a vitória contra o Real Madrid, a equipe de Juan Ignácio Martínez segue calando a boca dos críticos: ontem, venceu com autoridade os blanquiazules, que foram engolidos pelos donos da casa. O Ciutat de Valencia é um dos maiores trunfos da sensação da temporada: nos últimos 13 jogos no estádio, os levantinos só perderam uma (incluindo aí partidas contra Barcelona e Real Madrid). O bom desempenho do Levante tem a ver com as palavras que Juan Ignácio Martínez passa aos seus comandados e a humildade com a qual o elenco trata esse período da equipe: no vestiário ninguém fala de título, Champions ou Liga Europa. O objetivo maior é conseguir a permanência na Liga. E, nesse ponto, os azulgrenás já estão muito bem encaminhados: com 17 pontos e a co-liderança ao lado do Barcelona, o Levante já acumula dois pontos a mais que os 15 conseguidos no primeiro turno da liga passada.

O Málaga sentiu muito a falta de Júlio Baptista. Isco, titular pela primeira vez na temporada, não substituiu o brasileiro à altura e foi peça-nula na esquerda. Cazorla, que começou a temporada muito bem, também não resistiu à dura marcação levantina e passou despercebido no duelo. A expulsão de Caballero foi determinante: expulso de maneira infantil (e até rigorosa), após "colocar" a mão na bola fora da área, o goleiro ainda viu o segundo gol do Levante sair na falta oriunda de sua expulsão e seu reserva, Rúben, cochilar também infantilmente frente a Koné no terceiro gol. O dia após a derrota ante o Levante foi de reflexão, visando o próximo jogo do Málaga: o Real Madrid, no La Rosaleda. Hoje, em entrevista à rádio Onda Cero, o treinador chileno criticou Florentino Pérez e José Mourinho, a quem já havia criticado na temporada passada.

Athletic Bilbao 3x1 Osasuna
Marcelo Bielsa já respira. Não bastasse a vitória no dérbi, o Athletic Bilbao deu mais uma prova de recuperação na temporada ao bater com contundência o Osasuna, em nova boa partida de Muniain. O treinador argentino, dessa vez, não inventou: jogou no 4-2-3-1 com Javi Martínez na volância (tem sido zagueiro neste início de temporada) e viu a melhor partida dos leones desde sua chegada ao País Basco. De pouco e pouco o estilo de jogo do treinador vai funcionando. Contra os rojos, vimos um Athetic Bilbao menos vertical que os jogos passados e praticando um futebol mais elaborado, com boas trocas de passes e prezando pela posse de bola. Muniain está em estado de graça: autor de um gol, La Joya, como vem sendo tratado por Bielsa, só cresce desde a chegada do argentino. Atrevido e ousado, o jogador marcou mais um gol e foi novamente o melhor em campo, jogando um pouco mais centralizado como de costume.

O Osasuna se entregou aos bascos à medida que os minutos passavam. Após iniciar o duelo com intensidade, caíram muito de produção após o 1 a 0 e morreram depois do 2 a 0, marcado por Gabilondo. Lamah foi o melhor rojillo em campo, dando muito trabalho a Ekiza e Amorebieta, e desbordando graças à sua velocidade. Contudo, acabou expulso após dar um tapa na cara de Muniain, mostrando um gesto de impotência. A defesa, mais vazada da competição, preocupa: já são 15 gols sofridos em apenas sete jogos. Para completar, o iraniano Masoud, que está fazendo muita falta no meio-campo rojillo, pode ficar mais seis meses de baixa após complicações na fratura no pé esquerdo. Quando a fase não é boa, nada dá certo.

Sevilla 2x1 Sporting Gijón
O Sevilla tinha que ganhar a partida ante o Sporting e ganhou. Sempre que continuar fazendo o que tem de ser feito, irá trilhar o bom caminho. O Sevilla de Marcelino está se convertendo em uma equipe confiável, que ganha quando tem de ganhar com mais ou menos sofrimento, e que quando não consegue vencer, ao menos empata. Com esse invejável ritmo, o conjunto nervionense já está em postos de Champions e se abastece de pontos antes de viajar para Barcelona. Não é um mal começo. É possível pedir mais a essa equipe, claro. Sobretudo mais continuidade no jogo, mais regularidade para dominar os rivais, mais controle de bola talvez, e por alguns momentos, mais presença ofensiva. Porém, o Sevilla segue oferecendo grandes serviços atrás (Varas esteve ótimo, Spahic esteve gigante e Escudé esteve regular), maneja os ritmos da partida perfeitamente e independente do resultado, dá a sensação de ter a situação sob controle. É aguerrido, muito aguerrido, e complicado.

O Sevilla desse domingo não foi brilhante, e não foi até hoje na Liga, mas foi efetivo, tremendamente efetivo. Nessa partida recebeu um gol, o que frustrou o récorde de imbatibilidade de Varas, mas Manu Del Moral se encontrou com as redes de forma impressionante, que aclarou seu panorama desde o começo da temporada e também o do Sevilla na partida. O conjunto nervionense, quando não tinha ainda as idéias claras ante um Sporting valente, se encontrou com o marcador à favor e optou pela solução que marca a toada de Marcelino nesses casos: recuar, dar um passo atrás e buscar definir nos contra-ataques ante uma adiantada defesa asturiana. Porém, o Sevilla não encontrou esses contra-ataques. Os jogadores de Preciado recuperavam quase sempre a bola e as imprecisões dos anfitriões não permitiram a criação de jogadas que metessem medo nos sportinguistas. Sofreu em algumas jogadas na área e novamente surgiu a figura de Varas, melhor goleiro do campeonato até aqui. Porém, teve chances em alguns contra-ataques desperdiçados. Assim chegou ao fim da partida, onde foi regular para matar o encontro e somar outros três pontos que colocam os nervionenses na zona nobre da classificação, e invictos.

Mallorca 1x1 Valencia
Matar a partida ou cozinhar à espera do apito final do árbitro? O Valencia que foi a Palma de Mallorca optou pela segunda opção e acabou engolindo em seco o gol de Hemed, de pênalti, aos 49 minutos do segundo tempo. Pênalti, aliás, que gerou muita discussão e resultou na expulsão do bom zagueiro Rami, que, segundo Paradas Romeros escreveu na súmula, o chingou com palavras de baixo calão no caminho ao vestiário após o término do jogo (o jogador teria chingado a mão do árbitro). A arbitragem de Paradas foi bastante controversa: os chés, além do pênalti mal marcado de Topal, reclamaram de um pênalti não marcado de Chico em Piatti quando o jogo ainda estava zero a zero. Para o Mallorca, valeu pela persistência. Na estreia de Caparrós, o ponto foi comemorado pelo treinador, que pediu mais o futebol apresentado no segundo tempo e menos apresentado no segundo tempo. O gol de Hemed foi o terceiro do israelense em três jogos, marca obtida somente por Eto'o, na temporada 2004/2005.

Getafe 0x0 Villarreal
Decepceções. Não há outra palavra que define melhor Getafe e, sobretudo, Villarreal. Os azulones por terem feito um ótimo mercado, ambicioso, e ter começado a Liga com uma vontade de brigar por competições europeis. Os amarillos pelos simples fato de ter conseguido manter Rossi e Nilmar em seu elenco. Os atacantes, por enquanto, não têm decepcionado, mas parecem sozinhos imerso num confuso Villarreal. O meio-campo, setor de destaque da equipe na temporada, bate cabeça sem a presença de Cazorla. De Guzmán, inexplicavelmente, tem jogado como armador da equipe com Borja Valero lesionado, em uma das ações sem explicação de Garrido. E é assim, com resquícios de crise, que o Submarino Amarelo viaja a Manchester para o jogo decisivo contra o Manchester City, pela LC. Sem opção, Garrido não teve outra escolha a não ser arriscar e convocar Borja Valero, que ainda não está 100%. No lado madrileño, a decepção fica por conta de Guiza, contratação mais cara da história do Getafe, mas que ainda não mostrou a que veio.

Zaragoza 2x0 Real Sociedad
Teria, tão cedo, acabado o encanto da Real Sociedad? Após começar a Liga Espanhola a todo vapor, chegando a tirar pontos do líder Barcelona, os txuri-urdins emplacaram uma sequência de três jogos sem vitórias e deixaram de vez o top-10. Em Aragão, a Real Sociedad fez sua pior partida na temporada. Com Griezmann novamente no banco e Xabi Prieto sobrecarregado no meio-campo pela má partida de Sarpong e Zurutuza, os bascos não levaram perigo algum à meta de Roberto. No lado maño, destaque para Helder Postiga, autor de um doblete, sendo um deles um golaço de bicicleta. O português, que já começava a ser questionado, respondeu à altura os críticos e foi essencial para a vitória, além de sair dem campo aplaudido pela primeira vez pela torcida. O domínio territorial valeu pela boa partida de Ponzio, que ganhou todas no meio-campo. A Real Sociedad, quem diria, tem sentido a falta de Illarramendi, lesionado. Mesmo após a terceira vitória consecutiva, Javier Aguirre manteve os pés no chão: "estou bastante satisfeito, mas ainda há muito o que trabalhar", alertou o treinador. Após o mau início de liga, o Zaragoza já soma nove pontos e ocupa a nona colocação.

Rayo Vallecano 0x1 Espanyol
Em um jogo bastante movimentado marcado pelo reencontro de Tamudo com o Espanyol, um gol de Romaric deu uma vitória merecida ao Espanyol, que segue sendo uma incógnita total. Valeu pela boa partida de Sérgio García, melhor em campo, e do canterano Thievy Bifouma, que segue caindo nas graças da torcida desde o doblete contra o Barcelona pela Copa Catalunha. Ramón Sandoval, treinador do Rayo Vallecano, foi valente o jogar num 4-2-3-1 que tornava-se um 4-3-3 super ofensivo, mas certamente não esperava um Rayo Vallecano sentindo o calor do meio-dia, horário cada vez mais contestado pela imprensa espanhola. Os ataques franjiroyos foram bastante previsíveis, sobretudo no segundo tempo, quando Christian Álvarez quase não teve trabalho. O treinador reclamou após partida da falta de ímpeto de sua equipe: "se não chutar a gol, não iremos vencer nunca", esbravejou após a partida. Pochettino, por sua vez, comemorou o resultado (merecido, nas palavras dos dois treinadores) e voltou a pedir paciência com essa "nova" equipe.

sábado, 15 de outubro de 2011

Davi e Golias do futebol espanhol

Levante é a grande surpresa deste início de temporada, disputando a liderança com o Barcelona de Messi (AP Photos)

Texto em parceria com Claudio Araujo

Barcelona e Levante. Levante e Barcelona. Duas equipes de uniformes similares: listras verticais azuis e grenás, com calção azul. Fora isso, Barcelona e Levante não têm nada em comum. Tanto quanto o orçamento, o que diferencia os dois times é o estilo de jogo. Enquanto os catalães gostam de fartura em todos os fundamentos, os valencianos vivem em economia de guerra, extraindo cada ponto do pouco que produzem. O Levante vem arrancando elogios importantes por uma campanha que nem seu torcedor mais otimista poderia prever: 14 pontos em seis rodadas, com direito a quatro vitórias consecutivas - sequência recorde do clube na primeira divisão. Entre os triunfos, jogos contra Real Madrid e Betis, ambos líderes no momento da entrada em campo.

Em Barcelona, posse de bola é obsessão. O time não tem menos de 50% da posse desde antes de Josep Guardiola assumir o clube. Na atual temporada, o treinador catalão tem optado por uma interessante variação tática: o 4-3-3 (ou 4-2-3-1 pelo posicionamento de Messi) deu lugar ao 3-4-3, que, com a adição de Fàbregas na linha de quatro, tem sido mortal neste início de Liga. O maior problema da tática, entretanto, é o fato de a linha de três defensiva jogar muito adiantada, deixando muitos espaços, sobretudo, pelo lado direito, onde Daniel Alves sobe muito ao ataque e Pedro, que declarou nesta semana ainda não estar adaptado à tática, não recompor as subidas do brasileiro à altura. Enquanto isso, os levantistas têm uma média de 38,5% de posse em seus jogos. Nesta temporada, apenas o Racing de Santander fica menos tempo com a bola nos pés. Na frente, os granotes de Valencia marcaram apenas 8 gols, mesmo número que os azulgrenás de Barcelona fizeram apenas em um jogo, contra o Osasuna. Indo um pouco mais além: só Messi já tem 10 gols na Liga BBVA.

O sucesso inicial desse Levante mostra uma grande adaptação às limitações da equipe. A base é formada por jogadores veteranos que não tinham muito espaço em equipes maiores, como o goleiro Munúa, os laterais Javi Venta e Del Horno e os zagueiros Nano e Ballesteros. Diante deles, uma dupla de volantes mais nova, Iborra e Xavi Torres, capaz de se sacrificar. Com isso, o Levante sofreu apenas três gols no campeonato, melhor marca ao lado do Sevilla, e recebeu apenas 3,67 arremates por partida (apenas o Barcelona recebeu menos), mesmo permitindo que os adversários tivessem a posse da bola por tanto tempo. Na frente, o time faz o básico: contra-ataques e bola parada. O orçamento do clube é pouco superior a 20 milhões de euros, menos do que se gastou nas transferências de jogadores como Alexis Sánchez, Cesc Fàbregas e Fábio Coentrão. Só o salário de um Messi ou Cristiano Ronaldo paga a folha salarial dos 25 jogadores do Levante.

Xavi Torres, aliás, essencial para o bom desempenho defensivo do Levante, sabe o que é estar do outro lado. Em 2009, estava no elenco do Barcelona e participou de dois jogos na campanha do título espanhol. De promessa sem espaço no Camp Nou, virou destaque de um clube pequeno que tem ousado desafiar a lógica ao se manter no topo da tabela. Não deve durar. Mas que desfrutem enquanto dura. O Levante tem um estádio com capacidade para 25.354 torcedores e tem uma taxa de ocupação pouco maior que 50%: média de 12.378 por partida. Enquanto isso, o Barcelona desfruta de uma média de público de 79.184 pagantes em um estádio com capacidade para 98.787, ocupando mais de 80% dos assentos. Os jogadores do Levante, somados, têm 26 títulos. Os do Barcelona, 295.

O técnico Juan Ignacio Martínez, estreante na primeira divisão e contratado após uma boa temporada na segundona à frente do Cartagena, é o artífice da sensação da temporada na Espanha. O ponto forte é a defesa, que sofreu apenas três gols. Esta defesa tão confiável até aqui totaliza 165 anos de idade entre o goleiro, Munúa, os laterais, Javi Venta e Del Horno, e os zagueiros, Nano e Ballesteros. Este último, por sinal, é o mais velho deles (36 anos) e não comete uma falta no campo de defesa há quatro rodadas. Ainda assim, o discurso no Ciutat de Valencia é discreto. Juanlu, por exemplo, diz que “aconteceu uma vez em 100 anos, não acredito que ocorra muito mais vezes”. O meia até se remete à temporada passada, quando o time teve uma boa fase e até se aproximou da vaga na Liga Europa, mas caiu no final e teve de se preocupar com o rebaixamento.

O normal é que o Levante não consiga manter esse nível por muito tempo. O elenco é enxuto e a equipe titular depende demais de jogadores veteranos. Por exemplo, dos titulares na partida contra o Betis, apenas quatro tinham menos de 30 anos. Uma hora o fôlego acabará. Mas a torcida tem todo o direito de curtir esse pequeno momento de grande. Mas sem esbanjar muito na festa, porque essa não é a cara da equipe. Barcelona e Levante. Levante e Barcelona. Duas equipes com filosofias extremamente diferenciadas que começaram a temporada a todo vapor.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Liga Adelante: Um pouco sobre o Cartagena, que está próximo de subir

O novo e desconhecido Cartagena está perto de realizar uma façanha gigantesca. Maior até que o próprio clube que tem apenas 14 anos e que estreou nesta temporada na Liga Adelante. Há seis rodadas do fim, é o terceiro colocado, e conseguiria a última vaga para a primeira divisão. Caso confirme o acesso, vai faltar espaço no Estádio Cartagonova para receber Messi, Xavi, Kaká e Cristiano Ronaldo.

Por isso, os cuidados são totais. Os dirigentes não falam sobre a próxima temporada para não desmobilizar o grupo. Os jogadores receberam semanas atrás a missão de “dar a vida em campo”. A ordem teve efeito imediato e o time nunca baixou da quarta posição. Venceu os dois jogos contra o rival Múrcia e ficou 11 rodadas sem perder. A campanha deve-se, principalmente, ao “craque” do clube. Ele não corre, nem marca, tampouco chuta. Apenas observa. E paga. O presidente Francisco Hernández tirou o Cartagena do buraco e prometeu levá-lo ao topo. Só não imaginava que chegaria lá tão rápido.

Com Hernández no comando, o Cartagena se profissionalizou. Ele bancou salários e cobriu dívidas. Correu atrás de patrocínios mais poderosos e de jogadores famosos para atrair – e criar - torcedores. Era um processo demorado. O objetivo final: a segunda divisão. Depois de chegar perto em 2006, o Cartagena subiu em 2009. Venceu o Alcoyano, no jogo de ida das quartas de final, por 2x1, em casa. Na volta, segurou um dramático 2 a 2 e pôde, enfim, vibrar. A classificação direcionou recursos e holofotes para o Cartagonova até então distantes e desconhecidos. A realidade mudou e com ela o clube cresceu.

Para a atual temporada, Hernández trocou o treinador. Tirou o campeão da terceira divisão, Paco Jémez, e fechou com o experiente Juan Ignacio Martínez. Juntos, montaram o melhor time da curta história do Cartagena. Foram a Portugal contratar o ex-atacante do Real Madrid Javier Balboa junto ao Benfica e tiraram do Villarreal o zagueiro francês Pascal Cygan, campeão inglês pelo Arsenal, em 2004. Também estiveram em Barcelona para buscar o meia Antonio Longás, 25 anos, do Barça B e com passagem pelo Zaragoza. Tem sido o melhor jogador do Cartagena e é candidato a estrela do campeonato.

Projetando a próxima temporada

Se esta temporada tem sido boa, os poucos torcedores projetam 2010/11 ainda melhor. Os 2,5 mil sócios já procuram hotéis e organizam excursões para Madrid e Barcelona. Querem estar no Camp Nou e no Santiago Bernabéu quando o clube viverá momentos mágicos, independente do placar das partidas. Mais importantes até que o eventual acesso à Liga.

Isso porque o Cartagena não tem nenhum título oficial. Nunca levantou uma taça ou vestiu uma faixa. O estádio onde joga também não pode chamar de seu. Emprestado pela prefeitura, o Cartagonova pode receber até 15 mil pessoas, mas raramente o público passa de 5 mil. Construído no fim da década de 80, foi baseado no Miniestadi, do Barcelona, que o usa em partidas da equipe B e das categorias de base.