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segunda-feira, 23 de julho de 2012

O herdeiro de Eto'o?

 Dongou: homem-gol, as comparações com Eto'o são inevitáveis (Fórum Blaugrana)

*Postado originalmente no site Olheiros

As características dos atacantes lançados pelo Barcelona nas últimas temporadas não se diferem muito. Guardiola nunca pôde reclamar da falta de canteranos que atuassem abertos nas pontas, adicionando velocidade e profundidade aos blaugranas. Entre aqueles que ainda hoje permanecem no Camp Nou estão Pedro, Cuenca e Tello, em uma lista que contou outrora com Bojan e Jeffren, hoje na Roma e no Sporting Lisboa, respectivamente. Ou o próprio Lionel Messi, deslocado da ponta direita para a faixa central do campo apenas em tempos mais recentes. A nova sensação de La Masía, porém, dará uma opção extra para o ataque culé encher as redes adversárias com ainda mais gols. Jean Marie Dongou é camisa 9 de ofício. Não possui grande estatura, mas combina força e velocidade. E, como é de se esperar, uma fome insaciável por gols, capaz de finalizar com as duas pernas com precisão e encontrar espaços mínimos, mas suficientes para arrombar defesas. Todos predicados visíveis já aos 17 anos.

O estilo de jogo torna indissociável a comparação com o seu patriota Samuel Eto’o, o último homem de área (e seus arredores) a dar certo na Catalunha. E as ligações com o jogador do Anzhi são mais profundas que a aparência possa sugerir. Dongou chegou ao Barcelona graças à Fundação Eto’o, entidade que oferece treinamento a jovens no Camarões. Depois de um torneio infantil disputado pela seleção camaronesa em 2008, o interesse blaugrana foi imediato e a parceria com a fundação possibilitou o ingresso do garoto nas cantera. Desde seu ano de estreia em La Masía, Dongou já ostentava marcas impressionantes. Passou os primeiros meses servindo a equipe Infantil A, pela qual marcou 70 gols. Os números sólidos permitiram que o atacante pulasse categorias e atuasse pelo time Cadete A, onde repetiu o sucesso. Em 2010/11, transitou entre Cadete A, Juvenil B e Juvenil A, um fenômeno visto antes apenas com prodígios do nível de Lionel Messi.

Na temporada 2011/2012, o camaronês passou o primeiro semestre servindo ao Juvenil A, pelo qual se sagrou artilheiro da NextGen Series, junto com Viktor Fisches, dinamarquês do Ajax. Sua melhor partida foi na fase de grupos contra o Celtic, onde marcou três gols (vídeo-resumo de sua atuação abaixo). Seu faro de gol, no entanto, não ajudou o Barcelona a ir longe na competição: os azulgrenás caíram nas quartas-de-finais justamente para o Ajax de seu rival Viktor, que brilhou mais no jogo com dois gols. A boa forma, contudo, combinada com a ascensão de alguns jovens para o time principal, permitiu que Dongou passasse a figurar no elenco do Barcelona B a partir de janeiro de 2012. Com cautela, o técnico Eusebio Sacristán começou a lançar a promessa durante o final das partidas da segunda divisão espanhola. Foram necessários 60 minutos – divididos entre oito partidas – até que o goleador balançasse as redes pela primeira vez, garantindo a vitória por 2 a 1 sobre o Alcoyano.

Neste momento, a volta de Dongou ao Juvenil A parece impensável. A condição de titular no Barça B, contudo, também deverá ser um pouco custosa, considerando que a “idade mínima” na filial seja 19 anos – ou seja, aqueles que completaram todo o ciclo da base. Em outros tempos, o estágio Barcelona C seria obrigatório e o camaronês teria todo o espaço para ganhar tarimba em competições profissional. Entretanto, com o fim do terceiro elenco blaugrana, o empréstimo para algum clube da terceira divisão pode até ser vislumbrado. A prática tem se tornado usual e, pelo observado nos últimos anos, é totalmente aprovado por Guardiola. Foi assim com Isaac Cuenca, por exemplo. O atacante foi cedido e teve destaque no Sabadell, pequeno clube catalão com quem conseguiu o acesso pela primeira vez em 18 anos, na Segunda División B. Para Dongou, a única barreira seria a grande badalação já existente em cima de sua pessoa. Valeria mais a pena protegê-lo dentro dos portões de La Masía ou deixá-lo vivenciar uma realidade totalmente diferente, usufruindo da estrutura de um clube pequeno?

A única certeza que se tem é a de que o Barcelona deverá proteger ao máximo a joia que tem em mãos. Ao contrário do que acontecia em meados da década passada, Guardiola preferiu desenvolver ao máximo seus canteranos antes de deixá-los desabrochar no time principal. Uma precaução bastante pertinente, considerando alguns tiros n’água, como o ocorrido com Bojan – recordista de juventude em vários patamares no clube, mas que nunca rendeu o esperado no elenco principal. Com Tito Vilanova, que segue bastante os ideais do ex-treinador, não deve ser diferente. Por exemplo, ele negou qualquer tipo de transferência de Tello a outras equipes, considerando o garoto peça-chave de seu projeto.

Com trabalho e talento, é improvável pensar no camaronês atuando no elenco principal já na nova temporada. Dongou talvez faça sua estreia somente em 2013/2014, na Copa do Rei ou em outra partida de pouca validade. Uma trajetória meteórica como a de Messi no primeiro time, porém, só deve mesmo ser vista nas categorias de base. As ordens atuais no clube são de dar passo após passo, até o amadurecimento completo. Mas, desde já, é bom ficar de olho para ver o que o futuro pode reservar aos blaugranas.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Minha cantera também é de ouro

 Canteranos merengues brilham na equipe Castilla e levam filial à Liga Adelante. Prova de força das canteras do Real Madrid, que mostra que também cria, assim como o rival Barcelona (reuters)

Por André Augusto, originalmente do site Olheiros, especializado em divisões de base

No último domingo, o Real Madrid Castilla, time "sub-20" do Real Madrid, derrotou o Cádiz por 5x0 e confirmou o acesso à Liga Adelante. Um acesso que havia sido praticamente sentenciado há duas semanas, no jogo de ida em Alicante, quando os jovens se impusseram na casa do adversário em ganharam por 3x1. Uma geração promissora, apoiados pelos atacantes Joselu, Morata e Jesé, responsáveis por 43 dos 77 gols da equipe B do Real no Grupo 1 do torneio. O bom desempenho deixa a equipe do técnico Alberto Toril próximo ao segundo escalão do futebol ibérico, o que não acontece desde a temporada 2006/07. Porém, de acordo com a política “galáctica” da última década, os jovens terão que ter muita paciência para ter a chance de alinhar ao lado de crias oriundas da base no atual campeão de La Liga, como Casillas, Arbeloa, Granero e Callejón.

O último acesso do Castilla para a segunda divisão, em 2004/05, trouxe uma geração de bons jogadores. Arbeloa, Soldado e Negredo (então reserva do atual goleador do Valencia) servem a Fúria com regularidade, enquanto Juanfran, Jurado e Javi García acabaram por se tornarem peças importantes em seus atuais clubes. Selecionáveis ou não, o crescimento daquela geração tem um ponto em comum: ela aconteceu bem longe do Santiago Bernabéu.  Mesmo entre os que “vingaram” no Real, há ressalvas. Excetuando Casillas, de carreira precoce e ininterrupta na meta blanca desde 2000, Arbeloa, Granero e Callejón passaram muito tempo fora do clube. Enquanto o lateral-direito rodou por La Coruña e Liverpool, Granero passou três temporadas no Getafe e Callejón – mesmo reserva, foi o quarto artilheiro da equipe na atual temporada, com 14 gols – evoluiu no Espanyol. Todos foram vendidos e recomprados pelo Real, já com a devida valorização.

Durante a estadia na Liga Adelante, a lista dos que vingaram sem vestir a mítica camisa merengue aumenta: o lateral-esquerdo brasileiro Filipe Luís, campeão da Liga Europa com o rival Atlético, o buscou no La Coruña, após um ano com o Castilla. Já Juan Mata, peça primordial do Chelsea campeão da LC, também era integrante do elenco rebaixado à Segunda Division em 2006/07. Ali, foi o vice-artilheiro daquela equipe com nove gols, atrás de Negredo, com 18. A dupla, que não fez um jogo sequer pelo Real Madrid, soma quase 40 milhões de euros em suas últimas transferências, enquanto o artilheiro foi vendido pelos merengues ao Sevilla por 15 milhões de euros. Também sem defender a equipe profissional.

Voltando ao presente, a história tem tudo para se repetir com Joselu. Artilheiro do Grupo 1 com 18 gols, o atacante de 22 anos fez uma única aparição com a equipe de José Mourinho, contra o Ponferradina, em dezembro de 2011, pela Copa do Rei – onde marcaria seu primeiro gol. Revelado no Celta de Vigo – no qual já debutou como profissional, em 2009 -, já foi emprestado à ex-equipe e não parece vislumbrar futuro no Bernabéu, com o intocável Cristiano Ronaldo no ataque, além de Higuaín e Benzema como opções imediatas. Morata e Jesé, ambos de 19 anos, também devem esperar bom tempo, assim como o meia Alex e o lateral Dani Carvajal, também apontados como destaques do Real B.

A exemplo do arquirrival Barcelona, o Real Madrid é grande fornecedor de talentos para as seleções espanholas de base. Porém, o trabalho de transição ao time profissional ainda é diametralmente oposto quando comparados. E dadas as especulações de reforços caríssimos aos cofres do Real para a próxima temporada, a situação parece longe de mudar aos futuros talentos da cantera de Valdebas.

PS: Quem irá acompanhar o Castilla na segundona da próxima temporada é o Mirandés. A simpática equipe que surpreendeu o futebol espanhol ao chegar ate as semifinais da Copa do Rei fecha a temporada com chave de ouro. Falamos um pouco mais do clube de Miranda no início do ano. Leia clicando aqui.

sábado, 19 de maio de 2012

Fracasso no profissional, sucesso na base

 Gol de Jairo Morillas deu ao Sevilla o título da Copa dos Campeões, principal torneio de base da Espanha. Irregular há, pelo menos, duas temporadas, é na base que andaluzes devem apostar daqui para frente (El Desmarque)

*Por Leandro Stein, originalmente do site Olheiros

O trabalho realizado pelo Sevilla nas categorias de base ao longo da última década foi notável. Os rojiblancos formaram jogadores do porte de Sergio Ramos e Jesus Navas, campeões do mundo com a seleção espanhola em 2010, além de outros nomes de valor, como José Antonio Reyes e Diego Capel. E, mais que o tato para lançar canteranos, o clube demonstrou contar com um olhar clínico para investir em jovens talentos. Foi assim que chegaram à Andaluzia Daniel Alves e Adriano, peças fundamentais no bicampeonato da Copa da Uefa em 2006 e 2007.

O declínio do Sevilla ao longo da atual temporada, no entanto, foi acentuado. Eliminado nas fases qualificatórias na Liga Europa, o clube até começou bem no Campeonato Espanhol, mas caiu vertiginosamente de produção entre dezembro e janeiro. E o caminho da recuperação já está desenhado: é novamente na base que os andaluzes deverão apostar. Dentre os clubes que compõem o numeroso segundo pelotão de La Liga, os rojiblancos foram dos que mais abriram espaços para seus garotos. José Gómez Campaña e Antonio Luna não deixam mentir. O volante e o lateral esquerdo conquistaram seus lugares na equipe, sobretudo com o técnico Míchel. Ambos já são apontados como os jovens mais promissores em suas posições no país.

Com apenas 18 anos de idade, Campaña não sentiu o peso da transição. Fez sua estreia como titular justamente contra o Barcelona, encarregado de segurar o ímpeto de Messi e companhia. E o placar zerado ao fim dos 90 minutos comprovam o sucesso de sua missão. Não por menos, integra as seleções de base e está convocado para as eliminatórias do Europeu Sub-19. Já Luna faz uma temporada de afirmação, após passar seis meses emprestado ao Almería. Reserva no início da temporada, ganhou uma chance no início do ano e permaneceu entre os titulares. E a confiança da torcida não se deve apenas àqueles que despontam entre os profissionais. No último final de semana, o Sevilla conquistou a Copa de Campeones, principal torneio de base da Espanha – quebrando a hegemonia de Barcelona e Real Madrid. É verdade que merengues e blaugranas foram barrados ainda nas fases regionais, pelos rivais Espanyol e Atlético de Madrid. Algo que não tira os méritos da campanha dos rojiblancos, que chegaram ao seu terceiro título na competição.

O bom desempenho começou na etapa local da competição. Em 30 jogos, foram 21 vitórias e apenas seis derrotas, deixando para trás Málaga, Betis e Granada. Já na fase final, o Sevilla passou pelo Valencia nas quartas de final e, nos pênaltis, eliminou o Sporting Gijón na semifinal. Por fim, o adversário na decisão foi o Espanyol, credenciado por eliminar Barça e Atlético de Madrid. E a vitória por 1 a 0 acabou por consagrar os andaluzes. Em campo, o técnico Diego Martínez apresentou uma equipe equilibrada taticamente e com grandes qualidades na defesa. O setor, aliás, contou com o goleiro Sergio Rico e Dani entre os melhores do torneio. Mais à frente, os canteranos que chamaram as atenções foram o volante e capitão Beto, o meia Joaquín e o centroavante Jairo Morillas. Todos nascidos em 1993 e que não devem demorar a subir ao menos à filial do clube.

A grande questão para os rojiblancos é saber quando realizar a transição entre juniores e profissionais – em uma situação parecida com a enfrentada pelos clubes brasileiros após a Copa São Paulo. O caminho costumeiro é o Sevilla Atlético, sucursal que dá vivência aos jogadores como profissionais. Depois disso, o caminho estará aberto para o lançamento definitivo dos prodígios. E o passado demonstra o quanto uma decisão deste tipo pode ser acertada.