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segunda-feira, 30 de abril de 2012

O sucessor

 Sombra de Guardiola, Tito Vilanova terá a difícil missão de substituir seu amigo no comando técnico do Barcelona (AP Photos)

É tempo de mudança de ciclo no Barcelona. Na última sexta-feira, Josep Guardiola se reuniu com Sandro Rosell e Andoni Zubizarreta para decidir que não irá mais permanecer no comando técnico da equipe a partir da próxima temporada. Com a saída de Guardiola, os azulgrenás serão treinados por Tito Vilanova, auxiliar técnico do atual treinador barcelonista e até hoje um ilustre desconhecido para quem não acompanha o futebol de base na Espanha. Uma mudança não tão drástica no comando da equipe, já que Tito é adorado pelo elenco, que concordou num ato unânime o nome do novo treinador, e conhece a filosofia de jogo e as formas de treinar de Guardiola.

Catalão de Bellcaire, aos 42 anos Vilanova assume o maior desafio de sua vida profissional. A história de Guardiola e seu auxiliar começou cedo. Os dois são amigos de infancia. Coincidiram em La Masía no final dos anos 1980; porém, Vilanova não teve a mesma sorte de Pep. Fora das canteras barcelonistas, jogou duas temporadas no Figueres, pequeno clube da Catalunha, e mais tarde no Celta Vigo. Sua aventura na Galícia fora rápida: não durou um mês e Vilanova se transferiu ao Badajoz. De poupa em poupa, o catalão seguiu seu caminho: Mallorca, Lleida, Elche e Gramenet foram os outros clubes por onde passou. Após não estacionar em um lugar, resolveu se aposentar, em 2002.

Nesse mesmo ano, voltou à sua casa. No retorno ao Barcelona, foi encarregado de treinar o Cadete B dos blaugranas. No time, nada mais nada menos que três nomes especiais: Lionel Messi, Cesc Fàbregas e Gerard Piqué. Tito é internamente famoso também por ter dado início àquele que ficou marcado na história como o maior time da base barcelonista em todos os tempos. A invencibilidade desse super time chegou a cinco temporadas. A geração 1987 venceu títulos em todas as categorias: Alevín A (Sub-12). Infantil A (Sub-13), Infantil B (Sub-14), Cadete B (Sub-15), Cadete A (Sub-16), Juvenil B (Sub-17), Juvenil A (Sub-18). 

Propondo um futebol ofensivo, utilizou o 3-4-3 que variava para o 4-3-3 na prodigiosa equipe. Títulos era rotina daquela geração moldada a partir de Tito Vilanova. A quarta estrela era Victor Vázquez, hoje a serviço do Brugge, da Bélgica. Tito Vilanova, o primeiro treinador de Messi no Barcelona ainda na pré-adolescência, permaneceu com os cadetes (sub-14 e sub-15) até 2003, quando foi demitido justamente por Sandro Rosell, então diretor. 

A chegada de Juan Laporta à presidencia do Barcelona gerou uma série de mudanças drásticas e reestruturação no futebol de base barcelonista. Dez anos depois, Vilanova terá aquele trio em mãos outra vez. Promovido pelo presidente Rosell. Seu segundo retorno ao clube aconteceu em julho de 2007. Quando a cúpula azulgrená apostou em Guardiola para treinar o Barcelona Atlétic, Pep convidou seu amigo de longa data para ser auxiliar. A parceria permaneceu intacta quando Pep assumiu o time A, em 2008. Ao longo do ciclo de Guardiola, Vilanova ganhou o apelido de "sombra" pela imprensa catalã, justamente porque, segundo palavras de Pep, seu trabalho não seria nada sem o auxiliar. Em 2009, nas quartas-de-finais da Champions League, Vilanova treinou o Barcelona em Munich no confronto contra o Bayern, pelo fato de Pep ter sido expulso no jogo da ida.

Vilanova também já era bem quisto pela direção azulgrená. Foi contratado por expressa vontade de Andoni Zubizarreta, diretor-geral do Barcelona, e vem sendo constantemente elogiado por Guardiola. Ontem, após a esmagadora goleada ante o Rayo Vallecano por 7x0, Pep ratificou sua confiança em Vilanova: " Este time é novo. Tito conhece bem os jogadores e eu estou confiante que o Barcelona vai continuar competitivo sob o comando dele. Estou muito grato por todo o louvor em volta da minha ida, mas eu não estou indo pra sempre. Eu continuarei por perto", disse.

Vilanova já começa a planejar seu primeiro trabalho. O primeiro ato é uma boa preparação na pré-temporada, principalmente com os jogadores europeus que disputarão a Eurocopa. Os amistosos, antes sempre na Ásia ou na América do Norte, serão feitos somente na Europa (Inglaterra e Escócia). O motivo é não desgastar muito o elenco no início da temporada. Quanto a parte técnica, o Diário Sport já especulou que o treinador quer um zagueiro (de preferência Thiago Silva), um lateral esquerdo e um centroavante de ofício (Llorente é o nome ideal). A primeira contratação da Era Vilanova deve ser anunciado daqui a algumas semanas. Trata-se de Jordi Alba, que vinha em namoro com os blaugranas.

sábado, 28 de abril de 2012

Josep Guardiola e o melhor jogador do mundo


Em seus quatro anos ocupando o cargo de treinador do Barcelona, Josep Guardiola não só ganhou uma quantidade enorme de títulos como também aproveitou para sacar o melhor rendimento possível de seus jogadores. Vimos Xavi, Iniesta, Puyol, Piqué, Busquets, Daniel Alves, Pedro e até Víctor Valdés tornarem-se jogadores respeitáveis em cenário mundial durante a Era Guardiola. Mas, sem dúvidas nenhuma, o jogador que mais cresceu como futebolista na presença do técnico nascido em Santpedor foi Lionel Messi, que passou de um figurante a melhor do mundo a figurante a melhor da história. Peça-chave do Dream Team de Pep, Messi é eternamente agradecido ao treinador. "Graças a grande emoção, resolvi não comparecer a coletiva de despedida de Pep. Só tenho a agradecer por tudo que fez a minha carreira futebolística e a minha pessoa", disse Messi através do Facebook.

Antes da chegada de Guardiola ao time A, La Pulga começava a ganhar mais protagonismo na Catalunha, mas ainda era coadjuvante quanto as questões de títulos, ficando atrás de nomes como Ronaldinho Gaúcho, Deco e Eto'o. Contudo, a saída de Rijkaard e a mudança de treinador foi o primeiro passo para Messi entrar na galeria de ídolos barcelonistas. Até a "eterna" disputa contra as lesões La Pulga venceu. Guardiola se reuniu com o departamento médico e preparou o melhor trabalho para Leo vencer a disputa que sempre o atrapalhava ao longo da temporada. Em 2007/2008, foram duas lesões no bíceps femoral que, no total, o deixaram fora dos gramados por 2 meses e meio. 

Primeiramente, Guardiola não teve dúvidas: dispensou Ronaldinho e Deco e montou seu trabalho centrado na figura do argentino. É bom lembrar (e com justiça) que antes de se tornar a grande estrela azulgrená, Messi já havia demonstrado parte de sua qualidade e contava com duas Liga dos Campeões e duas Ligas Espanholas no currículo. Mas sua melhora dentro de campo foi notória. E não só individualmente: Messi passou a ajudar coletivamente, virando um arco e flecha letal. Uma máquina. Guardiola e Messi ganharam 13 de 16 títulos possíveis (ainda há uma Copa do Rei para disputar). Com Rijkaard, o máximo de gols em uma única temporada que havia alcançado foram 17 em 2006/2007. Com Guardiola, a melhoria se ratificava à medida que as temporada passavam: 38, 50 e 53, respectivamente em 2008/2009, 2009/2010 e 2010/2011. Na atual temporada, os números do camisa 10 assustam: 61 tentos.

Os títulos conseguidos e os números firmados nas últimas quatro temporadas serviram para Messi se estabilizar no topo do mundo. Nas últimas três premiações da Fifa e da Bola de Ouro da France Football, La Pulga levou os três troféus. Além disso, conquistou o prêmio de melhor jogador da Champions League duas vezes, competição na qual foi artilheiro nas últimas três edições (e, por ora, é artilheiro da edição 2011/2012, com seu principal concorrente, Mário Gómez, tendo um jogo a mais pela frente). Na Liga Espanhola, foi o Pichichi do torneio em 2009/2010, vice-artilheiro em 2010/2011 e disputa pau-a-pau com Cristiano Ronaldo na atual temporada. Com Guardiola, Messi superou o recorde de gols de Ronaldo Fenômeno em uma única temporada no Barcelona, ultrapassou Rivaldo como maior artilheiro azulgrená em competições europeias e tornou-se artilheiro máximo da história do clube. Recordes e mais recordes pulverizados.

A qualidade técnica de Messi e a ambição de Messi são as principais características que levaram Messi a converter-se no melhor jogador do mundo por três vezes consecutivas, mas tampouco a de se esquecer a fundamental presença de Guardiola. Pep deu ao argentino mais liberdade de movimentos ao sacá-lo da ponta direita e levá-lo ao centro do ataque, como um falso nove. Quando Messi fracassava na seleção, Maradona teve que procurar Guardiola para falar sobre como escalar o argentino em sua seleção. Nos poucos momentos negros que o argentino viveu até o momento, jamais faltou o apoio do treinador. Fato é que não há dúvidas de que a saída de Guardiola não só deixará um período de incerteza no clube, como também deixará Messi sem um de seus principais seguidores e apoiadores.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O adeus do mister


A vida é eterno perde e ganha. Num dia você perde, no outro você apanha. Hoje de manhã, Guardiola acordou mais cedo do que de costume. Tomou banho, lavou bem seu rosto e partiu para uma decisão que entristeceu todo o barcelonismo: não continuar mais treinando o Barcelona a partir da próxima temporada. A coletiva mais emocionante de uma das eras mais bonitas do futebol mundial durou 1 hora. Nela, Guardiola explicou tudo. Além disso, Sandro Rosell aproveitou para dizer o nome novo treinador, surpreendendo a todos: trata-se de Tito Villanova, auxiliar técnico de Guardiola.

Rinus Michels na década de 70. Johan Cruyff no início dos anos 1990. Josep Guardiola de 2008 a 2012. Em comum entre eles, mais do que nomes com o mesmo número de letras. Pep, que chegou desconhecido e desacreditado ao Barcelona, era a continuação de uma sina. Veio, viu, venceu. Daqui a um mês, vai abandonar o Barcelona, mas continuará vivo nos corações de cada culé. Sai do clube pela porta da frente, num tapete vermelho estendido unicamente para ele. Durante 4 anos, montou um time que encantou, pulverizou recordes e deixou o mundo inteiro boquiaberto. Em 4 anos, foram 13 títulos. Agora, Guardiola encara um novo desafio: levar a proposta de futebol bonito ao seu próximo clube, que saberemos ao longo do tempo. Em suas mãos está a missão de garimpar novos Messis, Xavis e Iniesta.

Ironia do destino, Guardiola chegou ao clube A de maneira semelhante ao de Tito. Em 2007, assumiu o Barcelona Atlétic. Logo em seu primeiro ano, foi campeão da Terceira Divisão, chegando a Segunda División B um ano depois após conseguir o acesso passando pela fase de promoção. Quando a era Rijkaard chegou ao fim, as atenções voltaram-se a José Mourinho, cotado para treinar o Barcelona. A cúpula barcelonista teve que escolher entre o português e o jovem Guardiola. Com as exigências feitas por Mourinho, não tiveram dúvida: Guardiola seria o novo treinador. Na bagagem, Pep trouxe mais dúvidas do que esperanças. Quatro anos depois, contudo, a desconfiança foi para o ralo, e o careca entrou para a história. O ex-volante tem no currículo os títulos nacionais de 2009, 2010 e 2011. Por duas vezes, conquistou a Europa (em 2009 e 2011). O mundo já foi seu também por duas vezes: 2009 e 2011. As estatísticas de Guardiola são elucidativas: orientou 242 partidas do Barcelona, ganhou 72%, a equipe marcou 618 gols e teve uma média de 67% de posse de bola.

Guardiola, produto de La Masía, recuperou toda a honra do barcelonismo. Sua aposta em jogadores da base foram um dos principais pontos de sucesso durante esses 4 anos. Na última final da Champions League, 7 dos 11 iniciais foram formados nas canteras blaugranas. Apostou em jogadores que tornaram-se sucesso como Pedro e Busquets, recuperou um canterano enterrado em Manchester como Piqué, transformou Lionel Messi, craque mas derrotado sempre pelas lesões, em melhor do mundo, Puyol, eterno capitão mas sempre estabanado, em um dos melhores de sua posição, Víctor Valdés em goleiro confiável e Xavi, subestimado durante o período de Rijkaard, num dos melhores passadores de todos os tempos. Sem falar em Iniesta, um dos melhores meio-campistas do mundo. Com essas modificações e novidades, conseguiu trabalhar. Montou um Barcelona fadado ao sucesso. Pressão intensiva, busca pela posse de bola, coletivismo, trabalho em grupo, atacar e dominar sempre o jogo.

Antes de Guardiola, foram 2 anos regados por espera e sofrimento. Mais de 3 anos sem conquistar a tão cobiçada taça da Champions League. Em âmbito nacional, viu o Real Madrid quebrar a hegemonia e conquistar o bi-espanhol. O sabor de um título jazia no paladar do torcedor blaugrana como um gosto distante. Perdido no banquete das desilusões. Mas o martírio teve fim. E deixou cada culé de barriga cheia. Bastou só 1 ano. Nesse tempo, Guardiola entrou para a história. Liga Espanhola, Copa do Rei, Uefa Champions League, Supercopa da Espanha, Supercopa da Uefa e Mundial de Clubes. Momentos especiais pedem pessoas especiais. Guardiola, o volante inteligente, o treinador em campo, o desconhecido, saiu da filial para brilhar no time A. As cinco letras voltavam ao Camp Nou para cumprir a sina. Catalunha era do Barcelona. O Barcelona era de Guardiola. Nascia um ídolo. Se despede um mito.